TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 19]

“Se Não Tem Pão, Comam Bolo!” tem por referência a célebre frase da rainha da França, Maria Antonieta,quando no princípio da Revolução Francesa, pressionada em seu próprio palácio pelo povo que pedia pão, pateticamente perguntou por que não comiam brioches. Encenação popular, esta fábula política recorre ao fato histórico para falar de problemas cotidianos que afligem a maioria dos brasileiros: a fome, a opressão, os desmandos do poder e a corrupção dos políticos. Os personagens são saltimbancos contadores de histórias, que de uma forma satírica e divertida cantam para o povo, nas ruas, o que a sociedade burguesa procura esconder: a luta de classes. 
    “SE NÃO TEM PÃO, COMAM BOLO!” Roteiro e direção : criação coletiva Figurinos : Arlete Cunha Adereços : Zau Figueiredo Música : Rogério Lauda Elenco : Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani Intérprete em substituição : Vera Parenza Estreia : 14 de fevereiro de 1993 (Espetáculo de rua) TERREIRA DA TRIBO EU APOIO! Você

Até quando a violência e a falta de liberdade?

Antonio Hohlfedt
(Jornal do Comércio, 10 de maio de 2019)
 
Fotos de Eugênio Barboza
 
 

Há pouco mais de dois anos, o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz decidiu montar a peça original de Eduardo Pavlovsky Variacciones Meirhold. Como ocorre com os espetáculos da Terreira da Tribo, pouco do texto original ficou. E se o texto original era atual, infelizmente, dois anos depois, e sob a ótica do grupo sediado no bairro Navegantes, ganhou em atualidade e se tornou uma metáfora profundamente irônica: ao relembrar a perseguição e o assassinato de Vsevolod Emilevich Meierhold¸ em 1940, pelo regime stalinista da então União Soviética, a Terreira acaba trazendo uma crítica reflexão sobre as atuais circunstâncias em que vivemos no Brasil, em que discursos cada vez mais agressivos transformam artistas e professores em detratores de valores conservadores como os da família, da nacionalidade, da neutralidade (leia-se, alienação) partidária, etc.





Assistir a Meierhold, assim é uma experiência impactante, não apenas pela temática e o enfoque escolhido, mas porque tais perspectivas estão solucionadas esteticamente, graças às opções que a direção assumiu (lembrando que se trata de uma criação coletiva, ou seja, o trabalho de criação envolve os atores Paulo Flores (Meierhold) e Keter Velho (que interpreta sua companheira Zinaida, principalmente), a preparadora de atores Beatriz Britto¸ o autor da música original Johann Alex de Souza, os cenógrafos Eugênio Barbosa e Clélio Cardoso (esse último adaptou o dispositivo cênico criado em 1922 por Liubóv Popóva, para a montagem de O corno magnífico, dirigido por Meierhold), além de elementos cênicos importantes como a máscara de Molotov, feita por Tânia Farias (uma perfeição), os figurinos da própria Keter Velho, a iluminação do mesmo Clélio Cardoso e uma seleção-montagem-edição de cenas fílmicas das primeiras décadas do cinema russo que permite uma eficiente incursão pela época do dramaturgo e diretor russo.

Meierhold sofreu um processo de verdadeira reviravolta e inversão de valores em sua vida, quando teve a coragem de enfrentar os “donos” do poder de então. Reivindicando a liberdade de criação, ele ousou resistir à teoria do realismo socialista e entrou em confronto direto com as autoridades ditatoriais do regime. Consta que teria sido o próprio Stálin a ordenar sua execução.



A Terreira sempre realizou grandes, numerosas e multicoloridas montagens teatrais: inclusive por isso, hoje em dia, gasta muito com o aluguel de espaços em que guarda todos estes cenários (o que seria criminoso se viéssemos a perdê-los). Neste momento de crise, contudo, o grupo decidiu por um espetáculo menor e mais enxuto: apenas dois atores, sendo que Keter Velho encarna, além da companheira de Meierhold, um Xamã, Molotov (com uma máscara) e a metáfora da Repressão. Assim mesmo, o grupo precisa de apoio: mensalmente, despende mais de R$ 10 mil pelo aluguel da sede em que desenvolve um sem-número de atividades artísticas, inclusive a atual temporada. Em algum momento no passado, a prefeitura municipal de Porto Alegre chegou a organizar um projeto que permitiria ao grupo chegar à sede própria, mas por inúmeras questões, o projeto gorou e a Terreira continua vivendo de aluguel, o que é um absurdo, sobretudo com tantos imóveis disponíveis, tanto no âmbito municipal, quanto estadual, sem utilização.

Meierhold é, por todos os motivos, um momento de exceção no teatro da cidade (como o são todos os espetáculos da Terreira). Mas neste, talvez pela penúria orçamentária, isso fica mais evidente, do mesmo modo que torna mais transparente a criatividade do grupo e de toda a sua equipe. O que temos: um texto original de um dramaturgo latino-americano que é recortado e recriado pelo grupo. Reescreve-se o texto enquanto uma memória do personagem. Mesclam-se linguagens: cinema, teatro, música, dança, paráfrase cenográfica, enfim, uma mistura inusitada e inesperada de alternativas que nos envolve e emocionam. E as interpretações, claro. Paulo Flores é emocionante na figura do alquebrado Meierhold, a reviver sua vida. Keter Velho mostra vitalidade e variabilidade em suas diferentes personificações. O eventual discurso torna-se puro espetáculo teatral. E o espectador é impactado que não são poucos os que são com os olhos marejados. A emoção que o teatro ainda provoca é a maior prova de sua vitalidade.

O espetáculo ainda permanece em cartaz e é para ser assistido/vivido obrigatoriamente por todos. Um dos grandes momentos de nossa cena dramática.