TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 19]

“Se Não Tem Pão, Comam Bolo!” tem por referência a célebre frase da rainha da França, Maria Antonieta,quando no princípio da Revolução Francesa, pressionada em seu próprio palácio pelo povo que pedia pão, pateticamente perguntou por que não comiam brioches. Encenação popular, esta fábula política recorre ao fato histórico para falar de problemas cotidianos que afligem a maioria dos brasileiros: a fome, a opressão, os desmandos do poder e a corrupção dos políticos. Os personagens são saltimbancos contadores de histórias, que de uma forma satírica e divertida cantam para o povo, nas ruas, o que a sociedade burguesa procura esconder: a luta de classes. 
    “SE NÃO TEM PÃO, COMAM BOLO!” Roteiro e direção : criação coletiva Figurinos : Arlete Cunha Adereços : Zau Figueiredo Música : Rogério Lauda Elenco : Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani Intérprete em substituição : Vera Parenza Estreia : 14 de fevereiro de 1993 (Espetáculo de rua) TERREIRA DA TRIBO EU APOIO! Você

ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 8]







Em 1984 os atuadores constituem a Terreira da Tribo, em um prédio alugado na rua José do Patrocínio no bairro Cidade Baixa. Um novo espaço cultural aberto a todo tipo de manifestações: teatro, música, filmes, oficinas de arte, debates, happenings, celebrações. O nome deste espaço feminino, telúrico e anarquista vem de terreiro, lugar de encontro do ser humano com o sagrado. Na Terreira da Tribo o Ói Nóis Aqui Traveiz volta à cena com a montagem de “A Visita do Presidenciável ou os Morcegos Estão Comendo os Abacates Maduros”, uma espécie de parábola sobre o momento político do país. Derrotada a campanha pelas eleições diretas, o país se preparava para a sucessão presidencial via congresso. Depois de vinte e um anos de ditadura, um civil iria assumir a presidência, não trazendo nenhuma mudança social significativa, além de todo o seu comprometimento com a estrutura oligárquica que domina o país. O espetáculo contava em tom de farsa a história de um casal de velhos, moradores de uma casa há vinte anos, que aos poucos se deteriora. A ação acontece no dia que o procurador geral irá cobrar o aluguel da casa, que os velhos não têm mais condições de pagar. Coincidentemente, aquele é o dia em que o futuro presidente será apresentado aos inquilinos. Metáfora da classe média conservadora, que apoiou o golpe de 64 e, duas décadas depois, ao perder seus privilégios, saiu às ruas pedindo Diretas Já. O espetáculo trazia uma mistura de teatro do absurdo, sessão de rock, cinema underground, poesia marginal e vanguarda plástica. Além de todas as atividades que acontecem diariamente na Terreira, o espaço oportuniza às pessoas em geral o contato com o fazer teatral. Partindo do princípio de que toda pessoa tem um potencial criador, os atuadores vão desenvolver, a partir de 1985, diversas oficinas abertas à comunidade: Teatro Livre, Experimentação e Pesquisa Cênica, Expressão e Movimento, Teatro de Rua, Máscaras e Adereços, Teatro Ritual, entre outras. A Terreira consolidou o trabalho do Ói  Nóis Aqui Traveiz.  Possibilitou aprofundar a investigação do trabalho do ator e do espaço cênico. Um espaço teatral completamente flexível e transformável de uma encenação para outra. Colocar o espectador numa situação inteiramente inédita. Levar às últimas consequências a relação entre ator e espectador. Incluindo os espectadores na arquitetura da ação. Vendo o público qualitativamente e não em quantidade, interessando mais a integração alcançada. O ato teatral requer uma considerável redução das distâncias, para que o ator possa agir diretamente sobre alguns indivíduos. Para que o encontro ocorra, é preciso que o espectador o deseje, ainda que inconscientemente.


“A VISITA DO PRESIDENCIÁVEL OU OS MORCEGOS ESTÃO COMENDO OS ABACATES MADUROS ”

 

A montagem é uma espécie de parábola sobre o momento político do país, o Ói Nóis aproveitava o fato do povo brasileiro estar em campanha pelas eleições diretas para montar ´A Visita do Presidenciável ou os Morcegos Estão Comendo os Abacates Maduros´. O espetáculo mistura farsa e drama para contar a história de um casal de velhos, moradores há vinte anos de uma as que, a cada dia, se deteriora. A dupla personifica a classe média conservadora,  que apoiou o golpe de 64 e, duas décadas depois, ao perder seus privilégios, saiu às ruas pedindo Diretas Já. A ação se passa num dia de temporal, quando o procurador vai cobrar o aluguel que os velhos não têm mais condições de pagar; casualmente, é o mesmo dia em que o futuro presidente da nação será apresentado aos inquilinos (ao povo). No meio desse enredo, aparecem outras tramas, como a tragédia de um casal sem perspectivas diante da iminência de um despejo (ele, desempregado, e ela, grávida, decidem pelo suicídio); o drama de Alice (uma garota nascida em 1º. de abril de 1964, que vive perturbada com seus conflitos íntimos); o lirismo de Adão e Eva (único momento de contato direto com a platéia, quando um casal nu vai em direção ao público para oferecer-lhe maçãs); a crueza de uma cena de tortura, paralela ao julgamento de um policial que se diz inocente. O espectador era mais um visitante que entrava na casa em ruínas para vê-la literalmente cair. No final, com a chegada do Presidenciável, uma mão gigante aparecia do teto para entregar a faixa presidencial, e o prédio vinha abaixo. O público era surpreendido por uma chuva de cacos, fluentes goteiras e muito pó. 


 


 
Autor: Luis Francisco Rebello
Fragmentos: Roberto Drumont
Direção, cenografia e figurino: criação coletiva
Iluminação: Júlio Zanotta
Sonoplastia: Jorge Gavillon
Música de cena: Banda Açúcar Branco e Banda Murruga
Filme: Marcia Lara
Confecção dos bonecos e painéis: Fábio Vale, Isabella Lacerda e Valdir Saches
Elenco: Arlete Cunha, Beatriz Britto, Eliana Quartiero, Gilmar Hermes, Horácio Borges, João Henrique Castilhos e Paulo Flores
Intérpretes em substituição: Andréa Barth e Moira Stein
Estreia: 20 de setembro de 1984
Local: Terreira da Tribo