DUAS CARTAS PARA MEIERHOLD (Continuação)

  Caríssimo Meyerhold, Desculpe a formalidade, mas ela deve-se ao fato de ter te conhecido há pouco tempo, apesar de já fazer praticamente 1 ano (ou seria mais?) desde que fui convidada pelo Henrique Saidel a ver a encenação de um texto criado pelo dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky que mistura sua trajetória com os desassossegos vividos por ti no cárcere. Ao lembrar daquela noite muitas sensações e sentimentos se misturam, há pouco havia me mudado para Porto Alegre, era a primeira vez no espaço Terreira da Tribo e que via a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em um espaço fechado. Mergulhar no seu imaginário criativo naquele momento acompanhava novas aberturas no meu próprio cárcere privado que constantemente é renovado pelo nomadismo voluntário que me impulsiona a viver em constante revolução cultural, estética e política por esse Brasil.     No entanto, me sinto um pouco envergonhada de ter te conhecido tão tardiamente e esta ser a primeira vez que te escrevo. Sint

A vanguarda gaúcha em ação

Marcelo Marchioro ( O Estado do Paraná, 29 de Junho de 1979)

 
Para todos aqueles que procuram a renovação de tudo aquilo que está de uma maneira ou outra ligada ao homem, para todos os que são suficientemente abertos para receberem novas idéias e concepções e se colocam contra qualquer tipo de estagnação, para todos os que possuem uma visão ampla e irrestrita do que seja cultura e das várias maneiras pelas quais ela se manifesta, para todos aqueles que são receptivos (se não para gostar, ao menos para analisar) às novas e válidas propostas de trabalho e têm condições de entender o que seja um espetáculo consciente e revitalizador, hoje é o último dia para assistir a “Ensaio Selvagem” às 21 horas no Teatro Universitário de Curitiba, produção do grupo gaúcho “Ói Nóis Aqui Traveiz”.

 
Em geral, novas propostas ou manifestações de vanguarda (principalmente quando se trata de cultura) sempre são encaradas pelo público com muitas ressalvas, especialmente por aquela grande camada tradicionalista, amarrada a velhos conceitos e fórmulas, que existe em qualquer lugar, mas que em Curitiba atinge proporções espantosas. E o Grupo Ói Nóis Aqui Traveiz vem sentindo isto no decorrer se suas apresentações pelo Brasil, partindo já de seu lugar de origem, Porto Alegre. Desde seu primeiro trabalho (já dentro deste espírito renovador e questionante) no início do ano passado (“A Divina Proporção” e “A Felicidade Não Esperneia”, ambas de Júlio Zanotta), todo tipo de boicote tem sido sofrido, proveniente desde a imprensa até mesmo outros grupos de teatro mais estabilizados (ou mais “institucionalizados” e que têm uma certa tradição na cidade). No segundo trabalho, “A Bicicleta do Condenado” de Arrabal, e neste terceiro (“Ensaio Selvagem”), embora já com um número maior de admiradores e adeptos de suas posições ideológicas, as forças contrariam continuam, e por nenhuma outra razão a não se receio de se sentirem profundamente questionados e até desafiados por este grupo jovem e portador de uma proposta que os denuncia e desalicerça.

