TEATRO COMO LABORATÓRIO PARA IMAGINAÇÃO SOCIAL

TEATRO COMO LABORATÓRIO PARA IMAGINAÇÃO SOCIAL  Fotos de Eugênio Barboza ‘A Arte em todas as suas modalidades tem por função básica a estruturação e o desenvolvimento da sensibilidade e do pensamento dos seres humanos. O teatro tem por objeto a análise crítica e a exposição das relações inter-humanas, o que faz dele um dos mais poderosos aliados na luta permanente em favor da construção da cidadania.’ A história da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, criada em 1978, sempre se pautou pela  firmação da diferença, da independência em relação ao mercado e às estruturas de poder, com encenações caracterizadas pela ousadia e liberdade criativa. As suas três principais vertentes são: o Teatro de Rua, nascido das manifestações políticas – de linguagem popular e intervenção direta no cotidiano da cidade – o Teatro de Vivência, no sentido de experiência partilhada, em que o espectador torna-se participante da cena – e o trabalho artístico Pedagógico, desenvolvido em sua sede, a Terreira da

PERSONAGEM DO PAI UBU

 

PERSONAGEM DO PAI UBU


A personagem Pai Ubu é uma espécie de work in progress que se coloca sempre em movimento de reconstrução. O francês Alfred Jarry (1873-1907) é o primeiro dramaturgo do novo teatro contemporâneo. Se bem que não se trata de um autor dramático em sentido estrito, sim o autor de uma obra – ou mais ainda, do criador de uma personagem – que desde que foi para cena vem revolucionando a cena teatral. Na peça Ubu Rei narra as peripécias de uma personagem grotesca e cruel, Pai Ubu, que incitado por Mãe Ubu assassina o rei da Polônia e coroa a si mesmo. Inicia uma longa serie de atrocidades que inclui traições, roubos, corrupção e assassinatos. Personagem ambicioso, covarde e irracional, o legendário Pai Ubu antecipa, em chave humorística, alguns dos governantes autoritários e dementes que surgiram no último século. Jarry desenvolveu uma interessante saga (Ubu Rei, Ubu Cornudo, Ubu Acorrentado e Ubu na Colina, são as mais destacadas), de comédia bufa e as vezes, escatológica e absurda, que fundou um novo estilo e uma nova concepção estética e ideológica. Daí beberam todas as vanguardas do século XX, como dadaístas, surrealistas, o teatro do absurdo, e grande parte do humor grotesco contemporâneo. A provocação de Ubu chega inclusive ao universo da linguagem inventando palavras, e chamando atenção para um mundo aparentemente ordenado e progressista, mas que a todo momento cria os seus brutais Ubus. O movimento modernista foi influenciado por todas as vanguardas surgidas na Europa, e levou o seu principal porta-voz, Oswald de Andrade, criar o conceito de Antropofagia, que décadas depois ressurgiria no Tropicalismo, influenciando a arte brasileira até os dias de hoje.

 

 


 

O Pai Ubu e a sua relação com o Bufão

O personagem representaria um tipo de “bufão selvagem”, símbolo de cinismo, destruição, estupidez e primitivismo, que assume o poder através da força bruta e passa a representar um perigo social e político. O que é interessante de se pensar é que Pai Ubu é um perigo por dois motivos. Primeiro, ele não tem consciência de que é bufão, portanto, não sabe o papel social que cumpre ao praticar suas inversões. Em segundo lugar, ele é um “bufão selvagem”, não domesticado, ou seja, não é capaz de conviver com os homens e, muito menos, com as figuras de poder. Ele resolve assumir o poder, sentar no trono e, o que é pior, não sair nunca mais de lá. O reinado efêmero se torna permanente.

O bufão surge no teatro, a princípio, como um personagem secundário, que frequentemente representava o reflexo deformado e grotesco do protagonista, detentor de algum tipo de autoridade oficial. Sua presença em cena estava sempre atrelada à ideia de um duplo paródico dessa figura de autoridade, uma vez que representava o avesso do personagem socialmente reconhecido e aceito como o detentor do direito ou da norma aceita pela sociedade. O bufão, enquanto personagem paródico, deve ser sempre analisado a partir de um determinado contexto social, político e histórico, pois funciona como alguém que dá uma nova perspectiva sobre a ordem habitual. A origem da palavra bufão esclarece essa função. No italiano, a palavra buffone está relacionada a buffo , que é um sopro de vento breve, imprevisto, impetuoso; uma lufada, uma rajada. Portanto, o bufão sempre modifica o ambiente com uma atitude imprevista e impetuosa. Ele “permite a permutação dos elementos não somente do direito ao avesso, mas também do alto ao baixo e da direita à esquerda”.

