DUAS CARTAS PARA MEYERHOLD

  Carta de Henrique Saidel   Fotos de Eugênio Barboza, Lucas Gheller e Pedro Isaias Lucas Porto Alegre, inverno de 2020 Querido Meyerhold, Escrevo esta carta como quem escreve algo de muito importante, como quem escreve algo que lhe causa um tanto de medo e hesitação, como alguém que deseja escrever coisas bonitas, coisas inesquecíveis, inteligentes, coisas revolucionárias, coisas que estejam à altura da tua arte, do teu teatro, da tua vida. Escrevo esta carta depois de ter escrito “Querido Meyerhold”, ali no topo da página, há vários dias e depois de ter ficado vários dias sem escrever mais nada, apenas olhando a página em branco e pensando em todas as coisas bonitas, inesquecíveis, inteligentes e revolucionárias que eu poderia dizer para você e a teu respeito. Escrevo esta carta mais de um ano depois de ter visto (duas vezes) a peça que o Ói Nóis Aqui Traveiz fez com você no título e como personagem, e mais de dezenove ou vinte anos depois de te ler pela primeira v

A VIDA DE UM INCOMPREENDIDO


A TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ
APRESENTA A OBRA DO RUSSO MEIERHOLD 

Eduardo Nunomura
(Carta Capital, 6 de dezembro de 2019)





Três últimas oportunidades para ver Meierhold, montagem do grupo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz no Sesc Bom Retiro. O espetáculo é uma homenagem ao ator, diretor e teórico russo Vsevolod Meierhold, artista executado pela ditadura de Joseph Stalin cuja obra chegou a ser banida na antiga União Soviética até 1955. Ele foi um dos principais atores do mítico Teatro de Arte de Moscou, de Constantin Stanislavski e Vladimir Danchenko. Era um experimentador por excelência e, talvez por isso, tornou-se um incompreendido pelo regime comunista. 
 
Foto de Eugênio Barboza



O ator Paulo Flores interpreta Meierhold em um relato póstumo, intercalando lembranças fragmentadas sobre marcos de sua carreira. Além de retratar a dedicação do artista russo pela encenação, o espetáculo reflete também as perseguições que sofreu até a sua morte. Flores contracena com a atriz Keter Velho, que interage quase silenciosamente em diferentes papéis, inclusive o da atriz Zinaida Reich, sua amante, que também fora assassinada. Meierhold foi um obcecado pesquisador da arte dramática, investigando desde o teatro popular, as improvisações, a pantomima, o grotesco e a commedia dell’arte. A peça é uma adaptação livre de Variaciones Meyerhold, do Argentino Eduardo Pavlovsky.