TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 19]

“Se Não Tem Pão, Comam Bolo!” tem por referência a célebre frase da rainha da França, Maria Antonieta,quando no princípio da Revolução Francesa, pressionada em seu próprio palácio pelo povo que pedia pão, pateticamente perguntou por que não comiam brioches. Encenação popular, esta fábula política recorre ao fato histórico para falar de problemas cotidianos que afligem a maioria dos brasileiros: a fome, a opressão, os desmandos do poder e a corrupção dos políticos. Os personagens são saltimbancos contadores de histórias, que de uma forma satírica e divertida cantam para o povo, nas ruas, o que a sociedade burguesa procura esconder: a luta de classes. 
    “SE NÃO TEM PÃO, COMAM BOLO!” Roteiro e direção : criação coletiva Figurinos : Arlete Cunha Adereços : Zau Figueiredo Música : Rogério Lauda Elenco : Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani Intérprete em substituição : Vera Parenza Estreia : 14 de fevereiro de 1993 (Espetáculo de rua) TERREIRA DA TRIBO EU APOIO! Você

ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 10]






É na Terreira que a Tribo buscou o "autodesnudamento" do ator grotowskiano. Partindo do íntimo de seu ser e de seus instintos, o ator deve ultrapassar os seus próprios limites e condicionamentos. O objetivo e a função do ator é fazer ressoar alguma coisa na intimidade mais profunda do espectador. Dentro desse processo de pesquisa a Terreira vai produziu nos próximos anos o que chamou de trilogia da Condição Humana. Espetáculos que envolviam questões como solidão, incomunicabilidade e finitude do ser humano. “As Domésticas”, de Jean Genet, de 1985, é um cerimonial teatral, um extraordinário jogo de aparências, onde o imaginário e a realidade se fundem para que através da mentira, do choque e do artificial, os participantes do cerimonial se enxerguem diante do seu próprio espelho. Veem-se em cena três homens representando mulheres, e estas que representam papéis sociais que compreendem as relações servis de doméstica-patroa. O universo feminino subjugado por uma sociedade essencialmente machista. As empregadas estão presas à imagem da Patroa por uma mistura de afeição, amor erótico e ódio profundo. Elas não conseguem deixar de imitar e desejar ser a Patroa. Uma odeia a outra porque vê na companheira a própria imagem refletida como num espelho.




“AS DOMÉSTICAS”

Em ´As Domésticas´ estão em foco a exploração e a subserviência, que caracterizam as diferentes classes sociais, ilustrada aqui na imagem de duas empregadas domésticas e sua rica patroa. A peça retrata o universo feminino subjugado por uma sociedade essencialmente machista. Os personagens femininos são representados por homens. O ambiente cênico era constituído pelas cadeiras dos espectadores, uma cama de casal, um guarda-roupa e uma penteadeira com espelho. Na decoração do quarto, muitas flores, cortinas de cetim, o altar de uma santa (a imagem viva da própria patroa) e um quadro com a pintura de um falo. Toda a configuração dos móveis era fálica. A encenação acontece como um cerimonial místico-erótico. No quarto da patroa, as irmãs Clara e Solange dedicam algumas horas do dia à inversão de seus papéis. Enquanto Clara se passa pela patroa, remexendo seus pertences, Solange assume a identidade da irmã, e ambas humilham-se mutuamente até o momento de ensaiarem o assassinato da dona da casa, gesto sempre interrompido pelo alarme do despertador. É hora de recolocar tudo nos lugares. Ela está quase chegando. Na brincadeira, fica óbvia a ambiguidade das relações existentes entre as criadas e sua ama. As primeiras estão presas á imagem da segunda por laços de afeição, erotismo e ódio. E nutrem entre si um profundo despreza, por verem, uma na outra, o que realmente são. Seu maior desejo não é eliminar a classe da patroa, mas ocupar seu lugar na sociedade. O clímax ocorre quando as mulheres percebem que o amante da patroa, que elas haviam denunciado à policia através de uma carta anônima, é posto em liberdade. Com medo de serem desmascaradas, decidem executar o plano. Porém, a dona de casa, eufórica com a notícia, recusa o chá de camomila envenenado e sai novamente. Ao se sentirem acuadas, elas repetem o jogo, mas, desta vez, vão até o fim. Fantasiada como patroa, é Clara que se envenena, enquanto Solange está decidida a acusar-se de sua morte.


 
 
Autor: Jean Genet
Direção: coletiva
Cenografia e figurino: Isabella Lacerda
Adereços e maquiagem: Arlete Cunha
Iluminação: Danilo Costa
Elenco: Horácio Borges, Paulo Flores e Renan Costa
Estreia: dezembro de 1985
Local: Terreira da Tribo