Faca e gesto consequentes

  Antônio Hohlfeldt (Diário do Sul, 22 de dezembro de 1986) Fotos de Isabella Lacerda      Beckett é conhecido por seu niilismo e sua descrença em qualquer valor que ultrapasse a humanidade. Mais do que isso, o grande escritor irlandês desacredita na própria criatura humana, que visualiza como um ser sem caminho e sem lógica, sobrevivendo sem qualquer objetivo na vida, ou, quando os tem, sendo enganado por um falso objetivo (como em “Esperando Godot”, já que o tal Godot, em última análise, jamais virá porque jamais pensou em vir).       No caso de “Fim de Partida”, pode-se dividir a situação dramática em duas abordagens. A mais imediata é exatamente aquela que, em nível de realidade, pode ser desprendida das alusões, nem tão escassas assim, que pontuam todo o texto, talvez um dos primeiros trabalhos literários a abordarem a traumatizante experiência da bomba nuclear dos Estados Unidos em 1945. Pode-se pressupor que há muito aqueles quatro sobrevivem em uma construção quase subterrâ

O experimentalismo que está dando certo

    Claudio Heemann (Zero Hora,  2 de setembro de 1987) 

 

 

   O Grupo Ói Nóis Aqui Traveiz assumiu outra atitude pioneira entre nós. Desta vez como cultor de repertório. Apresenta em seu espaço na Terreira da Tribo, em dias alternados, suas três últimas produções. São elas “A Exceção e a Regra” de Bertolt Brecht, uma experiência de teatro de sombras intitulada “Manchas no Lençol” e “Ostal” de Aldo Rostagno, ritual cênico típico do estilo que tem distinguido a atuação do conjunto de Paulo Flores. Como sempre, o repúdio aos valores dominantes e ao palco tradicional, com o pensamento na transformação da sociedade, caracterizam a atuação do grupo. A encenação de celebrações contestatórias que é a forma de expressão mais característica do radicalismo do Ói Nóis Aqui Traveiz tem sido acompanhada nas últimas temporadas pela utilização de obras de autores consagrados. Depois de “As Domésticas”, de Jean Genet, houve, de Samuel Beckett, “Fim de Partida”. Agora chegou a vez de Bertolt Brecht, antecipando Adamov que será o próximo dramaturgo no repertório do conjunto.

 

 


   “A Exceção e a Regra’ é uma das conhecidas pequenas peças didáticas que Brecht compôs de maneira silogística, fazendo crítica ao capitalismo. A obra possui o tom sarcástico característico de Brecht e analisa com dialética penetrante a relação oprimido-opressor. Em contraponto à sobriedade matemática do texto, “A Exceção e a Regra” do Ói Nóis Aqui Traveiz colocou vigor juvenil numa visão tropicalista da conhecida obra. A clareza racional do texto encontrou na montagem um traçado caricatural. Este tratamento não esconde uma inspiração expressionista. Os personagens centrais aparecem de modo grotesco com máscaras semelhantes às da comédia dell’arte. O juiz é feito por dois atores dentro de uma só roupa, ficando gigantesco. Há um coro que dá ênfase ginástica à movimentação. Os figurantes cumprem determinadas vezes a função de cenário vivo. Com toda a vibração e o ritmo do samba, a música é popular e bem brasileira.


   Assim, a vitalidade da performance se processa com certo ímpeto carnavalesco. Devido ao dinamismo com que as canções são interpretadas e o eco do tambor no recinto da apresentação (há  um conjunto musical em cena) algumas letras essenciais, notadamente no prólogo, não ficam muito claras. Mas quando Zé da Terreira e um trio feminino cantam sozinhos, o problema desaparece. No mais, personagens e situações bem definidos, a lição desejada pelo texto passa com facilidade para a platéia. “A Exceção e a Regra” discorre sobre a injustiça da justiça comprometida com o poder oligárquico e a lógica da opressão. Essa justiça não aceita a bondade como possível nas circunstâncias habituais de relacionamento entre empregado e patrão. A regra é a luta entre as classes; a exceção é o gesto cordial entre representantes de camadas sociais diferentes. Por isso, o comerciante da peça mata o carregador supondo que ele só poderia querer agredi-lo quando se aproxima para um gesto amigo. 
 

