DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

AS DOMÉSTICAS


Claudio Heemann ( Zero Hora, 08 de março de 1986)
Fotos de Roberto Silva


O Grupo Ói Nóis Aqui Traveiz está apresentando sua versão “As Criadas” de Jean Genet, sob o título de “As Domésticas”, segundo uma adaptação de Paulo Flores. O Ói Nóis Aqui Traveiz ganhou notoriedade pelo inconformismo e contestação com que tem orientado seus espetáculos. Há oito anos faz teatro agressivo e antiburguês, muitas vezes indo para a rua interferir na realidade ou envolvendo fisicamente o espectador com encenações rirualísticas. A linguagem cênica do Ói Nóis Aqui Traveiz tem se caracterizado pela sugestão plástica, a ação física, com minimização do texto e da palavra. Por isso é um tanto surpreendente que o grupo tenha escolhido Genet e respeitado a densidade literária do autor de “Note Dame de Fleurs”. Mas é claro que o aspecto ritual satânico da peça, e a temática das relações entre dominador e oprimido, se identificam com a postura do conjunto orientado por Paulo Flores. 
 

O grupo faz uma leitura fiel ao jogo de aparências manobrada por Genet. Aparece bem a intricada troca de papéis e escamoteamento de personalidade que envolve não só as personagens mas os atores travestidos segundo a ótica sexual do autor. Estamos diante de um jogo sufocante de perversões, fechado em si mesmo. Verdade e mentira, aparência e realidade, submissão e revolta, aspiração e ilusão formam um pesadelo esquizofrênico. As forças em comando são maldade e frustração, vingança e degenerescência, servilismo e traição, amor e ódio, impotência e desejo. O efeito é de um universo infernal. As relações de identidade das figuras mudam a cada instante. Uns fingindo ser os outros, querendo e repudiando os outros numa interminável girândola sadomasoquista. As criadas da peça querem ser a patroa. Vestem a roupa da dona da casa. Imitam seus gestos. Representam as atitudes da senhora enquanto ela está ausente. Tudo isso é adoração ambivalente desmascarada quando fica descoberto que levaram, com cartas anônimas, o amante da patroa à cadeia. E estão planejando o assassinato da dona da casa. 


Na terrível mascarada que é a peça, a bondade da patroa é inútil, já que ela ocupa uma posição de privilégio. O que realmente existe de básico é o ódio das criadas e o horror do mundo. As empregadas gostariam de assumir o papel que a patroa desempenha na sociedade. Não sendo isso possível, resolvem eliminá-la. Tão intenso é o esquema de destruição que desencadeiam, que chegam, fantasiadas de patroa, a um clímax de autodestruição. O recado maior da peça é que seu autor, na vida real, presidiário e homossexual, estigmatizado e repelido pela sociedade, quer destruí-la. É a revolta e a vingança da marginalização. Daí o quadro do mundo travestido e louco, entregue a sonhos desesperados e que termina em nada. A peça de Genet é um ritual de maldade, desesperança e negação. Com ele, Genet assina uma condenação de morte para uma sociedade cruel e doente. 
 
 
Como observou Sartre em sua análise de “Lês Bonés” o bem á apenas uma ilusão. O mal é o nada que se eleva sobre as ruínas do bem. O espetáculo do Ói Nóis Aqui Traveiz transmite essa sensação de clareza. A visão é de crítica a um universo corrompido e condenado. Os cenários e os figurinos de Isabella Lacerda são expressivos em criar atmosfera e enfatizar o problema sexual latente. Dos intérpretes, Paulo Flores (a patroa) é quem aparece com mais inteligibilidade. As domésticas vividas por João Horácio Borges (Solange) e Renan Costa (Clara) compensam com energia, ritmo e senso de grotesco o que lhes falta em dicção e maturidade interpretativa.

Mais uma vez o Ói Nóis Aqui Traveiz celebra uma missa negra com a devida convicção litúrgica. Consegue materializar em seu espaço cênico anticonvencional um clima de inquietação.