Os bufões, bobos teatrais, por estarem ligados historicamente às figuras dos bobos da corte, dos histriões, são marcados pelo signo negativo de estar fora do espaço social organizado. Considerados inaptos, limitados ou absurdos para a sociedade, são os seres à margem, que não fazem parte desse mundo. O bufão é a imagem daquele que é diferente do modelo, da norma. Mas, ele não é simplesmente definido pela negatividade. Muitas vezes sua inépcia se metamorfoseia em agilidade, sua bestice em sabedoria, sua malicia em astúcia, suas elucubrações em uma mensagem clara. O bufão é o ser dos paradoxos, das antíteses, o personagem do avesso e do direito, da negação e da afirmação. Sua função é de dizer alto o que se pensa baixo: ele desvela o não-dito, o interdito, o latente ou o recalcado.

O bufão estava ligado à rua, à praça, sendo o representante de uma reunião de vozes de contestação e de transgressão. Pode-se dizer que sua palavra vai além dos limites estabelecidos pela lei e pela ordem. Portanto, sua natureza, que permite mudar a ordem das coisas, se revela providencial e sua falta de jeito, sua estupidez e suas provocações contribuem, no fim das contas, para endireitar o mundo doente. O riso, o modelo de avesso, a ambivalência, a transgressão, a cultura popular, são elementos geralmente atribuídos ao bufão.

Pai Ubu, assim como o bufão, representa uma deformação da norma, o que é apresentado por Jarry através de gravuras e de comentários em artigos publicados na época da estreia de seu espetáculo. Na edição original de 1896, Pai Ubu aparece num retrato como uma figura esférica em cujo enorme ventre se vê desenhada uma espiral. Sob o braço direito ele carrega um bastão de madeira. Sua cabeça tem a forma de um cone, com olhos semelhantes a duas fendas e grandes bigodes sob o nariz. Uma imagem que nos faz pensar se estamos diante de um animal ou de um homem. O enorme ventre do personagem coloca em acento seu interesse primordial: nutrir-se. Pai Ubu está a todo instante à procura de “substância” para satisfazer seu apetite. É covarde, infame, ignóbil e, nas próprias palavras de Jarry – em seu artigo Questão de Teatro – é visto como um espelho deformado do homem, representando o exagero de seus vícios, é um “duplo ignóbil” que é feito: “da eterna imbecilidade humana, da eterna luxúria, da eterna gula, da baixeza de instintos erigidos na tirania; dos pudores, das virtudes, do patriotismo e do ideal de gente bem nutrida.” Pai Ubu apresenta todas as qualidades inversas do herói tradicional, que são heroísmo, a grandeza de alma e o sublime. Seu aspecto de marionete não lhe confere nenhuma interioridade, consciência ou psicologia e faz dele um ser de superfície. Mesmo tendo sido rei de Aragon, Conde de Sandomir e depois rei da Polônia, Pai Ubu sempre aparece como um ser à margem da sociedade em função de seu instinto primitivo. Está mais próximo do animal do que do ser humano: é o animal que mata para sobreviver e simboliza a pulsão do desejo, normalmente reprimido pelo meio social. Para assumir o poder exerce sua força primitiva , pois não possui inteligência para fazê-lo. Jarry nos atira um personagem provocante: obsceno, feio, estúpido que não pertence a nosso mundo familiar, ao contrário, rechaça esse nosso mundo estável, seguro. Nossos instintos surgem na forma de um ser que não nos permite qualquer tipo de identificação, mas que, no fim das contas, deve ser visto como um personagem grotesco que não pode ser levado a sério. Apesar de ter sido criado a partir de uma visão trágica do mundo e da humanidade esse animal-homem destruidor traz em si algo de infantil, lúdico e risível. 

(“O Processo de Ingestão e Síntese Na Construção

do Personagem Pai Ubu” de Eduardo Vaccari)