ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 2]

    Com um mês de atividades o Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz foi interditado pela Secretaria de Segurança. Aí começou uma longa campanha pela reabertura do teatro. O fechamento agravou a situação econômica do grupo e a saída de alguns dos seus integrantes. Para vencer a crise o grupo buscou outros espaços para encenar o seu espetáculo. Também é o momento em que o grupo começou a compartilhar as suas experiências através de uma oficina de teatro. E é principalmente com os jovens desta oficina que criou a montagem de “A Bicicleta do Condenado”, do espanhol Fernando Arrabal: um preTexto para a reVolta do Ói Nóis Aqui Traveiz. Durante o processo de criação integrantes do grupo foram presos em manifestações contra a ditadura. Essa experiência de repressão e violência foi canalizada para a cena. A reabertura do Teatro trouxe para a encenação uma história de opressão e horror, onde duas pessoas tentam sobreviver em um lugar comandado por uma ordem militar. Se no primeiro espetáculo o público fi

Porto Alegre já tem um teatro de guerrilha

Claudio Heeman (Zero Hora, 3 novembro de 1979)

Fotos de José Ernesto, Roberto Santos e Paulo Nunes




O teatro “Ói Nóis Aqui Traveiz” não está, no momento, fazendo espetáculos em sua sede da rua Ramiro Barcellos. Coerente com seus propósitos de agir diretamente sobre a realidade, o grupo está levando seu anarquismo para as ruas, para as universidades e para interferências nos espetáculos em cartaz na cidade. São participações-comício-protesto improvisados onde haja um acontecimento qualquer reunindo pessoas. Seja o problema de condução para os estudantes da UFRGS, seja uma palestra de Plínio Marcos na PUC, sejam as peças “Liberdade, liberdade” ou o “Frankenstein” de Irene Brietzke no teatro de Câmara. Elementos do “Ói Nóis” comparecem e forçam sua presença na ação. São aparições-manifesto nas quais os integrantes do “Ói Nóis” chamam a atenção da comunidade com seus trajes e gestos contestatórios, sua nudez, suas denúncias e críticas. Acusam o “status quo” de escravocrata, Plínio Marcos de fascista, entram cena a dentro nos espetáculos em cartaz ou os interrompem com verbalizações de desconformidade, contra os artistas ou o público. Cria-se uma situação de perplexidade e caos, de quebra estrutural. As platéias involuntárias destes “happenings” ficam surpreendidas. Os atores interrompidos se irritam. A consternação toma conta dos palcos invadidos. O público manifesta reações, adesões, repúdios.
 
Na realidade o que se está presenciando é um exemplo típico de teatro guerrilha. Ação aplicada diretamente à realidade. Sublinhando acontecimentos reais com uma participação de intenções políticas. O aspecto da manifestação oscila entre o grotesco e o anticonvencional. É um ato de demolição das estratificações burguesas. Afirmação anárquica de rejeição aos valores da sociedade estabelecida. Posicionamento revolucionário contra condicionamentos consagrados. Negação das hierarquias e forças dominantes. O teatro “Ói Nóis Aqui Traveiz” está abandonando sua posição de intérprete de conflitos, num palco, para entrar em conflito direto com a realidade, fora dele. Abandona a posição de celebrante de rituais artísticos para cair na ação política. Na luta verdadeira. Práxis pura! Não sei se esta posição radical não significará o aniquilamento do grupo. Seus seis ou oito integrantes terão força e poder para demolir todas as estruturas que estão contestando? Vão agüentar um combate real fora das circunstâncias artísticas de uma representação? Um partido político e uma companhia teatral podem adotar ideologias em comum. Mas o trabalho que realizam são diferentes. Em campo, linguagem e ferramentas. O “Ói Nóis Aqui Traveiz” esta querendo anular esta divisão. Vai conseguir flutuar na corrente? Mudar o fluxo das águas? Perguntas que ficam no ar.