UBU TROPICAL!

UBU REI DE ALFRED JARRY - TRAD. FERREIRA GULLAR Ói Nóis ConVIDA   💥💥💥💥💥💥 OFICINA PRESENCIAL NA TERREIRA DA TRIBO 💥💥💥💥💥💥 Essa vai pra todes que vem perguntando sobre as oficinas da Terreira. A boa nova é que faremos duas oficinas ainda este mês. Para quem ainda não está sabendo, neste momento o grupo começa a se debruçar sobre nova pesquisa com o intento de criar um UBU TROPICAL. A partir da personagem Pai Ubu, icônica para todo o teatro ocidental que influenciou as vanguardas em todas as partes do mundo, o grupo visa criar um estudo público do teatro de Alfred Jarry e do Tropicalismo.  Ainda no "Ciclo I: Estudos", iremos oferecer duas oficinas de compartilhamento que acontecerão nos dias 26 e 28 de outubro, das 19 às 22H na Terreira da Tribo. Dia 26 o mote será a personagem PAI UBU e dia 28 o TROPICALSIMO. Atenção para os detalhes. 👇🏼👇🏼👇🏼 🔥serão oferecidas 12 vagas para cada oficina. As oficinas serão gratuitas e independentes uma da outra.  Portanto, preci

Até quando a violência e a falta de liberdade?

Antonio Hohlfedt
(Jornal do Comércio, 10 de maio de 2019)
 
Fotos de Eugênio Barboza
 
 

Há pouco mais de dois anos, o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz decidiu montar a peça original de Eduardo Pavlovsky Variacciones Meirhold. Como ocorre com os espetáculos da Terreira da Tribo, pouco do texto original ficou. E se o texto original era atual, infelizmente, dois anos depois, e sob a ótica do grupo sediado no bairro Navegantes, ganhou em atualidade e se tornou uma metáfora profundamente irônica: ao relembrar a perseguição e o assassinato de Vsevolod Emilevich Meierhold¸ em 1940, pelo regime stalinista da então União Soviética, a Terreira acaba trazendo uma crítica reflexão sobre as atuais circunstâncias em que vivemos no Brasil, em que discursos cada vez mais agressivos transformam artistas e professores em detratores de valores conservadores como os da família, da nacionalidade, da neutralidade (leia-se, alienação) partidária, etc.





Assistir a Meierhold, assim é uma experiência impactante, não apenas pela temática e o enfoque escolhido, mas porque tais perspectivas estão solucionadas esteticamente, graças às opções que a direção assumiu (lembrando que se trata de uma criação coletiva, ou seja, o trabalho de criação envolve os atores Paulo Flores (Meierhold) e Keter Velho (que interpreta sua companheira Zinaida, principalmente), a preparadora de atores Beatriz Britto¸ o autor da música original Johann Alex de Souza, os cenógrafos Eugênio Barbosa e Clélio Cardoso (esse último adaptou o dispositivo cênico criado em 1922 por Liubóv Popóva, para a montagem de O corno magnífico, dirigido por Meierhold), além de elementos cênicos importantes como a máscara de Molotov, feita por Tânia Farias (uma perfeição), os figurinos da própria Keter Velho, a iluminação do mesmo Clélio Cardoso e uma seleção-montagem-edição de cenas fílmicas das primeiras décadas do cinema russo que permite uma eficiente incursão pela época do dramaturgo e diretor russo.

Meierhold sofreu um processo de verdadeira reviravolta e inversão de valores em sua vida, quando teve a coragem de enfrentar os “donos” do poder de então. Reivindicando a liberdade de criação, ele ousou resistir à teoria do realismo socialista e entrou em confronto direto com as autoridades ditatoriais do regime. Consta que teria sido o próprio Stálin a ordenar sua execução.



A Terreira sempre realizou grandes, numerosas e multicoloridas montagens teatrais: inclusive por isso, hoje em dia, gasta muito com o aluguel de espaços em que guarda todos estes cenários (o que seria criminoso se viéssemos a perdê-los). Neste momento de crise, contudo, o grupo decidiu por um espetáculo menor e mais enxuto: apenas dois atores, sendo que Keter Velho encarna, além da companheira de Meierhold, um Xamã, Molotov (com uma máscara) e a metáfora da Repressão. Assim mesmo, o grupo precisa de apoio: mensalmente, despende mais de R$ 10 mil pelo aluguel da sede em que desenvolve um sem-número de atividades artísticas, inclusive a atual temporada. Em algum momento no passado, a prefeitura municipal de Porto Alegre chegou a organizar um projeto que permitiria ao grupo chegar à sede própria, mas por inúmeras questões, o projeto gorou e a Terreira continua vivendo de aluguel, o que é um absurdo, sobretudo com tantos imóveis disponíveis, tanto no âmbito municipal, quanto estadual, sem utilização.

Meierhold é, por todos os motivos, um momento de exceção no teatro da cidade (como o são todos os espetáculos da Terreira). Mas neste, talvez pela penúria orçamentária, isso fica mais evidente, do mesmo modo que torna mais transparente a criatividade do grupo e de toda a sua equipe. O que temos: um texto original de um dramaturgo latino-americano que é recortado e recriado pelo grupo. Reescreve-se o texto enquanto uma memória do personagem. Mesclam-se linguagens: cinema, teatro, música, dança, paráfrase cenográfica, enfim, uma mistura inusitada e inesperada de alternativas que nos envolve e emocionam. E as interpretações, claro. Paulo Flores é emocionante na figura do alquebrado Meierhold, a reviver sua vida. Keter Velho mostra vitalidade e variabilidade em suas diferentes personificações. O eventual discurso torna-se puro espetáculo teatral. E o espectador é impactado que não são poucos os que são com os olhos marejados. A emoção que o teatro ainda provoca é a maior prova de sua vitalidade.

O espetáculo ainda permanece em cartaz e é para ser assistido/vivido obrigatoriamente por todos. Um dos grandes momentos de nossa cena dramática.