DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

Faca e gesto consequentes

 Antônio Hohlfeldt (Diário do Sul, 22 de dezembro de 1986)

Fotos de Isabella Lacerda

   Beckett é conhecido por seu niilismo e sua descrença em qualquer valor que ultrapasse a humanidade. Mais do que isso, o grande escritor irlandês desacredita na própria criatura humana, que visualiza como um ser sem caminho e sem lógica, sobrevivendo sem qualquer objetivo na vida, ou, quando os tem, sendo enganado por um falso objetivo (como em “Esperando Godot”, já que o tal Godot, em última análise, jamais virá porque jamais pensou em vir).


 

   No caso de “Fim de Partida”, pode-se dividir a situação dramática em duas abordagens. A mais imediata é exatamente aquela que, em nível de realidade, pode ser desprendida das alusões, nem tão escassas assim, que pontuam todo o texto, talvez um dos primeiros trabalhos literários a abordarem a traumatizante experiência da bomba nuclear dos Estados Unidos em 1945. Pode-se pressupor que há muito aqueles quatro sobrevivem em uma construção quase subterrânea, que os salvou da morte certa em uma explosão nuclear. Contando com alguns mantimentos, vêm sobrevivendo, ainda que a escassez se acentue. Parcos – quase nenhum, são os sinais de vida remanescentes: uma pulga, um rato e eles mesmos. Odiando-se, perdem o sentido das horas, mas teimam em mantê-las no relógio, que, afinal, funciona, como uma espécie de “enganador do tempo” marcando, na verdade, pela hora de tomar remédios, contar uma (sempre a mesma) história, comer qualquer coisa, levantar, deitar, etc. Enquanto isso, o criado anda de uma janela para outra, a tentar descobrir qualquer sinal de vida, o que parece ocorrer no final, quando ele se prepara para sair, mas então, se vê, definitivamente, preso ao grupo, pois, enfim, também perdeu a articulação de suas pernas e do próprio corpo, condenado que está àquela eterna companhia, após a morte dos dois velhos.


O outro nível de análise se dá  em nível filosófico, retomando as antigas preocupações de Beckett. A situação pode ser vista, assim, como uma imagem da própria vida, à qual estamos condenados, sem saída, vivendo esterilmente em relação a nossos semelhantes, negando-nos a nossa própria humanidade, distanciando-nos permanentemente de qualquer possibilidade de uma comunicação mais efetiva com nosso semelhante. Neste mundo, não há qualquer crença numa vida posterior: ali é ruim, lá fora, ainda pior (isto é, após a morte). Neste sentido, a peça coloca-se como um círculo fechado sobre si mesma, o que o cenário bem traduz, ao introduzir o espectador por um corredor circular, feito em zinco até o quente círculo coberto por plástico negro, onde se dá a encenação.

   O realismo da cenarização de Isabela Lacerda, combinado com o aplique de grossas camadas de maquiagem que, com o calor despregam da pele dos atores, e mais os figurinos criam um clima de opressão, de apodrecimento e decomposição impressionantes. O contraponto criado, ao início e final da peça, com a trilha sonora, deixando, contudo, todo o tempo central da encenação entregue exclusivamente ao diálogo dos personagens, ratifica esta impressão: é como se as palavras fossem facas a esgravatarem as entranhas de cada um. A dramaticidade, radicalizada mantém-se, contudo, sob permanente controle, graças a uma interpretação que, ao contrário, é quase neutra, com um controle total dos intérpretes em gestos lentos, que se desfazem à medida mesmo em que ocorrem, como se fosse impossível repeti-los alguns segundos depois.

   Apesar do calor e da inoportunidade desta temporada, nesta altura do ano, a encenação de “Fim de Partida” pelo grupo “Ói nóis aqui” coloca-se, contudo, sem sombra de dúvidas, dentre os mais importantes espetáculos produzidos entre nós nesta temporada, e revela-nos um grupo bem mais consequente do que se poderia esperar, a partir de seus espetáculos anteriores.


Numa temporada que se caracterizou pela boa qualidade da maioria dos espetáculos apresentados, o grupo “Ói nóis aqui” uma vez mais se destaca, desafiando o público e propondo, inesperadamente, um trabalho de grande profundidade, e que, inevitavelmente, marcará nosso teatro, mesmo que a escassez de público para espetáculos desse gênero seja também evidente.