A vanguarda gaúcha em ação

Marcelo Marchioro ( O Estado do Paraná, 29 de Junho de 1979)   Para todos aqueles que procuram a renovação de tudo aquilo que está de uma maneira ou outra ligada ao homem, para todos os que são suficientemente abertos para receberem novas idéias e concepções e se colocam contra qualquer tipo de estagnação, para todos os que possuem uma visão ampla e irrestrita do que seja cultura e das várias maneiras pelas quais ela se manifesta, para todos aqueles que são receptivos (se não para gostar, ao menos para analisar) às novas e válidas propostas de trabalho e têm condições de entender o que seja um espetáculo consciente e revitalizador, hoje é o último dia para assistir a “Ensaio Selvagem” às 21 horas no Teatro Universitário de Curitiba, produção do grupo gaúcho “Ói Nóis Aqui Traveiz”.   Em geral, novas propostas ou manifestações de vanguarda (principalmente quando se trata de cultura) sempre são encaradas pelo público com muitas ressalvas, especialmente por aquela grande camada tradi

Porto Alegre já tem um teatro de guerrilha

Claudio Heeman (Zero Hora, 3 novembro de 1979)

Fotos de José Ernesto, Roberto Santos e Paulo Nunes




O teatro “Ói Nóis Aqui Traveiz” não está, no momento, fazendo espetáculos em sua sede da rua Ramiro Barcellos. Coerente com seus propósitos de agir diretamente sobre a realidade, o grupo está levando seu anarquismo para as ruas, para as universidades e para interferências nos espetáculos em cartaz na cidade. São participações-comício-protesto improvisados onde haja um acontecimento qualquer reunindo pessoas. Seja o problema de condução para os estudantes da UFRGS, seja uma palestra de Plínio Marcos na PUC, sejam as peças “Liberdade, liberdade” ou o “Frankenstein” de Irene Brietzke no teatro de Câmara. Elementos do “Ói Nóis” comparecem e forçam sua presença na ação. São aparições-manifesto nas quais os integrantes do “Ói Nóis” chamam a atenção da comunidade com seus trajes e gestos contestatórios, sua nudez, suas denúncias e críticas. Acusam o “status quo” de escravocrata, Plínio Marcos de fascista, entram cena a dentro nos espetáculos em cartaz ou os interrompem com verbalizações de desconformidade, contra os artistas ou o público. Cria-se uma situação de perplexidade e caos, de quebra estrutural. As platéias involuntárias destes “happenings” ficam surpreendidas. Os atores interrompidos se irritam. A consternação toma conta dos palcos invadidos. O público manifesta reações, adesões, repúdios.
 
Na realidade o que se está presenciando é um exemplo típico de teatro guerrilha. Ação aplicada diretamente à realidade. Sublinhando acontecimentos reais com uma participação de intenções políticas. O aspecto da manifestação oscila entre o grotesco e o anticonvencional. É um ato de demolição das estratificações burguesas. Afirmação anárquica de rejeição aos valores da sociedade estabelecida. Posicionamento revolucionário contra condicionamentos consagrados. Negação das hierarquias e forças dominantes. O teatro “Ói Nóis Aqui Traveiz” está abandonando sua posição de intérprete de conflitos, num palco, para entrar em conflito direto com a realidade, fora dele. Abandona a posição de celebrante de rituais artísticos para cair na ação política. Na luta verdadeira. Práxis pura! Não sei se esta posição radical não significará o aniquilamento do grupo. Seus seis ou oito integrantes terão força e poder para demolir todas as estruturas que estão contestando? Vão agüentar um combate real fora das circunstâncias artísticas de uma representação? Um partido político e uma companhia teatral podem adotar ideologias em comum. Mas o trabalho que realizam são diferentes. Em campo, linguagem e ferramentas. O “Ói Nóis Aqui Traveiz” esta querendo anular esta divisão. Vai conseguir flutuar na corrente? Mudar o fluxo das águas? Perguntas que ficam no ar.