TEATRO COMO LABORATÓRIO PARA IMAGINAÇÃO SOCIAL

TEATRO COMO LABORATÓRIO PARA IMAGINAÇÃO SOCIAL  Fotos de Eugênio Barboza ‘A Arte em todas as suas modalidades tem por função básica a estruturação e o desenvolvimento da sensibilidade e do pensamento dos seres humanos. O teatro tem por objeto a análise crítica e a exposição das relações inter-humanas, o que faz dele um dos mais poderosos aliados na luta permanente em favor da construção da cidadania.’ A história da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, criada em 1978, sempre se pautou pela  firmação da diferença, da independência em relação ao mercado e às estruturas de poder, com encenações caracterizadas pela ousadia e liberdade criativa. As suas três principais vertentes são: o Teatro de Rua, nascido das manifestações políticas – de linguagem popular e intervenção direta no cotidiano da cidade – o Teatro de Vivência, no sentido de experiência partilhada, em que o espectador torna-se participante da cena – e o trabalho artístico Pedagógico, desenvolvido em sua sede, a Terreira da

O Tropicalismo e o Pai Ubu

 O Tropicalismo e o Pai Ubu


Passado mais de 50 anos do Tropicalismo, o Brasil vive hoje um novo momento de perplexidade. Nesse momento nós buscamos ligar o personagem Pai Ubu, de Jarry, que foi o precursor das vanguardas, com o nosso movimento Tropicalista. Pai Ubu, símbolo da personagem grotesca e cruel, que em chave humorística antecipa os governantes autoritários e dementes que surgiram no último século. Personagem que neste momento histórico que estamos vivendo garante a contundência de seu retorno. O Tropicalismo continua sendo nos nossos dias o que de mais revolucionário e transgressor acontecimento de inovação nas nossas artes.

Nos anos 50 do século XX, quando o Brasil vivia um período democrático, após os anos da ditadura do Estado Novo, com desenvolvimento social, relacionado com a industrialização e a urbanização. São os anos JK, do presidente Juscelino Kubitschek, e o marco desse período é a construção de Brasília, inaugurada em 1960.

É o momento de as artes nacionais entrarem em contato com os principais artistas das vanguardas europeias. Neste período de renovação das artes vamos encontrar no nosso país o surgimento da poesia concreta, o movimento da música nova, a bossa nova, o cinema novo, os teatros de Arena e Oficina, o neo-concretismo nas artes visuais. Nos anos 60 essas experiências vão se radicalizar retomando princípios da Antropofagia de Oswald de Andrade adaptados ao contexto da época. Vivia-se sob uma ditadura civil militar desde o golpe de abril de 1964. Os artistas viam-se pressionados a adotar posições políticas contra a perseguição e a censura. 

 

Caetano Veloso vestindo Parangolé

 

O movimento tropicalista não nasceu de forma organizada e nem com o nome que conhecemos hoje. Muitos artistas da época manifestavam em suas obras interesses de ruptura e renovação: cineastas, escritores e intelectuais, que muitas vezes nem se conheciam pessoalmente. Pela primeira vez nas artes a questão política e a crítica social apareciam integradas às novas linguagens, e não associadas aos artistas da chamada esquerda que ainda seguiam os parâmetros da estética conhecida como realismo socialista.

Mesmo ficando mais conhecido na área da música, pelos compositores baianos Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé, principalmente pela televisão e a indústria fonográfica, o Tropicalismo marcou a produção nas artes visuais, no cinema, na poesia e no teatro, recuperando, em certa medida, o impulso multidisciplinar do eventos das vanguardas em todo mundo.

Podemos dizer que a sua origem está muito mais ligada as artes visuais. Ligia Clark e Hélio Oiticica, entre outros já recusavam a obra de arte como objeto de uma fruição passiva, conclamando o espectador como elemento ativo e estrutural do trabalho artístico, a ponto de a obra depender dele para realizar integralmente seu fluxo.

