MEDEIA: DO MITO ATÉ MEDEIA VOZES | Jorge Arias

Fotos de Pedro Isaías Lucas Medeia é um dos grandes enigmas da literatura ou, talvez, da história. O primeiro enigma é se existiu uma Medeia, real e histórica, uma mulher de carne e ossos, sobre a qual foi construído um mito, uma lenda, como aconteceu com os heróis lendários de Troia, que realizaram grandes, difíceis e impossíveis façanhas, mas tiveram como base alguma realidade, de alguma forma existiram. Alguns aspectos negam o caráter puramente mítico da história: a viagem dos argonautas até a Cólquida na margem oriental do Mar Negro, em busca do velocino de ouro, está de acordo com as expedições comerciais dos gregos; as intrigas do palácio, como o exílio de Medeia em Corinto, têm uma cor de verdade; e, acima de tudo, a apaixonada controvérsia sobre se ela matou ou não seus filhos. Não se discute ou, ao menos, não é comum discutir o que faz ou não faz uma personagem de ficção.     O segundo enigma é o caráter dela. Medeia é neta de Hélio, sacerdotisa de Hécate, feiticeira, brux

IV FESTIVAL DE TEATRO: ABERTURA COM BRILHO

 

Nelson Abott de Freitas (Diário Popular de Pelotas, 23 de agosto de 1988) 

 

Fora do páreo, houve a exceção, na abertura, dia 15, com o esfuziante e belo espetáculo popular – A História do Homem que Lutou sem Conhecer seu Grande Inimigo – encenado na rua, às 17h de uma tarde de chuva, por conta do grupo porto-alegrense Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Foi o momento mais entusiasmante do Festival.

Esse espetáculo foi uma festa. Palhaços em pernas-de-pau. Tambores, cores, alegria e barulho na rua, chamando o público para o teatro que conta a história de Zé da Silva, o homem cansado de esperar, acabrunhado, desempregado, ferido em sua dignidade pessoal, sem forças, exaurido e morto pela fome. A peça, a partir do trabalho de Augusto Boal – “A Revolução na América do Sul” – denuncia a fome, a opressão, os mecanismos de alienação impostos pelo governo, a corrupção, falando de problemas variados: multinacionais, saúde, leis trabalhistas e TV. Nem mesmo a Igreja se salva. Um trabalho feito com muita graciosidade e movimento, explorando o humor do circo e o clima da comédia farsesca, com um elenco homogêneo que cria sabiamente o tempo todo cenas riquíssimas de fluência e comicidade.

O grupo porto-alegrense, especializado em teatro de rua, consegue manter a atenção do público por quase duas horas – de pé sob a garoa – sem mostrar cansaço, seguindo interessadamente o espetáculo. Pois o elenco trabalha emocionado, demonstrando expressividade e espontaneidade nos menores movimentos. Uma peça alegre, sem monotonia, sem vulgaridade e apelação – não se ouviu um palavrão e nem se viu um gesto obsceno – divertida, mas fazendo o público pensar.

Aí  está o grande teatro para o povo. O teatro informal – e bem feito – levado às praças, bairros e vilas, como o teatro de Moliére, vivo e colorido, brincando e dizendo verdades. O Grupo Terreira da Tribo tem forte vínculo com o povo, porque é a partir das raízes culturais, interesses, sentimentos e aspirações desse povo que eles buscam o texto e elaboram a sua proposta estética. O povo, então, se identifica com as personagens exibidas, vibra e se emociona, e talvez passe a gostar de teatro. Bem-vindo a esse IV Festival é esse grupo gaúcho.