TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS História 32

Aos Que Virão Depois de Nós Kassandra in Proces   “Aos Que Virão depois de Nós – Kassandra in Process” é um espetáculo de criação coletiva da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, inspirado livremente  na novela homônima de Christa Wolf. Dando continuidade ao caminho trilhado pelo grupo em trabalhar com mitos que resultaram  nos espetáculos ‘Antígona Ritos de Paixão e Morte’ e ‘Missa para Atores e Público sobre a Paixão e Nascimento do Doutor Fausto de Acordo com o Espírito de Nosso Tempo’. KASSANDRA possibilita ao Ói Nóis Aqui Traveiz colocar em cena a sua proposta de Teatro de Vivência, onde o espectador está integrado ao espaço vivenciando as ações cênicas em diferentes ambientes. Realizando um teatro voltado para o sensível  atingindo o espectador-participante não somente em sua esfera racional, mas em sua afetividade. Para fazer explodir diante de nós próprios os reflexos daquilo que vislumbrava Artaud, um teatro onde a vida se tornasse autêntica, onde fosse possível se chegar

TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 44 ANOS [PARTE 26]


 

“A Morte e a Donzela” é um trabalho de pesquisa e criação coletiva baseado no texto do argentino/chileno Ariel Dorfman, que tem como temática a violência institucionalizada pelas ditaduras militares que se utilizaram da tortura como forma de domínio/coerção, marcando profundamente a consciência dos povos da América Latina e, consequentemente, a sua História. A  encenação dá continuidade a investigação de um Teatro de Vivência desenvolvida pelo Ói Nóis Aqui Traveiz. Trata-se de resgatar o caráter ritual do teatro como encontro/confrontação com o Outro, como prática de transformação, de celebração da vida, à procura de uma unidade perdida. O teatro visto aqui, como ação capaz de instaurar uma outra ordem de realidade, através da ampliação dos estados perceptivos, do rompimento dos limites e referências habituais, espaço de metamorfose e criação. Que conduza a um renascimento, através de uma experiência da revelação. Uma tentativa de tornar visível o invisível, por uma via de apreensão direta, espontânea, onde não há distinção absoluta entre sujeito e objeto, e sim uma sintonia profunda que se estabelece entre o homem e o cosmos. Experiência extática, própria do teatro ritual, das origens do fenômeno teatral, forma singular de percepção da realidade. E que tal, como outras formas de comunicação também revela uma natureza simbólica. O Ói Nóis Aqui Traveiz entende que valorizar a expressão simbólica (no sentido junguiano), em grande parte resultado de um processo que se dá a nível inconsciente, é valorizar a especificidade da linguagem teatral, na qual a palavra não é o centro da ação, mas um de seus elementos, lado a lado com a linguagem das formas sensórias. Através da montagem da “A Morte e a Donzela” a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz  investiga a natureza da atuação teatral e da relação ator/espectador, explorando novas formas de expressão, baseadas na improvisação e na visão do ator como atuador e co-criador da encenação. A cenografia trabalha com a idéia de ambiente cênico com o espectador integrado ao espaço.


O texto coloca em cena três personagens cuja ligação é a repressão política e a tortura: marido, mulher/torturada e suposto torturador. Gerardo Escobar, advogado, sofre um acidente de menor importância em uma rodovia e é resgatado por um homem, Doutor Roberto Miranda, que amavelmente o leva  de volta para casa; mas sua mulher, Paulina Salas, acredita reconhecer no bom samaritano o torturador que a violentou quando, há mais de uma década, a prenderam por atividades de oposição ao regime ditatorial vigente. Ela seqüestra o presumido culpado e decide julgá-lo por sua conta. Gerardo naquele momento encabeça uma comissão que tem por missão investigar os crimes da ditadura que tenham terminado em morte ou na sua presunção. O relatório final, todavia, não identificará os culpados e nem os julgará. A partir daí se estabelece o domínio da mulher sobre os outros personagens; o seu objetivo é a reparação pelos horrores sofridos durante a ditadura militar. A ação transcorre no momento que a nação está transitando para democracia. Colocando os três personagens num momento tão conflitante que lhes outorga transcendência, posto que suas ações ocorrem num país onde muitos se perguntavam como enfrentar  o dano oculto que se lhes tinha inflingido, enquanto outros temiam que seus crimes fossem revelados. A encenação busca mostrar a angústia e a inquietação vividas por brasileiros, chilenos, e por todos latino-americanos que conviveram nesta última década , com o fim dos regimes militares: como podem repressores e reprimidos coabitar uma mesma terra, compartilhar uma mesma mesa? Como curar um país que foi traumatizado pelo medo, se este medo ainda continua fazendo seu trabalho silencioso? E como chegar à verdade, se nos acostumamos a mentir? Podemos manter o passado vivo sem nos convertermos em seu prisioneiro? E podemos esquecer este passado sem nos arriscarmos à sua repetição futura? É legítimo sacrificar a verdade para assegurar a paz? E quais as conseqüências para a sociedade se as vozes deste passado são suprimidas? Será possível um povo buscar justiça e igualdade se a ameaça  de uma intervenção militar está sempre à sua volta? E em que sentido somos todos em parte responsáveis pelo sofrimento alheio, pelos grandes erros que conduziram a um enfrentamento tão terrível e quiçá ao dilema mais terrível de todos: de que maneira confrontar essas perguntas sem destruir o consenso nacional, que é o fundamento de toda a estabilidade democrática.


     “A Morte e a Donzela”,  tragédia contemporânea, não explora somente os temas tortura, justiça, medos e modos de curar uma sociedade, coloca também uma série de dúvidas: como é possível dizer a verdade se a máscara que vestimos acaba sendo idêntica à nossa cara? Como saber se a memória nos salva ou nos engana? Como conservar a inocência num mundo maligno e corrupto? Podemos perdoar aqueles que nos causaram um dano irreparável?


“A MORTE E A DONZELA”

Autor: Ariel Dorfman
Roteiro, direção, cenografia, figurino e adereços: criação coletiva
Música: Rogério Lauda
Relato do processo de pesquisa: Beatriz Britto
Assistência de cena: Graziela Gallicchio e Sandro Marques
Criação das instalações cênicas: Gustavo Nakle, Isabella Lacerda, Paulo Ferreira, Pedro Rufino e Tânia Farias
Execução das instalações: Alexandre Garcia, Carla Moura, Isabella Lacerda, Paulo Flores, Pedro Rufino, Rogério Lauda, Rosane Cardoso e Tânia Farias
Mestre-de-obras: Antônio Motta
Iluminação: Julio Saraiva e Sandro Marques
Sonoplastia: Alexandre Garcia e Perseu Pereira
Contra-regra: Graziela Gallicchio
Elenco: Julio Saraiva, Paulo Flores e Tânia Farias
Estreia: 1°  de agosto de 1997
Local: Terreira da Tribo