TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 19]

“Se Não Tem Pão, Comam Bolo!” tem por referência a célebre frase da rainha da França, Maria Antonieta,quando no princípio da Revolução Francesa, pressionada em seu próprio palácio pelo povo que pedia pão, pateticamente perguntou por que não comiam brioches. Encenação popular, esta fábula política recorre ao fato histórico para falar de problemas cotidianos que afligem a maioria dos brasileiros: a fome, a opressão, os desmandos do poder e a corrupção dos políticos. Os personagens são saltimbancos contadores de histórias, que de uma forma satírica e divertida cantam para o povo, nas ruas, o que a sociedade burguesa procura esconder: a luta de classes. 
    “SE NÃO TEM PÃO, COMAM BOLO!” Roteiro e direção : criação coletiva Figurinos : Arlete Cunha Adereços : Zau Figueiredo Música : Rogério Lauda Elenco : Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani Intérprete em substituição : Vera Parenza Estreia : 14 de fevereiro de 1993 (Espetáculo de rua) TERREIRA DA TRIBO EU APOIO! Você

ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 11]

 

 

Em "Fim de partida", de Samuel Beckett, de 1986, os atuadores com extrema precisão colocavam em cena a atmosfera angustiante dos personagens. Sentado numa cadeira de rodas, imóvel, cego e com as pernas paralisadas, está Hamm. Dentro de duas latas de lixo, com as pernas decepadas, vivem os seus velhos pais. Quem se movimenta é Clov, filho adotivo e criado do grupo. Porém, entre uma janela e outra, o que pudesse sobrar de esperança se dissipa: de um lado, o mar cor de chumbo; de outro, a terra desértica. Para justificar a existência, as personagens inventam coisas banais, fazem um jogo de paciência. Ali está o ser humano frente a ele mesmo, reduzido à sua mais radical essência. Ao contrário de As domésticas, na qual as emoções exacerbadas passam por um ritmo acelerado, em Fim de partida os atores têm o gesto contido, estão paralisados dentro da cena. O ambiente é uma imagem futurista de um velho abrigo nuclear. Sufocante, cinzento e enferrujado.



“FIM DE PARTIDA”

A ambientação da encenação lembrava um abrigo antinuclear, sarcasticamente arquitetado na forma de uma imensa lata de lixo. Para chegar nesse ambiente, os espectadores passavam antes por um longo túnel coberto por folhas de zinco. Uma vez acomodados no espaço, deparava-se com o que restou da vida  na terra: um quadro desolador, onde quatro personagens, limitados em sua condição física e enclausurados entre paredes de zinco, consomem-se em relações de angústia e rancor. São eles: Hamm, cego e preso a uma cadeira de rodas; os velhos, seus pais, Nagg e Nell, cujas pernas decepadas mantêm-nos fixos dentro de latões de lixo; e Clov, o único que se movimenta porque, ironicamente, não consegue senta-se. Entre eles há um pacto de fidelidade, silencioso e desesperador. Hamm é o déspota; é ele quem dá as ordens, enquanto Clov obedece. Mas é Clov quem determina a continuidade do jogo. Ele pode partir a qualquer momento, e, então todos morrerão, porque dependem dele para continuar existindo. Toda a história gira em torno do medo de que ele se vá; mas ele não vai a lugar algum, porque não há nenhum lugar para ir. Lá fora é a morte, é o nada. E mesmo quando, no final da peça ele não responde mais aos apelos do cego, é do seu lado que se posiciona e permanece estático, calado, com a mala pronta em uma das mãos. Tudo termina como começou. Nada acontece. Tendo sua obra classificada como teatro apocalíptico, Samuel Beckett traça o painel de um mundo infinitamente vazio e descrente; e ilustra o homem em sua miséria humana, sem Deus e sem razão. Em ´Fim de Partida´, seus personagens estão parados no tempo, sem nada esperar. 
 





Autor
: Samuel Beckett
Direção: coletiva
Cenografia e figurino: Isabella Lacerda
Iluminação e sonoplastia: Zezinho Moura
Elenco: Arlete Cunha, Maria Rosa, Sérgio Etchichury e Paulo Flores
Estreia: 21 de novembro de 1986