TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 19]

“Se Não Tem Pão, Comam Bolo!” tem por referência a célebre frase da rainha da França, Maria Antonieta,quando no princípio da Revolução Francesa, pressionada em seu próprio palácio pelo povo que pedia pão, pateticamente perguntou por que não comiam brioches. Encenação popular, esta fábula política recorre ao fato histórico para falar de problemas cotidianos que afligem a maioria dos brasileiros: a fome, a opressão, os desmandos do poder e a corrupção dos políticos. Os personagens são saltimbancos contadores de histórias, que de uma forma satírica e divertida cantam para o povo, nas ruas, o que a sociedade burguesa procura esconder: a luta de classes. 
    “SE NÃO TEM PÃO, COMAM BOLO!” Roteiro e direção : criação coletiva Figurinos : Arlete Cunha Adereços : Zau Figueiredo Música : Rogério Lauda Elenco : Arlete Cunha, Kike Barbosa, Rogério Lauda e Sandra Possani Intérprete em substituição : Vera Parenza Estreia : 14 de fevereiro de 1993 (Espetáculo de rua) TERREIRA DA TRIBO EU APOIO! Você

TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS DE TRAJETÓRIA [PARTE 14]


 

Em “Ostal”, de 1987, criação coletiva a partir de um roteiro do grupo italiano Confrontação, apresentado como rito teatral, a Tribo procurou desvendar os processos esquizofrênicos que o cotidiano familiar gera nos indivíduos. Num ambiente restrito a 20 pessoas por noite e em caráter intimista, os espectadores-participantes vivenciavam os conflitos de uma mulher em sua cama de doente. Nenhuma palavra era pronunciada durante a encenação. A relação desta mulher com os demais personagens não aconteciam no plano da realidade concreta, mas apenas em sua mente. O público era envolvido por acessos, alucinações, sofrimento, onde a  paciente vacilava entre o desejo de afeto e a frustração. A ligação entre as cenas de “Ostal” rompiam com a narrativa lógica e dependiam de um tipo de associação próxima da loucura ou do sonho. A performance recorria a estímulos sensoriais diversos, e as personagens  eram antes “personas” buscando uma dilatação da presença e do gesto desencadeando novas conexões e novos sentidos para o espectador. Refletia alegoricamente o processo de adaptação social a que o ser humano é submetido desde a infância. “Fim de Partida” (1986) e “Ostal” (1987) receberam os principais  prêmios da crítica.


OSTAL RITO TEATRAL


Em agosto de 1987, estreia Ostal, baseado no roteiro de Aldo Rostagno para o grupo italiano Cfr. Na compra do ingresso, o espectador recebe um número e é orientado a aguardar sua chamada num local semelhante a uma sala de espera de hospital. Por ordem numérica, os vinte espectadores são chamados um a um e conduzidos pelo pulso, por um ator com luvas de borracha, por um corredor estreito e escuro, revestido por tecido. No caminho, almofadas recheadas com tampinhas, esponjas, sacos de serragem, formavam desníveis a serem transpostos. Do teto pendiam fios de tule emaranhados, que se assemelhavam a teias de aranha. Ao final do corredor, o guia cobria a boca e o nariz do visitante com máscara cirúrgica e o introduzia num quarto escuro, com cheiro de éter e uma cama gigante que ocupava quase toda a sala. No centro da cama, de camisola branca, uma mulher deitada. Sentada à sua direita, uma mulher de preto que olhava fixamente cada um. Quando o último espectador entrava, o médico trancava a porta com um cadeado. Durante 75 minutos, o público assistia ao que se passava na mente da mulher, em processo de destruição e abandono. Preparado para atingir o inconsciente do espectador, Ostal não tratava a esquizofrenia como doença clínica mas como consequência inevitável do processo de adaptação social a que o indivíduo é submetido desde a infância. Havia uma salinha preparada para atender aos eventuais desmaios dos espectadores. Na sala, um alçapão se abria do teto para que descesse um casal nu que simulava um ato sexual; dois braços saíam da parede parecendo querer estrangular a paciente; depois de um blecaute ouvia-se do lado de fora do quarto uma violenta briga de casal; a mulher de preto imobilizava a mulher de branco e retirava de suas entranhas uma longa fita de gaze com que moldava uma boneca; a mulher de preto oferecia o seio à mulher de branco; a mulher de branco tocava cada um dos espectadores e em seguida se debatia contra as paredes. Não havia texto. No desfecho, através de uma janelinha, o público via uma longa mesa de jantar. Sobre as louças, a mulher de preto, despida, rolava. A mulher de branco contemplava uma foto em que se via sorrindo. Despia-se diante do público. Depois de um blecaute, a sala era iluminada e há apenas um varal com os figurinos estendidos. A montagem ficou cinco anos em cartaz e recebeu prêmios como melhor espetáculo, melhor cenário e melhor produção de 1987. Fez uma temporada de dois meses na danceteria Estação Madame Satã, em São Paulo. O crítico Alberto Guzik, do Jornal da Tarde, São Paulo, publica em 20 de outubro de 1988: “Em 17 anos de crítica, nunca passei por uma experiência tão asfixiante quanto Ostal”; “O espectador tem a possibilidade de tornar-se testemunha de um projeto que leva (acho que pela primeira vez no Brasil) o teatro de Antonin Artaud às últimas consequências”.


Roteiro: Aldo Rostagno – Grupo Cfr (Itália)
Direção, cenografia e figurino: criação coletiva
Iluminação e sonoplastia: Adriano Marinho e Paulo Flores 
Elenco: Arlete Cunha, Maria Rosa, Renan Costa e Sérgio Etchichury
Intérpretes em substituição: Adriano Marinho, Beatriz Britto, Clélio Cardoso, José Carlos Carvalho, Kike Barbosa e Sandra Possani
Estreia: agosto de 1987
Local: Terreira da Tribo