TERREIRA DA TRIBO 37 ANOS DE (R)EXISTÊNCIA

Artigo publicado no Correio do Povo em 11 de setembro de 2021. Fotos de Pedro Isaias Lucas.     No dia 14 de julho de 1984 a Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz abria as suas portas para o público. Com um show de rock-punk que reuniu as bandas Replicantes e Urubu Rei, entre outras. Logo em seguida o Ói Nóis Aqui Traveiz encenou na nova casa “A Visita do Presidenciável ou Os Morcegos estão Comendo os Abacates Maduros”, uma parábola sobre o momento político que o Brasil vivia, com a saída dos militares de cena e a entrada de um governo civil. E anunciava para toda cidade “...todas as pessoas gostam de cantar, dançar, representar, pintar, fotografar. Qualquer pessoa é capaz de criar e a Terreira da Tribo está aí para isso”. E nesses 37 anos de atividades a Terreira da Tribo abrigou as mais diversas manifestações culturais como espetáculos de teatro, shows musicais, ciclos de filmes e vídeos, seminários, debates, performances e celebrações. Hoje a Terreira é reco

O REI JÁ ERA, COM LAMA E SEM FANFARRA

Claudio Heemann 
Foto de Loir Gonçalves 

O Grupo Experimental “Ói Nóis Aqui Traveiz” está apresentado, em sua sede na Ramiro Barcellos, outra de suas criações coletivas. Desta vez, adaptaram o trabalho de um teatro chileno e o batizaram com o título “O Rei Já Era, Parará Tim Bum”. O tema é a dominação do homem pelo homem. A intenção é criticar o poder e o totalitarismo. O enredo é simples. Alguns mendigos entram em conflito quando um deles faz-se coroar rei e passa a oprimir os outros. Paralelamente a isso, um casal de noivos, em cana muda, executa uma pantomima de aproximação interpessoal. Um piano, uma árvore de natal, uma mesa de festa coberta com um dossel, fazem ambiente para a cena dos noivos. Na outra parte da área ação,m um chafariz, colocado sobre a camada de terra verdadeira, transforma a sala do “Ói Nóis Aqui Traveiz” num lamaçal, onde os intérpretes dos mendigos chafurdam no chão e se enlameiam, envolvendo, no lodo, espectadores menos defensivos. 



Ao contrário dos outros espetáculos do grupo, “O Rei Já Era, Parará Tim Bum” não possui clima denso de ritual anárquico. A marca registrada dos primeiros trabalhos da equipe de Paulo Flores parece estar sendo abandonada. A tendência agora está mais para o espetáculo naturalista. Os diálogos dizem tudo que a encenação pretende, sem nenhuma moldura alegórica. O comportamento dos atores aproxima-se do realismo. As únicas figuras fantásticas são os noivos. Mas como eles se movimentam em praticáveis postos acima das cabeças dos espectadores, e para vê-los melhor é preciso ficar na lama, sujeito aos avanços conspurcadores dos “mendigos”, são pouco vistos. De qualquer modo, a ação acontece com os mendigos. São eles que verbalizam todas as intenções de crítica à situação senhor-escravo que a peça apresenta. E os intérpretes Jussemar Weiss e Paulo Flores estão plenamente satisfatórios em suas caracterizações. Transmitem bem o texto apesar do tom de sermão com que as falas estão recheadas. As colocações que “O Rei Já Era” pretende fazer chegar à consciência do público são transparentes. As mensagens estão óbvias. Com isso, o interesse do público fica reduzido. A encenação perde em força e expressividade. Há ainda o problema das inconveniências físicas da representação. Nenhum público normal de teatro poderá achar suportável a permanência no lodaçal em que o recinto do “Ói Nóis” se transforma. Creio que este tipo de realismo desconfortável aos assistentes – afasta as oportunidades de melhor comunicação. A peça fica cansativa e desagradável. Na noite em que assisti ao espetáculo, aliás, apenas cinco pessoas tinham ido ver “O Rei Já Era”. O clima do “Ói Nóis Aqui Traveiz” era o de vozes clamando no deserto. Um tanto desolador. É provável que o estilo de apresentação do “Ói Nóis” deva ser reformulado se o grupo desejar ser visto por alguém mais do que o círculo fechado de espectadores especiais. Com seu exacerbado extremismo, com as indignidades físicas a que submete seu público, o “Ói Nóis” está afastando a plateia. Neste sentido, o grupo poderá, em breve, cair num enorme vazio. Está operando à base de pressupostos muito rigorosos e fugindo às leis elementares da comunicação. Vai se isolar de tudo e de todos. A razão de ser do teatro é comunicar alguma coisa a um grupo. Cortar essa possibilidade é cortar o sentido da representação e tornar inútil o trabalho de cena. Como ninguém acredita que o “Ói Nóis Aqui Traveiz” não deseje comunicar-se com a plateia, espera-se, para seu próximo espetáculo, uma atitude mais racional.