ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 2]

    Com um mês de atividades o Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz foi interditado pela Secretaria de Segurança. Aí começou uma longa campanha pela reabertura do teatro. O fechamento agravou a situação econômica do grupo e a saída de alguns dos seus integrantes. Para vencer a crise o grupo buscou outros espaços para encenar o seu espetáculo. Também é o momento em que o grupo começou a compartilhar as suas experiências através de uma oficina de teatro. E é principalmente com os jovens desta oficina que criou a montagem de “A Bicicleta do Condenado”, do espanhol Fernando Arrabal: um preTexto para a reVolta do Ói Nóis Aqui Traveiz. Durante o processo de criação integrantes do grupo foram presos em manifestações contra a ditadura. Essa experiência de repressão e violência foi canalizada para a cena. A reabertura do Teatro trouxe para a encenação uma história de opressão e horror, onde duas pessoas tentam sobreviver em um lugar comandado por uma ordem militar. Se no primeiro espetáculo o público fi

IV FESTIVAL DE TEATRO: ABERTURA COM BRILHO

 

Nelson Abott de Freitas (Diário Popular de Pelotas, 23 de agosto de 1988) 

 

Fora do páreo, houve a exceção, na abertura, dia 15, com o esfuziante e belo espetáculo popular – A História do Homem que Lutou sem Conhecer seu Grande Inimigo – encenado na rua, às 17h de uma tarde de chuva, por conta do grupo porto-alegrense Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. Foi o momento mais entusiasmante do Festival.

Esse espetáculo foi uma festa. Palhaços em pernas-de-pau. Tambores, cores, alegria e barulho na rua, chamando o público para o teatro que conta a história de Zé da Silva, o homem cansado de esperar, acabrunhado, desempregado, ferido em sua dignidade pessoal, sem forças, exaurido e morto pela fome. A peça, a partir do trabalho de Augusto Boal – “A Revolução na América do Sul” – denuncia a fome, a opressão, os mecanismos de alienação impostos pelo governo, a corrupção, falando de problemas variados: multinacionais, saúde, leis trabalhistas e TV. Nem mesmo a Igreja se salva. Um trabalho feito com muita graciosidade e movimento, explorando o humor do circo e o clima da comédia farsesca, com um elenco homogêneo que cria sabiamente o tempo todo cenas riquíssimas de fluência e comicidade.

O grupo porto-alegrense, especializado em teatro de rua, consegue manter a atenção do público por quase duas horas – de pé sob a garoa – sem mostrar cansaço, seguindo interessadamente o espetáculo. Pois o elenco trabalha emocionado, demonstrando expressividade e espontaneidade nos menores movimentos. Uma peça alegre, sem monotonia, sem vulgaridade e apelação – não se ouviu um palavrão e nem se viu um gesto obsceno – divertida, mas fazendo o público pensar.

Aí  está o grande teatro para o povo. O teatro informal – e bem feito – levado às praças, bairros e vilas, como o teatro de Moliére, vivo e colorido, brincando e dizendo verdades. O Grupo Terreira da Tribo tem forte vínculo com o povo, porque é a partir das raízes culturais, interesses, sentimentos e aspirações desse povo que eles buscam o texto e elaboram a sua proposta estética. O povo, então, se identifica com as personagens exibidas, vibra e se emociona, e talvez passe a gostar de teatro. Bem-vindo a esse IV Festival é esse grupo gaúcho.