DUAS CARTAS PARA MEIERHOLD (Continuação)

  Caríssimo Meyerhold, Desculpe a formalidade, mas ela deve-se ao fato de ter te conhecido há pouco tempo, apesar de já fazer praticamente 1 ano (ou seria mais?) desde que fui convidada pelo Henrique Saidel a ver a encenação de um texto criado pelo dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky que mistura sua trajetória com os desassossegos vividos por ti no cárcere. Ao lembrar daquela noite muitas sensações e sentimentos se misturam, há pouco havia me mudado para Porto Alegre, era a primeira vez no espaço Terreira da Tribo e que via a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em um espaço fechado. Mergulhar no seu imaginário criativo naquele momento acompanhava novas aberturas no meu próprio cárcere privado que constantemente é renovado pelo nomadismo voluntário que me impulsiona a viver em constante revolução cultural, estética e política por esse Brasil.     No entanto, me sinto um pouco envergonhada de ter te conhecido tão tardiamente e esta ser a primeira vez que te escrevo. Sint

O ritmo primitivo de “O Sentido do Corpo”


Claudio Heeman (Zero Hora)
 

“O Sentido do Corpo” é mais um trabalho de vanguarda e experimentação apresentado pelo teatro “Ói Nóis Aqui Traveiz”. Pela produtividade que estão apresentando na temporada teatral deste ano, poderiam até mudar o nome do grupo para “Ói nóis aqui sempre”. Com um fôlego de gato, eles estão saltando de um trabalho em trabalho, permanecendo fiéis ao seu estilo agressivo e aos propósitos anticonvencionais, demolindo estruturas ideológicas e criando uma rotina de atividade ininterrupta. O que é excelente para a sobrevivência do grupo e sua afirmação no panorama cultural da cidade. Desta vez, estamos diante de um espetáculo de ação pura. Apenas alguns monólogos, que se ouvem sem muita atenção, acompanham a intensa atividade física dos atores. Despidos, os intérpretes buscam uns aos outros, fazem contato com a platéia, se agrupam, se distanciam, se contorcem, se tocam, se acariciam, gritam, rosnam e banhados de mijo, procuram estabelecer uma igualdade humana entre público e atores. Esta procura é um repúdio às forças de opressão das estruturas dominantes. Os corpos nus, móveis e entrelaçados, atuam como protestos vivos. Expressam uma ânsia libertária, buscando verdades íntimas, recusando condicionamentos impostos, num clima animalesco de catarse analítica. Pode ser tomado como um ballet libertário, uma revolução de essências, uma ruptura com a sociedade vigente, uma crítica ao “status quo”, ou a abertura de uma nova fronteira. Entra-se para o espetáculo do “Ói nóis” ao som de Albinoni, num cenário de sacos plásticos, cordas e pedras na parede. Em certo momento, filmes e slides coloridos reforçam plasticamente o que a curiosa dança-pantomima-relação-grupal está sugerindo e vice-versa. A nudez faz dos atores estátuas vivas e expressivas, capazes de chocar e assustar, mas também de provocar uma identificação e colocar um chamamento forte para uma liberdade revolucionária, visceral, íntima, além de qualquer código ético. Algo como a posição revolucionária de um Marquês de Sade. Creio que “Ói nóis” teria muito material à sua disposição se se dispusesse a aproveitar alguns textos do Marquês, com seu radicalismo contestatório. “O Sentido do Corpo”, apresenta também liberação de conteúdos psíquicos em forma de ritual. Quer conscientizar a platéia das cadeias em que a sociedade traz todos os presos e das possibilidades de liberação dos condicionamentos impostos. Como sempre, a convicção com que o “Ói Nóis” mostra seu trabalho é grande. O clima hierático que conseguem criar é mantido até o fim, com força e espanto.

O espetáculo atrai, repugna, hipnotiza, assusta, convence, conscientiza, amedronta, mas, sobretudo, mexe com as estruturas e preconceitos de cada um. É rude e primitivo. Mas permanece como experiência. Se a intenção predominante é psicanalítica, metafísica, sensitiva, político-social ou sado-masoquista, cabe a cada espectador fixar uma escolha. Tudo está em questão, tudo está em aberto, tudo é tentativa. Menos a ruptura com o pré-estabelecido pela sociedade burguesa, e os valores impostos pelas estruturas do poder. Neste aspecto, a quebra oferecida pelo “Ói Nóis” é definitiva. O Teatro “Ói Nóis Aqui Traveiz” optou por uma trajetória até então não trilhada por nenhum teatro daqui. Ao que tudo indica, partiu para não mais voltar atrás. Resta saber qual o rumo que irão escolher. No momento os componentes do grupo estão entregues a uma celebração tribal que deixa a platéia surpresa. Como tentam o envolvimento com o público, cabe perguntar se realmente desejam quebrar as distâncias entre ator e platéia. E até onde este tipo de trabalho pode conduzir o “Ói Nóis”. Parece que se continuarem na linha atual acabarão fechado em si mesmos, fazendo experiências internas e intensas, com pessoas especialmente engajadas. Algo semelhante à atividade laboratorial do Living Theatre de Julian Beck.

Se permanecerem mais abertos ao público, terão que optar, mais cedo ou mais tarde, por uma teatralidade instintiva, feita só de provocações endereçadas aos sentidos, ou um teatro mais racional, apoiado em textos, ou um equilíbrio entre as duas atitudes, uma síntese de suas manifestações atuais. Como a personalidade do “Ói Nóis” é bastante forte e independente, o pequeno teatro da Ramiro vai, em breve, saber fazer suas opções. Vamos aguardar com expectativa o que o tempo vai mostrar. Venha o que vier, deverá ser algo inusitado. O grupo é especialista em propor reformulações de conteúdo e forma.