TERREIRA DA TRIBO 37 ANOS DE (R)EXISTÊNCIA

Artigo publicado no Correio do Povo em 11 de setembro de 2021. Fotos de Pedro Isaias Lucas.     No dia 14 de julho de 1984 a Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz abria as suas portas para o público. Com um show de rock-punk que reuniu as bandas Replicantes e Urubu Rei, entre outras. Logo em seguida o Ói Nóis Aqui Traveiz encenou na nova casa “A Visita do Presidenciável ou Os Morcegos estão Comendo os Abacates Maduros”, uma parábola sobre o momento político que o Brasil vivia, com a saída dos militares de cena e a entrada de um governo civil. E anunciava para toda cidade “...todas as pessoas gostam de cantar, dançar, representar, pintar, fotografar. Qualquer pessoa é capaz de criar e a Terreira da Tribo está aí para isso”. E nesses 37 anos de atividades a Terreira da Tribo abrigou as mais diversas manifestações culturais como espetáculos de teatro, shows musicais, ciclos de filmes e vídeos, seminários, debates, performances e celebrações. Hoje a Terreira é reco

DUAS CARTAS PARA MEIERHOLD (Continuação)

 

Caríssimo Meyerhold,


Desculpe a formalidade, mas ela deve-se ao fato de ter te conhecido há pouco tempo, apesar de já fazer praticamente 1 ano (ou seria mais?) desde que fui convidada pelo Henrique Saidel a ver a encenação de um texto criado pelo dramaturgo argentino Eduardo Pavlovsky que mistura sua trajetória com os desassossegos vividos por ti no cárcere. Ao lembrar daquela noite muitas sensações e sentimentos se misturam, há pouco havia me mudado para Porto Alegre, era a primeira vez no espaço Terreira da Tribo e que via a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em um espaço fechado. Mergulhar no seu imaginário criativo naquele momento acompanhava novas aberturas no meu próprio cárcere privado que constantemente é renovado pelo nomadismo voluntário que me impulsiona a viver em constante revolução cultural, estética e política por esse Brasil.

 

 

No entanto, me sinto um pouco envergonhada de ter te conhecido tão tardiamente e esta ser a primeira vez que te escrevo. Sinto muito também, porque talvez minha carta te decepcione um pouco, já que nela falarei mais sobre as mulheres que fizeram parte da cena da tua vida e do teu teatro. Espero que tu entendas que o caminho de uma mulher e nossa história sempre é diferente, mesmo que nos encontremos para juntos fazermos a revolução. Por isso, mesmo que tua vida, tua encenação tenha chamado minha atenção, são Liubóv Popóva e Zinaida Reich que moveram meu olhar, minha curiosidade e todos os meus sentidos naquele dia. Tua fala guiava esse olhar, mas era o cenário de Popóva e a movimentação de Zinaida que tornavam vivas suas palavras em cena. Seu corpo pulsava em Paulo Flores e sentia que ele brilhava e sua luz se reverberava em mim, de modo que posso afirmar que senti a força e a presença de tua luta estética, no entanto, são elas que despertaram minha curiosidade e quem quero conhecer e saber mais e mais. Essas mulheres que sabemos tão pouco e cujos papéis desde aquela época eram secundários, mesmo que unidas à mesma luta. Mesmo que, na Moscou do inquieto século XX não fossem tratadas com distinção nas universidades e em alguns círculos artísticos. Mesmo que tu a elas e principalmente a ela assumisse o compromisso criativo e amoroso Meyerhold-Reich, que pelo que vi e ouvi de ti, de tua dramaturgia e tua estética se constroem e se reconstroem por contaminação, entrega e experimentação e que certamente surgem desse encontro com elas, encontro que sem hesitação tu incorpora em cena tornando-os parte de sua obra e de sua dramaturgia.

