A vanguarda gaúcha em ação

Marcelo Marchioro ( O Estado do Paraná, 29 de Junho de 1979)   Para todos aqueles que procuram a renovação de tudo aquilo que está de uma maneira ou outra ligada ao homem, para todos os que são suficientemente abertos para receberem novas idéias e concepções e se colocam contra qualquer tipo de estagnação, para todos os que possuem uma visão ampla e irrestrita do que seja cultura e das várias maneiras pelas quais ela se manifesta, para todos aqueles que são receptivos (se não para gostar, ao menos para analisar) às novas e válidas propostas de trabalho e têm condições de entender o que seja um espetáculo consciente e revitalizador, hoje é o último dia para assistir a “Ensaio Selvagem” às 21 horas no Teatro Universitário de Curitiba, produção do grupo gaúcho “Ói Nóis Aqui Traveiz”.   Em geral, novas propostas ou manifestações de vanguarda (principalmente quando se trata de cultura) sempre são encaradas pelo público com muitas ressalvas, especialmente por aquela grande camada tradi

O REI JÁ ERA, COM LAMA E SEM FANFARRA

Claudio Heemann 
Foto de Loir Gonçalves 

O Grupo Experimental “Ói Nóis Aqui Traveiz” está apresentado, em sua sede na Ramiro Barcellos, outra de suas criações coletivas. Desta vez, adaptaram o trabalho de um teatro chileno e o batizaram com o título “O Rei Já Era, Parará Tim Bum”. O tema é a dominação do homem pelo homem. A intenção é criticar o poder e o totalitarismo. O enredo é simples. Alguns mendigos entram em conflito quando um deles faz-se coroar rei e passa a oprimir os outros. Paralelamente a isso, um casal de noivos, em cana muda, executa uma pantomima de aproximação interpessoal. Um piano, uma árvore de natal, uma mesa de festa coberta com um dossel, fazem ambiente para a cena dos noivos. Na outra parte da área ação,m um chafariz, colocado sobre a camada de terra verdadeira, transforma a sala do “Ói Nóis Aqui Traveiz” num lamaçal, onde os intérpretes dos mendigos chafurdam no chão e se enlameiam, envolvendo, no lodo, espectadores menos defensivos. 



Ao contrário dos outros espetáculos do grupo, “O Rei Já Era, Parará Tim Bum” não possui clima denso de ritual anárquico. A marca registrada dos primeiros trabalhos da equipe de Paulo Flores parece estar sendo abandonada. A tendência agora está mais para o espetáculo naturalista. Os diálogos dizem tudo que a encenação pretende, sem nenhuma moldura alegórica. O comportamento dos atores aproxima-se do realismo. As únicas figuras fantásticas são os noivos. Mas como eles se movimentam em praticáveis postos acima das cabeças dos espectadores, e para vê-los melhor é preciso ficar na lama, sujeito aos avanços conspurcadores dos “mendigos”, são pouco vistos. De qualquer modo, a ação acontece com os mendigos. São eles que verbalizam todas as intenções de crítica à situação senhor-escravo que a peça apresenta. E os intérpretes Jussemar Weiss e Paulo Flores estão plenamente satisfatórios em suas caracterizações. Transmitem bem o texto apesar do tom de sermão com que as falas estão recheadas. As colocações que “O Rei Já Era” pretende fazer chegar à consciência do público são transparentes. As mensagens estão óbvias. Com isso, o interesse do público fica reduzido. A encenação perde em força e expressividade. Há ainda o problema das inconveniências físicas da representação. Nenhum público normal de teatro poderá achar suportável a permanência no lodaçal em que o recinto do “Ói Nóis” se transforma. Creio que este tipo de realismo desconfortável aos assistentes – afasta as oportunidades de melhor comunicação. A peça fica cansativa e desagradável. Na noite em que assisti ao espetáculo, aliás, apenas cinco pessoas tinham ido ver “O Rei Já Era”. O clima do “Ói Nóis Aqui Traveiz” era o de vozes clamando no deserto. Um tanto desolador. É provável que o estilo de apresentação do “Ói Nóis” deva ser reformulado se o grupo desejar ser visto por alguém mais do que o círculo fechado de espectadores especiais. Com seu exacerbado extremismo, com as indignidades físicas a que submete seu público, o “Ói Nóis” está afastando a plateia. Neste sentido, o grupo poderá, em breve, cair num enorme vazio. Está operando à base de pressupostos muito rigorosos e fugindo às leis elementares da comunicação. Vai se isolar de tudo e de todos. A razão de ser do teatro é comunicar alguma coisa a um grupo. Cortar essa possibilidade é cortar o sentido da representação e tornar inútil o trabalho de cena. Como ninguém acredita que o “Ói Nóis Aqui Traveiz” não deseje comunicar-se com a plateia, espera-se, para seu próximo espetáculo, uma atitude mais racional.