ESTÍMULO CEREBRAL

Dirceu Alves Jr. (Veja SP, 4 de dezembro de 2019)      Foto de Pedro Isaías Lucas   A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é o principal coletivo da cena de Porto Alegre. Fundado há 21 anos, o grupo se firmou graças a uma estética provocadora e um permanente diálogo crítico junto ao público em montagens de rua ou desenvolvidas em salas fechadas. Cartaz do Teatro do Sesc Bom Retiro, Meierhold, adaptação da peça do dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky, concentra toda a sua força na reflexão de ideias em uma encenação com raros momentos surpreendentes. Paulo Flores interpreta o ator, diretor e teórico russo Vsevolod Emilevich Meierhold (1874-1940), preso, torturado e fuzilado pela ditadura stalinista por ter sua obra considerada como inadequada. O próprio personagem, tal como um fantasma, reconstitui seu passado e se mune de convicção para ressaltar o firme caráter e a necessidade de liberdade. Em algumas passagens, assume, inclusive, um saudável didatismo. A estrutura de monólogo, b

IV FESTIVAL DE TEATRO: ABERTURA COM BRILHO

 

Nelson Abott de Freitas (Diário Popular de Pelotas, 23 de agosto de 1988) 

 

Fora do páreo, houve a exceção, na abertura, dia 15, com o esfuziante e belo espetáculo popular – A História do Homem que Lutou sem Conhecer seu Grande Inimigo – encenado na rua, às 17h de uma tarde de chuva, por conta do grupo porto-alegrense Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Foi o momento mais entusiasmante do Festival.

Esse espetáculo foi uma festa. Palhaços em pernas-de-pau. Tambores, cores, alegria e barulho na rua, chamando o público para o teatro que conta a história de Zé da Silva, o homem cansado de esperar, acabrunhado, desempregado, ferido em sua dignidade pessoal, sem forças, exaurido e morto pela fome. A peça, a partir do trabalho de Augusto Boal – “A Revolução na América do Sul” – denuncia a fome, a opressão, os mecanismos de alienação impostos pelo governo, a corrupção, falando de problemas variados: multinacionais, saúde, leis trabalhistas e TV. Nem mesmo a Igreja se salva. Um trabalho feito com muita graciosidade e movimento, explorando o humor do circo e o clima da comédia farsesca, com um elenco homogêneo que cria sabiamente o tempo todo cenas riquíssimas de fluência e comicidade.

O grupo porto-alegrense, especializado em teatro de rua, consegue manter a atenção do público por quase duas horas – de pé sob a garoa – sem mostrar cansaço, seguindo interessadamente o espetáculo. Pois o elenco trabalha emocionado, demonstrando expressividade e espontaneidade nos menores movimentos. Uma peça alegre, sem monotonia, sem vulgaridade e apelação – não se ouviu um palavrão e nem se viu um gesto obsceno – divertida, mas fazendo o público pensar.

Aí  está o grande teatro para o povo. O teatro informal – e bem feito – levado às praças, bairros e vilas, como o teatro de Moliére, vivo e colorido, brincando e dizendo verdades. O Grupo Terreira da Tribo tem forte vínculo com o povo, porque é a partir das raízes culturais, interesses, sentimentos e aspirações desse povo que eles buscam o texto e elaboram a sua proposta estética. O povo, então, se identifica com as personagens exibidas, vibra e se emociona, e talvez passe a gostar de teatro. Bem-vindo a esse IV Festival é esse grupo gaúcho.