Agora, é importante revelar que meu interesse por elas se deve, não apenas ao fato de termos em comum o fato de sermos mulheres, mas porque sou apaixonada desde menina pela vanguarda russa, principalmente pelo concretismo e posteriormente por tudo o que veremos quando alguns e algumas dos principais nomes da Universidade Soviética Vkhutemas se mudam para ensinar e participar da formação da alemã Bauhaus. O que sabemos é que, na realidade, o cenário de Popóva nos oferece muito mais do que uma maquinaria cheia de roldanas, escorregadores e escadas, que acionam os corpos espacialmente criando planos ou ruídos diferentes de fundo para a cena. Não é apenas um dispositivo cênico, mas é resultado de um processo criativo que tem como pedagogia de base o objetivo de transformar o cotidiano da nova sociedade comunal através da criação e da produção de uma estética que aproxime arte, artesania e indústria. Essa é a revolução cultural que está acontecendo na Rússia e da qual tu fizeste parte, mas como tu, teus parceiros e parceiras é essa mesma revolução que os convida a se afastarem ou os executam e os exterminam. 

 

O que estava em jogo era a transformação social e Meyerhold, tenho certeza que o senhor percebeu que os corpos precisavam acompanhar as mudanças para que a revolução de fato acontecesse, não é? No entanto, parece que mais uma vez, as forças políticas retrógradas e os corpos que as constituem não se transformaram ao mesmo tempo. Mais uma vez o rolo compressor do conservadorismo enrijeceu a vida e a verdadeira revolução não aconteceu. O senhor tentou e ousou tornando a biomecânica parte crucial de tua metodologia e dramaturgia. Entretanto, a sensibilização do corpo para que o texto e a vida penetrem precisa acontecer não somente em cena, mas também nas fábricas, nos corpos que carregam a vida do campo e que fazem a roda da revolução girar. Essa roda grita em seus primeiros movimentos e é ela que coloca as roldanas a girar. O ruído dessa vanguarda mobiliza todos os sentidos e precisa ser sentido.

E esse ruído não foi silenciado. Aos poucos, mesmo que aparentemente de forma silenciosa a revolução estética seguiu teus passos. Um inventário inexaurível de novidades, de extravagâncias e de prodígios conquistaram outros territórios e outras artes: a Bauhaus Alemã e a França de Marcel Duchamp, com seus ready mades, tencionaram ainda mais a função da arte e nos modificaram totalmente nos anos que seguiram tua morte. Desejo te acalentar contando que muitas transformações ocorreram no teatro, mas principalmente na dança norte-americana, passando a ocupar um importante papel na investigação da improvisação que o senhor tanto valorizava. A intenção de negar e derrubar os paradigmas continuou e continua viva. A experiência de rompimento entre o artificial e o real, entre espaço do palco e da plateia, entre o criador e o intérprete, entre o processo e a obra, entre o cotidiano e a cena passaram a ser motores primordiais nas vanguardas que te seguiram. 

 Anna Halprin é uma dessas artistas que apontou a pesquisa em direção ao desenvolvimento de uma pedagogia para tornar bailarinas, bailarinos, atores e atrizes mais aptos a se moverem adentrando novos territórios, arriscando-se a se expor, a revelar-se em cena, resolvendo no corpo soluções para problemas da improvisação. Antes a improvisação, que em alguns casos, se restringia como ferramenta do criador, agora convida todos a participarem da criação por meio da improvisação, tendo como principal preocupação o desenvolvimento de uma consciência sinestésica e não mais apenas biomecânicas. Nestes acontecimentos, chamados de happenings, artistas de diferentes linguagens passam a criar juntos. Tenho certeza que tu ficarias muito feliz de ver, participar e continuar contribuindo com suas inquietações e curiosidade. Tenho tanto pra te contar, mas precisaria escrever muitas cartas para que o senhor pudesse ver que não conseguiram matar teu legado.

 


 

Curioso, que agora, que estou a contar tudo isso, sinto um misto de urgência com presença e flashes da peça surgem em um ritmo alucinado, incorporado a um bandoneon veloz movido por um canto surrealista sem nexo, que somente se acalma com a movimentação de Zinaida. Fico confusa, não sei mais se estou contigo no início do século XX ou se me encontro em 2019, ou mesmo agora em junho de 2020. Meu desejo é mergulhar mais fundo, como Zinaida, não quero ser apenas um títere a serviço da minha mente, quero experimentar meu corpo escrito em minha fala, quero gritar e deixar meu corpo tremer. Quero continuar essa tessitura, alinhar-me ao teu fio, ao de Popóva, Zinaida e Keter Velho, ao de Eduardo, Paulo e Henrique. Quero continuar a revolução e sei que não estou sozinha.


Obrigada por tudo e um forte abraço,

Caroline Marim