DUAS CARTAS PARA MEIERHOLD (Continuação)

  Caríssimo Meyerhold, Desculpe a formalidade, mas ela deve-se ao fato de ter te conhecido há pouco tempo, apesar de já fazer praticamente 1 ano (ou seria mais?) desde que fui convidada pelo Henrique Saidel a ver a encenação de um texto criado pelo dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky que mistura sua trajetória com os desassossegos vividos por ti no cárcere. Ao lembrar daquela noite muitas sensações e sentimentos se misturam, há pouco havia me mudado para Porto Alegre, era a primeira vez no espaço Terreira da Tribo e que via a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em um espaço fechado. Mergulhar no seu imaginário criativo naquele momento acompanhava novas aberturas no meu próprio cárcere privado que constantemente é renovado pelo nomadismo voluntário que me impulsiona a viver em constante revolução cultural, estética e política por esse Brasil.     No entanto, me sinto um pouco envergonhada de ter te conhecido tão tardiamente e esta ser a primeira vez que te escrevo. Sint

Meierhold - Críticas

Para dar início a nova série de Críticas do Espetáculo MEIERHOLD, selecionamos o olhar acurado de Paulo Bio Toledo (Folha de São Paulo).
 
Paulo Bio Toledo possui graduação em Bacharelado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (2010), mestrado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (2013) e doutorado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (2018). Foi professor conferencista no curso de Artes Cênicas da ECA-USP e professor substituto no Instituto de Artes da Unesp.




 

Peça funciona como manifesto das posições que grupo defende

Espetáculo é praticamente um monólogo escrito pelo dramaturgo e psicanalista argentino Eduardo Pavlovsky sobre o encenador russo Vsevolod Meierhold

 
Paulo Bio Toledo
(Folha de São Paulo, 26 de novembro de 2019)
 
Fotos de Pedro Isaías Lucas
 
 


À primeira vista, o espetáculo “Meierhold”, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, surpreende pela diferença com relação aos seus outros trabalhos.
O grupo gaúcho, fundado em 1978 em Porto Alegre, ficou conhecido por espetáculos com elencos enormes, movimentos corais e pelos deslumbrantes espaços cênicos de vivência com o público.
Bem diferente disso, o espetáculo é praticamente um grande monólogo escrito pelo dramaturgo e psicanalista argentino Eduardo Pavlovsky sobre o encenador russo Vsevolod Meierhold. Só o ator Paulo Flores e a atriz Keter Velho estão em cena, as luzes da plateia apagadas, em um palco tradicional.
Mas apesar da significativa diferença estética, a montagem funciona como uma espécie de manifesto das posições que o grupo defende.
A “alegria dos corpos conjuntos” de que fala Meierhold é uma constante nas décadas de trabalho coletivo da Tribo.
Suas enormes montagens na rua (como a recente “Caliban”, adaptação de Augusto Boal para “A Tempestade”, de William Shakespeare) são vibrantes ocupações da cidade que reúnem dezenas de atrizes e atores, muitos deles egressos das oficinas que o grupo organiza.

A biomecânica de Meierhold funciona como um dos alicerces do trabalho do Ói Nóis Aqui Traveiz. O texto precisa ganhar materialidade física, musculatura real, precisa ser traduzido em gestos e partituras corporais cheias de novos sentidos. 





Quando Paulo Flores diz em cena que “a imaginação é a arma mais extraordinária da revolução”, é o personagem Meierhold quem diz, mas é também o ator fundador da Tribo falando. Para ambos, a imaginação é a forma de reinventar a vida, imaginar novas sociabilidades e desenvolver maneiras cada vez mais profundas de expressividade.

As posições de Meierhold expressas na peça de Pavlovsky são mais do que um assunto para o Ói Nóis Aqui Traveiz; são constitutivas do que acreditam ser o teatro.
Mas há também tragédia na peça. Ela é toda organizada em torno do processo de proscrição de Meierhold, que culmina em sua execução pelo obscurantismo stalinista.
Essa dialética entre supressão da vida e retórica vibrante é corporificada de forma comovente por Paulo Flores. 
 
 



Em cena, o corpo violentado pela tortura se reverte na gestualidade alegre de inspiração popular. A dor do mundo convive com a vontade inabalável de transformá-lo.
Ainda que culmine na execução de Meierhold, a resistência dele fica de pé. E assim como foi a vida do velho diretor russo, vemos em cena a essência de um grupo que é um dos raros exemplos que faz da arte um exercício de liberdade.