 
A idéia básica proposta pelo grupo é a de um novo teatro, longe do esquema burguês do espetáculo convencional, elitista, e que “atinge” apenas aquela classe que, por exemplo, depois de assistir a uma peça que denuncia a fome, vai “debater” aquilo que viu jantando fartamente no mais caro restaurante da cidade. Outra proposta radical é a do abandono do espetáculo apenas assistido e nunca participado, fazendo um trabalho que realmente integra ator com público de maneira a lhe proporcionar, longe da fórmula paternalista, um melhor entendimento e um maior engajamento com a colocação que está sendo feita. É claro que nem todo espectador possui esta superfície refletora/alienante característica apenas de algumas camadas, e que nem todo espetáculo apresentado no esquema convencional (dito, por eles, simplesmente, “burguês”) deixa de engajar ou conseguir uma efetiva participação do público, mas é inegável, por mais que não queiramos aceitar, que a forma do teatro tradicional cria um envolvimento e uma conscientização bem menor do que aquela onde o próprio espectador é também um dos atores encarregado de transmitir uma experiência e de influir no processo cênico (e, mais tarde, dentro do processo evolutivo de sua sociedade) que está à sua frente. E é exatamente isso que o Ói Nóis Aqui Traveiz provoca: um total engajamento e uma total participação do público que está aberto e disposto a fazer a estória/história. E a coerência em seu trabalho começa desde a formação do grupo em si, que sem fazer parte do sistema empresarial sujo e desleal comumente utilizado, funciona em termos de cooperativa, onde todos participam dos lucros e prejuízos, dos gastos ou da mão-de-obra. A figura ditatorial do “diretor da peça” não existe, e a criação é na realidade coletiva, desde a concepção do espetáculo até a execução dos cenários, figurinos ou iluminação. A liberdade de criação é total e, embora com o mesmo texto/espinha dorsal e com as mesmas falas rigorosamente repetidas a todas as apresentações, já que as reações do público diferem a cada vez, cada noite temos praticamente um novo espetáculo na maneira e na forma com que ele é apresentado e participado. 


E claro, há muito de radical nas posições assumidas pelo grupo. Por outro lado, como também existem muitas outras “companhias” radicalmente colocadas e afundadas em seu mofo, estagnação e incoerência, é valida a existência deste radicalismo libertador e criativo, já que seu confronto é inevitável, como também o será o equilíbrio a ser atingido proveniente deste choque. 
 
 
O texto escolhido para este terceiro trabalho do grupo, o “Ensaio Selvagem”, é de um dos nossos excelentes autores, Zé Vicente, que embora produza muito pouco já contribuiu com obras definitivas para nossa dramaturgia, tais como “Hoje é Dia de Rock” (montada em Curitiba em 1976 com direção primorosa de Antônio Carlos Kraide). “O Assalto” (várias vezes encenada em todo o País e que em Curitiba teve, também em 76, direção de Gilberto Hastos). “Os Convalescentes” ou “A Última Peça”. E a escolha foi acertada, pois o original de Zé Vicente, bastante hermético e com muito material pelas entrelinhas, deu oportunidade a que o grupo criasse à vontade, sem desvios da proposição básica ou da idéia concebida pelo autor.

Dirigido por Rubens Corrêa e apresentado em finais de 1974 no Teatro Ipanema, Rio, com cenário de Hélio Eichbauer e tendo no elenco José Wilker, Nildo Parente, Renato Coutinho e Eduardo Machado, “Ensaio Selvagem” era um espetáculo muito bem realizado, mas que em nada contribuía para dissolver o hermetismo do texto original. Ao contrário, apesar do cuidado cenário em perspectiva e das interpretações corretíssimas dos atores (especialmente José Wilker, criando no caso a, assexuada Miss Brown Sugar), a montagem resultava de mais difícil compreensão do que se fosse feita uma simples leitura da peça. É, mesmo aqueles que não aceitem as propostas deste novo grupo gaúcho em tudo que ele tem de válido e renovador, e que viram aquela montagem carioca de estréia do texto de Zé Vicente, não podem deixar de admitir que esta que agora podemos assistir, apesar de todo o vanguardismo e até anarquia que ocupa o pequeno espaço que o TUC pode oferecer, é muito mais clara, dinâmica e objetiva do que a concebida por Rubens Corrêa, com toda sua técnica e experiência, há cinco anos passados. 




