ESTÍMULO CEREBRAL

Dirceu Alves Jr. (Veja SP, 4 de dezembro de 2019)      Foto de Pedro Isaías Lucas   A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é o principal coletivo da cena de Porto Alegre. Fundado há 21 anos, o grupo se firmou graças a uma estética provocadora e um permanente diálogo crítico junto ao público em montagens de rua ou desenvolvidas em salas fechadas. Cartaz do Teatro do Sesc Bom Retiro, Meierhold, adaptação da peça do dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky, concentra toda a sua força na reflexão de ideias em uma encenação com raros momentos surpreendentes. Paulo Flores interpreta o ator, diretor e teórico russo Vsevolod Emilevich Meierhold (1874-1940), preso, torturado e fuzilado pela ditadura stalinista por ter sua obra considerada como inadequada. O próprio personagem, tal como um fantasma, reconstitui seu passado e se mune de convicção para ressaltar o firme caráter e a necessidade de liberdade. Em algumas passagens, assume, inclusive, um saudável didatismo. A estrutura de monólogo, b

PROPÓSITOS DEVASTADORES

Claudio Heeman (Zero Hora/abril de 1978) 
 


Não se sabe bem se “Ói Nóis Aqui Traveiz” é o nome da casa de espetáculos da Rua Ramiro Barcelos (situada “onde a Cristóvão Colombo põe ovo em pé”, segundo a divulgação do grupo que a está lançando), se é o próprio nome da companhia que faz o espetáculo inicial, ou se é uma promessa de perseverança no terreno escorregadio do Teatro Contestatório de Vanguarda. “Um teatro com pedra nas veias” se anuncia o “Ói Nóis Aqui Traveiz”. Realmente, na casa que escolheram entre a Cristóvão e a Farrapos, há muitas pedras nas paredes, um teto sem forro, com vigas e telhas à mostra, bancos de madeira tosca para o público sentar (-a capacidade da casa é reduzida, precisa-se chegar cedo). – e no centro do recinto, cercada por arame farpado, a área onde os atores evoluem. Sob a direção de Paulo Flores, que também interpreta um dos papéis na segunda das duas peças que compõem o espetáculo, são interpretados dois textos curtos de Zanotta Vieira, o dramaturgo em residência do “Ói Nóis”.

Na realidade, estes textos são pretextos para o anarquismo desenfreado da encenação que pretende, a exemplo de certos trabalhos de José Celso Martinez Correa, a liberação de forças anárquicas e caóticas, destruidoras de convenções e estratificações. 


 Na busca de uma linguagem teatral crua, debochada, violenta, livre, grotesca, que vai do grand-guignol ao protesto, do surrealismo à contestação. Os atores se atiram a seus papéis (sem alusão a certos aspectos cenográficos do espetáculo, são feitos de monturos de jornais rasgados) com grunhidos, contorções, epilepsias e um rude humor absurdo, numa pesada celebração de anarquia. A destruição é generalizada, até mesmo os textos utilizados soçobram, sem no entanto deixar de nos fazer sentir que há em tudo uma crítica sistemática às instituições, ao mundo organizado e à sociedade burguesa. A agressão chega até as roupas dos espectadores que recebem banhos de leite ou nacos de carne crua tirados aparentemente das entranhas de um personagem, que é operado em cena por possíveis médicos-carrascos – mercenários – loucos levemente medievais...

Como espetáculo contestatório de vanguarda, com seus nus agressivos, cantorias insultuosas, ironias e sarcasmos, marcações alucinadas e o doido desenho da ação é um verdadeiro “happening”. O ritmo pausado e os absurdos das atitudes buscam uma denúncia global de um mundo em decomposição, bárbaro, cômico, cruel e paranóico. E o espetáculo tem força e convicção, com uma atmosfera densa e coerente, criada com a coragem e a invenção que estamos acostumados a ver nos teatros experimentais de Londres, Greenwich Village ou Paris. A primeira peça chama-se “A Divina Proporção” e a sociedade de consumo é o alvo mais óbvio. Mas é na segunda peça do espetáculo, “A Felicidade, Não Esperneia, Patati, Patatá”, que as forças irracionais se soltam com mais ímpeto, nos levando em tom delirante a um universo próximo de Genet, Arrabal e Artaud. Há vinte anos, Porto Alegre não produzia um espetáculo com propósitos tão devastadores. 

Resta esperar que o “Ói Nóis Aqui Traveiz” não caia no beco sem saída do ritual bárbaro que por tudo destruir fica sem ouvintes e sem ter para onde ir, não conseguindo depois encontrar ferramentas para construir um mundo novo, que sem dúvida deve estar escondido no fundo de sua fúria iconoclasta.