   Sombras

   Com os jovens das oficinas de Experimentação e Pesquisa Cênica da Terreira da Tribo, o segundo dos três espetáculos do Ói Nóis Aqui Traveiz em cartaz é mais um exercício técnico do que qualquer outra coisa. Chama-se matreiramente “Manchas no Lençol”. Mas trata-se apenas de algumas experiências com o teatro de sombras. Atores e objetos cenográficos são iluminados por trás, lançando silhuetas bem delineadas sobre uma tela. Na frente dela, o público recebe as imagens e movimentos com o fascínio de quem assiste a um antepassado da animação cinematográfica. Pequenos truques, efeitos sonoros, luz colorida, humor e a linguagem visual do teatro de sombras conquistam logo a platéia com o apelo pantomímico e fascínio ilusionista. Em cinco cenas breves, “Manchas no lençol”, posiciona-se como exercício e divertimento. Comprova a inquietação do Ói Nóis Aqui Traveiz diante das possibilidades de linguagem cênica. As exigências de habilidade artesanal do teatro de sombras foram bem atendidas. Sugerem até que o teatro de sombras do “Ói Nóis” poderia aprofundar o uso desta técnica numa realização de grande fôlego. A força das imagens obtidas com as sombras oferece um campo fértil para invenção e fantasia. 

   Mergulho psíquico


   Porém, é com “Ostal” que o Ói Nóis Aqui Traveiz se propõe mexer mais fundo com a platéia. Apenas vinte pessoas podem assistir a cada representação da peça. Os espectadores são introduzidos na área cênica (ótima decor de Isabella Lacerda) por um médico em traje cirúrgico. Convidado a usar máscaras de sala de operação, o espectador é levado ao quarto de uma paciente. Em volta da cama da doente, estabelece-se o contato com o mundo de uma esquizofrênica. Acessos, alucinações, sofrimento, são delineados numa tensa e claustrofóbica visita à realidade dos conflitos psíquicos. Nenhuma palavra é pronunciada durante a representação. Simplesmente os espectadores entram na intimidade de uma situação extrema.

   “Ostal” foi criado pelo grupo italiano CFR (abreviação de confrontação) sob a direção de Aldo Rostagno. O termo “Ostal” é uma palavra do francês arcaico e significa lar-templo. A obra quer retratar o processo esquizofrênico de um indivíduo e denunciar, simbolicamente, a violência do processo de estruturação da personalidade que pode acontecer com a destruição da parte mais sensível das pessoas. Poderia usar como epígrafe aqueles versos de Mário Quintana: “Da primeira em que me assassinaram, perdi o jeito de sorrir que eu tinha”. Interessa ao “Ói Nóis Aqui Traveiz” colocar que a destruição mental de um indivíduo é obra de uma sociedade cruel e condicionamentos desumanos. A encenação de “Ostal”, com sua ambientação forte e clima denso, consegue ser bastante contundente ao colocar o espectador dentro de um quadro vivo que oscila entre a insanidade, o sonho e a ameaça. Aliás, alguns espectadores não suportam a atmosfera da peça e se retiram durante a representação. Arlete Cunha, no papel da doente, domina com muita interioridade o sentido ritual da representação, muito bem secundada por Maria Rosa, Sérgio Etchichurry, Renan Costa e os efeitos luminosos e sonoros. A cenografia com seu túnel misterioso, a casa imensa, os alçapões-surpresa, a mesa de jantar depredada, é extremamente eficiente em criar um espaço cênico apropriado. Dá ao público um tratamento de choque conscientizador.