TERREIRA DA TRIBO 37 ANOS DE (R)EXISTÊNCIA

Artigo publicado no Correio do Povo em 11 de setembro de 2021. Fotos de Pedro Isaias Lucas.     No dia 14 de julho de 1984 a Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz abria as suas portas para o público. Com um show de rock-punk que reuniu as bandas Replicantes e Urubu Rei, entre outras. Logo em seguida o Ói Nóis Aqui Traveiz encenou na nova casa “A Visita do Presidenciável ou Os Morcegos estão Comendo os Abacates Maduros”, uma parábola sobre o momento político que o Brasil vivia, com a saída dos militares de cena e a entrada de um governo civil. E anunciava para toda cidade “...todas as pessoas gostam de cantar, dançar, representar, pintar, fotografar. Qualquer pessoa é capaz de criar e a Terreira da Tribo está aí para isso”. E nesses 37 anos de atividades a Terreira da Tribo abrigou as mais diversas manifestações culturais como espetáculos de teatro, shows musicais, ciclos de filmes e vídeos, seminários, debates, performances e celebrações. Hoje a Terreira é reco

AS DOMÉSTICAS


Claudio Heemann ( Zero Hora, 08 de março de 1986)
Fotos de Roberto Silva


O Grupo Ói Nóis Aqui Traveiz está apresentando sua versão “As Criadas” de Jean Genet, sob o título de “As Domésticas”, segundo uma adaptação de Paulo Flores. O Ói Nóis Aqui Traveiz ganhou notoriedade pelo inconformismo e contestação com que tem orientado seus espetáculos. Há oito anos faz teatro agressivo e antiburguês, muitas vezes indo para a rua interferir na realidade ou envolvendo fisicamente o espectador com encenações rirualísticas. A linguagem cênica do Ói Nóis Aqui Traveiz tem se caracterizado pela sugestão plástica, a ação física, com minimização do texto e da palavra. Por isso é um tanto surpreendente que o grupo tenha escolhido Genet e respeitado a densidade literária do autor de “Note Dame de Fleurs”. Mas é claro que o aspecto ritual satânico da peça, e a temática das relações entre dominador e oprimido, se identificam com a postura do conjunto orientado por Paulo Flores. 
 

O grupo faz uma leitura fiel ao jogo de aparências manobrada por Genet. Aparece bem a intricada troca de papéis e escamoteamento de personalidade que envolve não só as personagens mas os atores travestidos segundo a ótica sexual do autor. Estamos diante de um jogo sufocante de perversões, fechado em si mesmo. Verdade e mentira, aparência e realidade, submissão e revolta, aspiração e ilusão formam um pesadelo esquizofrênico. As forças em comando são maldade e frustração, vingança e degenerescência, servilismo e traição, amor e ódio, impotência e desejo. O efeito é de um universo infernal. As relações de identidade das figuras mudam a cada instante. Uns fingindo ser os outros, querendo e repudiando os outros numa interminável girândola sadomasoquista. As criadas da peça querem ser a patroa. Vestem a roupa da dona da casa. Imitam seus gestos. Representam as atitudes da senhora enquanto ela está ausente. Tudo isso é adoração ambivalente desmascarada quando fica descoberto que levaram, com cartas anônimas, o amante da patroa à cadeia. E estão planejando o assassinato da dona da casa. 


Na terrível mascarada que é a peça, a bondade da patroa é inútil, já que ela ocupa uma posição de privilégio. O que realmente existe de básico é o ódio das criadas e o horror do mundo. As empregadas gostariam de assumir o papel que a patroa desempenha na sociedade. Não sendo isso possível, resolvem eliminá-la. Tão intenso é o esquema de destruição que desencadeiam, que chegam, fantasiadas de patroa, a um clímax de autodestruição. O recado maior da peça é que seu autor, na vida real, presidiário e homossexual, estigmatizado e repelido pela sociedade, quer destruí-la. É a revolta e a vingança da marginalização. Daí o quadro do mundo travestido e louco, entregue a sonhos desesperados e que termina em nada. A peça de Genet é um ritual de maldade, desesperança e negação. Com ele, Genet assina uma condenação de morte para uma sociedade cruel e doente. 
 
 
Como observou Sartre em sua análise de “Lês Bonés” o bem á apenas uma ilusão. O mal é o nada que se eleva sobre as ruínas do bem. O espetáculo do Ói Nóis Aqui Traveiz transmite essa sensação de clareza. A visão é de crítica a um universo corrompido e condenado. Os cenários e os figurinos de Isabella Lacerda são expressivos em criar atmosfera e enfatizar o problema sexual latente. Dos intérpretes, Paulo Flores (a patroa) é quem aparece com mais inteligibilidade. As domésticas vividas por João Horácio Borges (Solange) e Renan Costa (Clara) compensam com energia, ritmo e senso de grotesco o que lhes falta em dicção e maturidade interpretativa.

Mais uma vez o Ói Nóis Aqui Traveiz celebra uma missa negra com a devida convicção litúrgica. Consegue materializar em seu espaço cênico anticonvencional um clima de inquietação.