Faca e gesto consequentes

  Antônio Hohlfeldt (Diário do Sul, 22 de dezembro de 1986) Fotos de Isabella Lacerda      Beckett é conhecido por seu niilismo e sua descrença em qualquer valor que ultrapasse a humanidade. Mais do que isso, o grande escritor irlandês desacredita na própria criatura humana, que visualiza como um ser sem caminho e sem lógica, sobrevivendo sem qualquer objetivo na vida, ou, quando os tem, sendo enganado por um falso objetivo (como em “Esperando Godot”, já que o tal Godot, em última análise, jamais virá porque jamais pensou em vir).       No caso de “Fim de Partida”, pode-se dividir a situação dramática em duas abordagens. A mais imediata é exatamente aquela que, em nível de realidade, pode ser desprendida das alusões, nem tão escassas assim, que pontuam todo o texto, talvez um dos primeiros trabalhos literários a abordarem a traumatizante experiência da bomba nuclear dos Estados Unidos em 1945. Pode-se pressupor que há muito aqueles quatro sobrevivem em uma construção quase subterrâ

Os Ritos da Liberdade

    Marco Weissheimer (Trinta dias de cultura – jan.fev.mar. 1991) 
 

Qual a origem, a essência do teatro? Herdeiros de Antonin Artaud, na busca de um teatro que recupere sua identidade original – o contato humano concreto – os atuadores do Ói Nóis Aqui Traveiz foram buscar na Antiga Grécia, a Tragédia de Antígona, de Sófocles, uma defesa da desobediência civil do indivíduo contra a opressão do Estado, do Poder. São quase três horas de espetáculo, de contato contínuo dos atores com o público (podem entrar 50 pessoas no máximo em cada sessão), onde, em certos momentos, o texto adquire uma posição secundária. Os alvos são as sensações do público. É a busca de um teatro participativo que uma coração e mente na vivência de um drama humano.

Antígona Ritos de Paixão e Morte arranca o público de sua cômoda posição de espectador. Para assistir à peça é preciso usar coração, cérebro e as pernas. O contato com os atores é direto. Olho no olho, pele na pele. Envolve todos os sentidos com cheiro, sons, cores e movimentos. Na relação entre atores e público, a fragmentação humana fica evidente. O medo do olhar e do toque humano. O desequilíbrio racional e emotivo, hoje dominante, reflete-se na maneira como as pessoas estão vivendo e na forma como assistem a uma peça apresentada de quintas a domingos, às 21 horas, na Terreira da Tribo (rua José do Patrocínio), em Porto Alegre.

 





 

O cenário é um deserto e a cidade é a antiga Tebas. O chão está  coberto de areia, há uma ponte de corda e madeira, um lago, uma ossada. No enredo original de Sófocles, Antígona (Beatriz Britto) entra em conflito com o rei Creonte (Paulo Flores), por querer enterrar seu irmão Polinice, morto em batalha contra os soldados de Tebas. Creonte julga Polinice um traidor e ordena que seus restos apodreçam sob o sol. Entram em conflito o indivíduo e o poder. Mas, do texto original, pouco foi preservado. Ao texto de Sófocles, somam-se leituras de Bertolt Brecht, Jean Anouilh, Jean Paul Sartre, Albert Camus, Antonin Artaud, Anais Nin, entre outros.

 

Segundo a atuadora Beatriz Britto, um teatro de comunhão pede a criação de um novo espaço, que envolva ator e espectador, fim da divisão entre palco e platéia. É a defesa do contato físico, direto com o público, que o faça sair da condição passiva à que foi acostumado. A versão do Ói Nóis para Antígona envolve textos de ruptura com a postura conservadora e alienante de vida.

