TERREIRA DA TRIBO 37 ANOS DE (R)EXISTÊNCIA

Artigo publicado no Correio do Povo em 11 de setembro de 2021. Fotos de Pedro Isaias Lucas.     No dia 14 de julho de 1984 a Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz abria as suas portas para o público. Com um show de rock-punk que reuniu as bandas Replicantes e Urubu Rei, entre outras. Logo em seguida o Ói Nóis Aqui Traveiz encenou na nova casa “A Visita do Presidenciável ou Os Morcegos estão Comendo os Abacates Maduros”, uma parábola sobre o momento político que o Brasil vivia, com a saída dos militares de cena e a entrada de um governo civil. E anunciava para toda cidade “...todas as pessoas gostam de cantar, dançar, representar, pintar, fotografar. Qualquer pessoa é capaz de criar e a Terreira da Tribo está aí para isso”. E nesses 37 anos de atividades a Terreira da Tribo abrigou as mais diversas manifestações culturais como espetáculos de teatro, shows musicais, ciclos de filmes e vídeos, seminários, debates, performances e celebrações. Hoje a Terreira é reco

Outra extraordinária performance de Paulo Flores | Crítica de "Quase Corpos"|

 

Fotos de Elizabeth Thiel


Antonio Hohlfeldt (Jornal do Comércio, 2 de julho de 2021)

Na série de espetáculos trazidos pelo teatro do Instituto Ling, um dos trabalhos selecionados foi inspirado em Krapp’s last tapes, de Samuel Beckett. A proposta do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz apresenta um trabalho solo de Paulo Flores, vivendo o personagem que dá título ao espetáculo. Na verdade, faz parte de uma série de produções, reunidas sob a designação de Quase Corpos, sendo este seu primeiro episódio. A encenação nos mostra um homem – Krapp – a ouvir gravações antigas, concretizadas a partir de determinados momentos de alegria ou frustração, e que ele, agora, ao retomar aqueles momentos, desconsidera-os e os relativiza, concebendo sua vida como uma existência zero, negativizada. Ele resolve voltar a registrar impressões experimentadas justamente naquele momento em que acabara de escutar suas, de certo modo, memórias, mas desiste de seu intento.

 

Pode causar estranheza que o Ói Nóis Aqui Traveiz, normalmente produzindo espetáculos de grandes dimensões, com muitos atores e espaços múltiplos, quando não teatro de rua, chegue a uma proposta como esta. Este não é o primeiro trabalho nesta linha que o grupo apresenta. Sua produção anterior já inaugurara esta experiência, ao apresentar uma espécie de biografia dramatizada do diretor teatral Meierhold, assassinado pelo sistema stalinista, na primeira metade do século XX, hoje considerado um dos mais utópicos e criativos homens de teatro do século passado. Podem-se apontar dois motivos imediatos para esta aparente guinada do grupo: de um lado, a crise que, já antes da pandemia, o Ói Nóis Aqui Traveiz enfrentava, obrigando-o à redução de custos. A falta de financiamentos, sobretudo de projetos federais, foi a principal questão. De outro lado, o surgimento da pandemia, que colocou todos os artistas em reclusão forçada e dificultou a concretização de novos projetos. Este, aliás, foi o tema do debate que se seguiu à segunda noite da curta temporada do grupo nesta bela e louvável iniciativa do Ling. Tanto Paulo Flores quanto Tania Farias enfatizaram a necessidade de continuar a trabalhar, mas também gizaram que o olhar crítico que Beckett expressa sobre a realidade acabou chamando-lhes a atenção sobretudo depois da pandemia. Assim, Beckett ganha atualidade e importância para um diálogo com o contemporâneo, com o presente imediato, sobretudo quando destaca este sentimento de estranhamento e de vacuidade em relação ao passar do tempo, o sentido de nossas ações e o sem sentido de guardarmos memórias que já não nos pertencem mais.

É interessante destacar que Beckett experimentou diferentes mídias para sua expressão: escreveu romances, novelas e contos; produziu textos dramáticos para o teatro; criou textos dramáticos para o rádio, etc. O que a equipe do Ói Nóis Aqui Traveiz se preocupou em fazer foi, exatamente, uma pesquisa de linguagem capaz de transformar o texto original de Krapp’s last tapes que já propõe uma linguagem híbrida porque, de certo modo, um ator contracena com um aparelho, no caso, um velho gravador de fita, daqueles utilizados pelas emissoras de rádio até o final dos anos 1970, pelo menos. A experiência proposta pelo Ói Nóis é mais radical: ela assume uma mudança de linguagem, mas sem perder a linguagem anterior. Explico: é evidente, e Tania confirma isso numa de suas intervenções no debate mencionado antes, que houve preocupação em se desenvolver uma linguagem cinematográfica, no que tange à narratividade. Mas, ao mesmo tempo, procurou-se preservar uma linguagem absolutamente teatral na interpretação do ator. Assim, se, de um lado temos closes sobre objetos e partes do corpo, temos uma câmara relativamente parada a acompanhar o personagem que se desloca pelo espaço, e este, sim, respeita algumas regras da criação original, no evidente contraste entre claro e escuro, que torna a encenação profundamente dramática. Paulo Flores, que já nos emocionara profundamente na sua incorporação a Meierhold, volta a ter um desempenho altamente qualificado, com suas pausas, com uma dicção quase de leitura mecânica de algumas passagens do texto, a mostrar a perda crescente de humanidade deste personagem, aos seus 69 anos. Trata-se de um trabalho a ser assistido com disponibilidade de tempo e preparo de alma, porque não é fácil, requer entrega do espectador, assim como se entregou a ele o ator. Mas é um belo espetáculo, sem sombra de dúvida.