TERREIRA DA TRIBO 37 ANOS DE (R)EXISTÊNCIA

Artigo publicado no Correio do Povo em 11 de setembro de 2021.

Fotos de Pedro Isaias Lucas.

 

 

No dia 14 de julho de 1984 a Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz abria as suas portas para o público. Com um show de rock-punk que reuniu as bandas Replicantes e Urubu Rei, entre outras. Logo em seguida o Ói Nóis Aqui Traveiz encenou na nova casa “A Visita do Presidenciável ou Os Morcegos estão Comendo os Abacates Maduros”, uma parábola sobre o momento político que o Brasil vivia, com a saída dos militares de cena e a entrada de um governo civil. E anunciava para toda cidade “...todas as pessoas gostam de cantar, dançar, representar, pintar, fotografar. Qualquer pessoa é capaz de criar e a Terreira da Tribo está aí para isso”. E nesses 37 anos de atividades a Terreira da Tribo abrigou as mais diversas manifestações culturais como espetáculos de teatro, shows musicais, ciclos de filmes e vídeos, seminários, debates, performances e celebrações. Hoje a Terreira é reconhecida como Ponto de Cultura e um dos principais centros de investigação cênica do país e se constituiu como referência nacional na aprendizagem do teatro com a sua Escola de Teatro Popular. A Terreira da Tribo ficou durante quinze anos na rua José do Patrocínio, na Cidade Baixa, para se mudar no final de 1999 para rua João Inácio, no Navegantes. Há doze anos o centro cultural Terreira da Tribo está localizada na Rua Santos Dumont, 1186, no bairro São Geraldo.

O caráter sócio-cultural do trabalho da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz e do seu espaço cultural a Terreira da Tribo visa democratizar o acesso à cultura e às artes, seja por meio da fruição de atividades culturais, seja por meio da iniciação, formação e qualificação técnica nas artes cênicas. Tem como princípio norteador a noção de Arte Pública, ou seja, acessível a todos, independente de classe, etnia, raça, gênero ou outro marcador social. A ação da Terreira se desenvolve principalmente nas vertentes: o teatro de rua com apresentações em praças e bairros populares; o teatro de vivência - pesquisa sobre o trabalho autoral do ator e investigação da utilização do espaço cênico, essencial para a evolução das nossas artes cênicas; o trabalho artístico-pedagógico com oficinas populares, na sua sede e na periferia da cidade, compartilhando o saber teatral e fomentando a criação de grupos culturais de organização local; e uma ação ligada à memória através de publicações e audiovisuais que registram a trajetória estética e política da Tribo de Atuadores e agora a criação de um repositório digital, primeiro passo para o Museu da Cena Ói Nóis Aqui Traveiz. A organização da Terreira é baseada no trabalho coletivo, tanto na produção das atividades artísticas, como na manutenção do espaço. Para a Terreira o teatro é instrumento de desvelamento e análise da realidade e a sua função é social, contribuindo para o conhecimento das pessoas e o aprimoramento das suas condições.

 


 

A Terreira da Tribo está com as portas fechadas para o público desde março de 2020 com o início da pandemia. As atividades presenciais foram todas interrompidas. Durante o ano passado através do audiovisual a Terreira criou uma websérie registrando as suas ações artístico-pedagógicas e também encontros virtuais para debater os diferentes aspectos da história e da criação do grupo. Durante todo ano apresentou no canal do you tube do Ói Nóis Aqui Traveiz uma programação criativa que ao mesmo tempo foi um inventário dos processos cênicos do grupo e possibilitou experimentar a linguagem audiovisual. Os principais trabalhos deste semestre foram “Quase Corpos – Episódio 1: A Última Gravação”, versão livre da peça Krapp’s Last Tape de Samuel Beckett e a ‘Desmontagem Meierhold’ onde o público navega entre depoimentos, cenas e reflexões que contribuíram para a construção do espetáculo ‘Meierhold’ (2019) e é instigado a refletir sobre o momento e lugar em que vivemos. 

 

 


A grave crise sanitária que se abateu sobre o país com o covid-19 e mais o descaso que o governo atual tem com as artes e a cultura levou a Terreira da Tribo a sua pior crise. O espaço do Ói Nóis Aqui Traveiz que sempre ocupou prédios privados pagando onerosos alugueis tem vivido muitas dificuldades para viabilizar a sua existência. Para sobreviver ao estrangulamento econômico que os artistas e grupos culturais estão vivendo, a Terreira mantém uma campanha de financiamento coletivo e assinatura mensal por meio da plataforma www.benfeitoria.com/terreiradatribo . Este momento em que o Teatro que é a arte do encontro está interditado, por razões da pandemia, traz para os artistas da cena um grande desafio. O que fazer e como dar continuidade ao trabalho teatral. Os grupos teatrais, coletivos de trabalho continuado, que sempre apontaram caminhos para os impasses impostos pela arte mercadológica, certamente encontrarão uma saída para a existência da sua arte. A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, criada em 1978, inicia neste momento uma pesquisa a partir da personagem Pai Ubu, criada no final do século XIX pelo francês Alfred Jarry, e icônica para todo o teatro ocidental influenciando as vanguardas em todas as partes do mundo. A investigação vai relacionar a personagem com o nosso Tropicalismo, movimento artístico surgido no contexto de um governo repressivo. Momento para debater o Tropicalismo e a sua origem primeira na figura do Pai Ubu de Jarry. Ainda que se tenham passado mais de cem anos desde a sua primeira aparição, Pai Ubu persiste como veículo de ruptura, podendo ser considerado como o Pai do teatro moderno, ou ao menos, Pai da noção de personagem livre das tradições miméticas realistas. Personagem que neste momento histórico que o Brasil está vivendo garante a contundência de seu retorno. Como resultado da pesquisa será criado na Terreira da Tribo o audiovisual “Ubu Tropical”. 

 

 


A Terreira da Tribo espera que em breve possa abrir as suas portas para receber seus oficinandos/alunos e seus espectadores . Que possa de novo voltar às ruas com performances que tragam novas cores para a nossa cidade, trazendo o lúdico e a reflexão histórica, surpreendendo os transeuntes. Passada a pandemia espaços como a Terreira terão uma grande importância para a construção de uma sociedade mais humanizada. Existem, espalhados por todo país, grupos que apesar de todas as dificuldades constituíram seus espaços culturais. Além de local para apresentações de espetáculos, funcionam como acervo de parte da história do Teatro Brasileiro, espaço para investigação, pesquisa e compartilhamento de experiências, construindo, assim, escolas de teatro, formando atores e fomentando novos grupos. São esses espaços que repensam cotidianamente a sua prática, não se contentando com soluções superficiais, encarando o Teatro como algo maior e mais importante que um simples entretenimento, garantindo para a arte teatral relevância histórica.

Paulo Flores