Foram misturadas reflexões materialistas e existencialistas junto ao original de Sófocles. O resultado é estimulante. O principal inimigo da liberdade individual não é  o Estado, o Poder, mas a omissão do homem frente a situações de conflito. O obstáculo para uma vida harmônica e prazerosa é o embrutecimento dos sentidos e da razão, a fragmentação de corpo e cérebro. Ói Nóis Aqui Traveiz tenta juntar esses cacos e dotá-los de um sentido. Procura demolir a fronteira entre as pessoas, que já não se permitem o toque, o olhar. Viver vale a pena, desde que seja para conquistar a liberdade através dos próprios atos.

 

A origem do Teatro é a comunhão das pessoas, o encontro humano, momento de êxtase e sensação. O Teatro é talvez a última chance do homem ser aquilo que deve ser, um ser integral e integrado com seus semelhantes, não através do embrutecimento, mas da sensibilidade criadora. “Ser tocado! Acaso sabem o que é ser tocado por um ser humano?” – perguntou certa vez Anais Nin. Assistindo Antígona, a resposta é de uma clareza incontestável: o toque de outra pessoa é algo estranho, ameaçador; a sensibilidade foi embrutecida por uma vida vazia de significados reais. Para Paulo Flores, um dos fundadores da Tribo, nesse final de milênio, o Teatro permanece como o único lugar reservado a resgatar a autenticidade humana inicial; desalienar o homem moderno, restituí-lo à sua verdade carnal e original.


O projeto pesquisa Raízes do Teatro não se encerra com Antígona. O grupo pretende evoluir para vivências teatrais, que não  tenham preocupação com o produto final. “Que seja a própria cultura em processo, onde as pessoas se entreguem a uma experiência de vida. Que abra um espaço para o exercício de sensibilização do corpo e da imaginação através da convivência, sem temas e roteiros definidos e sem qualquer preocupação com a encenação final”, escreveu Paulo Flores. “Queremos descobrir as grandes paixões essenciais ocultas pelo homem falsamente civilizado”, diz ele.

Após a apresentação de Antígona atores e público conversam numa sala sobre o que sentiram. O objetivo da peça é sacudir as pessoas, fazê-las pensar sobre suas trajetórias. A vida só tem sentido enquanto desafio de construção. Ligar os fragmentos e dotá-los de um sentido, dar uma história a nossas vidas. Vive-se hoje num mundo repleto de informações. A rede de comunicação fecha-se sobre o mundo exterior e estamos presos a ela, sem entender muita coisa. Os fatos se sucedem e vivemos versões e repercussões. Poucos conseguem gerar e vivenciar atitudes históricas. Não, assistir às novelas globais não é uma atitude histórica. Ainda mais quando este ato repete-se diariamente. Os cães coçam suas pulgas todos os dias. Nossos dias precisam de gestos únicos, que revelem individualidades cheias de vida, com desejo de expansão. Isso é transcender o círculo da rotina. Isso é vier.

 

Penso na relação entre a história da humanidade e nossas histórias individuais. Que pessoa é capaz de reconstituir sua trajetória pessoal, a evolução de seu pensamento (quando há), as mudanças de posição, de comportamento. Restam apenas fragmentos, pedaços de memórias empoeiradas. Na esmagadora maioria dos casos, as pessoas vivem construindo coisas incompletas, fabricando ruínas, destroços. A consciência tenta construir um sentido para a sucessão de eventos que marcam uma existência. Perde-se em labirintos. A vida acaba resumindo-se em sensações repetidas à exaustão. Mesmice existencial é uma marca da espécie.

Prolifera um estado de absoluto desprezo pelo momento presente, caracterizado pela repetição de gestos já vividos, padrões estabelecidos projeção de dias melhores que jamais virão. O momento é aqui e agora. A frase é velha, mas difícil de viver. O pacto com a mediocridade escraviza.

O francês Antonin Artaud, que morreu desprezado pela espécie, abandonado num quarto de hotel, deixou um pedido para todos nós: “abandonem as cavernas do ser. Venham, o espírito respira para fora do espírito. É tempo de deixarem suas moradas. Cedam ao Todo-Pensamento. O maravilhoso está na raiz do espírito”.