De uma maneira ou outra, “Ensaio Selvagem” mostra todo o processo de absorção, dominação, utilização e tentativa de destruição sofrido por Miss Brown Sugar, uma estrela do teatro e do cinema brasileiro, exilada do Rio de Janeiro, e que se deixa envolver e promover/destruir pela máquina imperialista, tomando o alegórico “train” da “railway” do sucesso ilusório e da fama e promoção temporárias que, segundo o autor, está sempre em “movimento contínuo”. Seduzida, conduzida e arrasada por Mr. Flashman (o dono da Railway) e seu carrasco Lovelock, Brown Sugar encontra Z, outro exilado já totalmente absorvido pelo sistema e os padrões da “Railway” além de outro prisioneiro que resiste violentamente a se deixar engolir. Do contraste do encontro, Sugar cria uma nova consciência, e acaba por se rebelar contra os dominadores, gritando para eles, já ao final da peça, numa total posição de retomada de seus valores verdadeiros: “Eu serei tua vergonha!”.

A tudo o público vê, a tudo ele é convidado a participar, embora a nada seja obrigado. Numa total coerência com seus princípios e com os de seu grupo, o elenco, em várias situações, convida o público a entrar no processo, cantando, ajudando a libertar Miss Sugar, etc., mas em nenhum caso há qualquer tipo de coação ou ridicularização. Quem quer participar, participa. Quem quer apenas assistir, assiste. E tudo se passa sob ou sobre uma enorme teia de cordas, por onde o elenco se movimenta, ou em algumas cenas paralelas, como o banho silencioso dado por Lovelock em Flashman em toda sua infantil e nada poderosa nudez (e cuja água depois de utilizada é jogada com toda a “sujeira imperialista” sobre o prisioneiro), ou o rádio filme onde Sugar, entre jornais, deslumbrada pela promoção causada pela imprensa, acaba sendo literalmente devorada por ela e seus emissários.

“Ensaio Selvagem”, segundo o “Ói Nóis Aqui Traveiz”, não pode ser analisado em partes, como interpretações, técnicas ou recursos. Ele é um bloco, único, sólido, que se atira contra os nossos estômagos para que, sem meios termos, o aceitemos ou não, o absorvamos ou não, nos renovemos com ele ou nos deixemos ficar na estagnação ou nos falsos conceitos tradicionalistas e conservadores. Paulo Flores (Flashman), Maluh (Sugar), Jussemar Weiss (Lovelock), Adauto Ferreira (Z) e Caio Gomes (Prisioneiro) nos oferecem o novo. É pegar ou largar! 


E para aqueles que, desrespeitosamente, deixarem (ou deixem) o TUC antes do espetáculo terminar, para melhor compreensão, fica aqui o manifesto lido pelo elenco, ao encerrar a peça, envolto pelo clima do contraste gerado pelas paredes laterais do TUC forradas (como parte integrante do cenário) com cartazes de filmes estrangeiros e a violenta batucada que faz ecoar pela galeria Júlio Moreira os sons de “Salve o Prazer” ou “Batmacumba” (propondo a retomada dos valores autenticamente brasileiros), manifesto este chamado por eles de “é preciso não dar de comer aos urubus”:

“É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública. É preciso viver para revolucionar, redescobrir a nossa caminhada, o nosso sentido coletivo, a nossa força mutativa. Nosso compromisso é com o novo ato de criação. Nós somos a negação da arte escrava, do caminho dado. Não à “instituição burguesa Teatro”. Os mortos que enterrem seus mortos. Sem essa de projetos reformistas. Todo poder usurpa a liberdade e a vida do homem. Não à dominação! A nós interessa a linguagem da libertação. Estamos com a juventude, com as pessoas que não entraram nessa de baixar a cabeça, de não ter saída. Não é assim mesmo, não vai ficar assim! Para o saque! A ação é revolução. Viva o A-E-I-O-U do Oficina quinto-tempo! Viva a resistência dos nossos índios! Viva o movimento popular que vai avançar! Viva anistia ampla, geral e irrestrita, para os brasileiros! Ói Nóis Aqui Traveiz – Ano II”.