Assim como as artes plásticas passara da contemplação à percepção, passava-se agora da percepção à participação, e o público via-se imerso no processo, física e existencialmente. Como por exemplo nos Parangolés de Hélio Oiticica, capas coloridas, que precisam ser vestidos, evoluir no espaço a partir de um corpo, numa operação que une arte, teatro, música e dança.

Hélio Oiticica, talvez tenha sido o primeiro artista a compreender no Brasil a característica nômade, impura e multiforme dos novos tempos. Durante a apresentação de sua obra Tropicália, um penetrável onde o espectador estava dentro da instalação, percorrendo sensorialmente o ambiente, Oiticica conclamava que “a pureza é um mito”. A Tropicália de Oiticica acabou deflagrando e nomeando, no ano de 1967, um dos movimentos mais ricos e importantes do Brasil: o Tropicalismo.

 

 


Em abril de 1967 é montada no Rio de Janeiro a exposição Nova Objetividade Brasileira, e é nessa exposição que aparece pela primeira vez o trabalho de Hélio Oiticica intitulado Tropicália. Em maio estreia o filme Terra em Transe de Glauber Rocha. Em junho José Agrippino de Paula publica seu livro Panamérica. Zé Agrippino foi fundamental para o movimento, multiartista que além da literatura atuou no teatro, na música e no cinema naquele período. Em setembro o Teatro Oficina encena pela primeira vez uma peça de Oswald de Andrade O Rei da Vela, que será o grande marco da renovação do teatro brasileiro. Na época o diretor José Celso Martinez Correia dedica a peça ao filme revolucionário Terra em Transe. Nesta época Caetano Veloso assiste a peça e entra em contato com as ideias de Oswald de Andrade. Na época preparando as músicas para seu novo disco acata a sugestão do produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto para nomear com o título Tropicália uma das suas canções, ao ver nela, relações com a obra de mesmo nome de Hélio Oiticica. É o momento em que nos arranjos do maestro Rogério Duprat para as músicas “Alegria, alegria”, de Caetano, e “Domingo no Parque”, de Gil, ele introduz a guitarra elétrica na música popular brasileira. Como pode se ver é uma grande conjunção de criatividade que dá origem ao que a crítica vai denominar de Tropicalismo. A partir dos meios de comunicação, como a televisão, o cinema e a indústria fonográfica, o movimento fez o primeiro uso inteligente da penetração do universo do mercado cultural para uma renovação estética. Tratava-se de um movimento de vanguarda que, em determinadas instâncias, buscaria dialogar com a nascente indústria cultural, de forma a evitar tornar-se exclusivo e elitista.

 

O Tropicalismo usava e abusava da confluência de mídias e linguagens, e do contágio direto entre várias áreas da arte e da cultura. Fazia, assim, a “antropofagia da antropofagia modernista”, com surpreendentes vôos experimentais. Fazendo uma síntese da poesia concreta, da bossa nova e da contracultura, unindo os dados artísticos a uma visão libertária da política. A contracultura foi um movimento comportamental que introduziu novos valores em escala internacional.

O Tropicalismo fundava, portanto, uma outra “língua”, rebelde e sensorial, bem ao espírito das colagens dadaístas, e movida contra a lógica burguesa, o discurso linear e a representação clássica. É preciso lembrar que eram anos de muita repressão, vivia-se governos autoritários, em um país socialmente muito desigual, de um lado concentração de renda, concentração de terra, e do outro uma grande maioria negra e mestiça vivendo na fome e na miséria.

Toda essa explosão de criatividade e contestação que o Tropicalismo trazia, sofreu o peso da repressão da ditadura militar. Além das várias obras censuradas, tivemos atos violentos contra os artistas, como por exemplo o ataque do grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas a peça teatral “Roda Viva”, dirigida por Zé Celso, destruindo o cenário e agredindo os atores. A partir do Ato Institucional Número Cinco, de dezembro de 1968, vários artistas foram presos, e muitos tiveram que partir para o exílio.

O movimento durou principalmente os anos de 67 e 68, mas a partir dele toda a arte brasileira, mesmo sob censura, viveu um período riquíssimo de inovações.