A arte de transformar a realidade em poesia | Sebastião Milaré

No barco, sobre as Águas do Guaíba, afastando da Ilha do presídio e vendo as luzes de Porto Alegre às margens, tive a sensação de ver o passo derradeiro de um ritual sagrado. O que vivenciei na Ilha do presídio, ou Ilha das Pedras Brancas, tinha natureza própria ao ato litúrgico, mas era ato teatral. Teatro na acepção da arte que atualiza símbolos no Imaginário do espectador. E liturgia.

Não há contradição, pois no ato litúrgico o oficiante atualiza símbolos no imaginário dos fiéis. E foi isso que vivenciei naquela noite, caminhando pelas ribanceiras escuras, cheias de buracos e pedras, atrás de imagens que conduziam a inesperados ambientes, como as ruínas do antigo presídio ou a uma espécie de jardim de estátuas. Atores e atrizes surgiam da vegetação ou das trevas como gnomos. Ou sacerdotes de mítica seita, em celebração.




E o ritual, animado por cenas evocativas, assumidamente poéticas em atrito com as outras mais definidas e realistas, só terminaria no momento em que o barco apo…

Associação


A Associação dos Amigos da Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz tem, desde a sua fundação em 1992, o objetivo de agregar pessoas, geralmente oficinandos e público, em torno da proposta política e estética da Tribo de Atuadores, estando sempre à frente na defesa do território cultural Terreira da Tribo e apontando para a preservação e difusão da memória do Ói Nóis.

A sua primeira ação foi encabeçando a luta pela preservação do espaço de criação da Tribo de Atuadores, solicitando ao poder público que reconhecesse a Terreira da Tribo (em seu antigo endereço na Rua José do Patrocínio, Bairro Cidade Baixa) como patrimônio da cidade, garantindo a continuidade do trabalho do grupo. Participou inúmeras vezes da Tribuna Popular na Câmara dos Vereadores, de reuniões com os representantes da Prefeitura (inclusive com o Prefeito da cidade) e dos demais canais possíveis para sensibilizar o poder público de que, devido ao trabalho que havia sido construído naquele espaço, este deveria ser oficializado como foco de cultura, mesmo que, futuramente, o Ói Nóis não estivesse mais lá.

Com a campanha que ficou conhecida por “Defendo”, a Associação dos Amigos da Terreira da Tribo tomou as ruas de Porto Alegre com adesivos, camisetas, panfletos e informativos. Passeatas, abaixo-assinados, em todas as instâncias representativas da esfera municipal (como o Orçamento Participativo, as Conferências de Cultura etc.), foram mobilizadas centenas de pessoas que manifestaram o desejo de preservação daquele espaço como ícone da memória da cidade, demonstrando que transcendia a dimensão artística, com um trabalho ideológico que contribuiu de forma inenarrável para a cultura gaúcha.

O “Defendo Território Cultural Terreira da Tribo – Ói Nóis Aqui Também” se agigantou quando, no final de 1996, em um ato-show no Largo Glênio Peres, reuniu cerca de mil pessoas e contou com a presença de músicos, políticos e líderes sindicais. Nesse mesmo dia vários grupos de teatro de rua apresentaram-se à tarde na Esquina Democrática em solidariedade à causa. Mesmo com toda a mobilização popular, dezessete mil assinaturas, todas as indicações das Conferências de Cultura, o Orçamento Participativo elegendo como prioridade na região centro e na temática de cultura, mesmo com todo o apoio da população da cidade de Porto Alegre, a Terreira da Tribo, no final de 1999, teve que deixar a Cidade Baixa. Em 2000, com suas raízes fincadas no Navegantes, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz com o apoio da Associação dos Amigos da Terreira da Tribo, abre as inscrições para a primeira turma da Oficina para Formação de Atores da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo. A partir de então, a Terreira da Tribo - Centro de Experimentação e Pesquisa Cênica também ganha o título de Escola de Teatro Popular, oferecendo gratuitamente à comunidade de Porto Alegre, além da Oficina para Formação de Atores, a Oficina de Teatro de Rua – Arte e Política e a Oficina de Teatro Livre.

Em março de 2008, ao completar trinta anos de existência, em pleno desenvolvimento do seu trabalho, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz conquistou junto ao poder público municipal o terreno na Rua João Alfredo nº 709, bairro Cidade Baixa, cedido por comodato para construção de sua sede definitiva. O Projeto encabeçado pela Associação prevê, além do espaço para pesquisa teatral que é própria da Tribo, salas de aula, biblioteca e Centro de Referência do Teatro Popular, sala de exposição, sala de projeção e local para o Acervo da Terreira da Tribo. Este sonho começa a se concretizar quando a Prefeitura de Porto Alegre garante junto ao Ministério da Cultura (em convênio assinado em dezembro de 2010), por meio de emendas de parlamentares gaúchos, a verba orçamentária para a construção do Centro Cultural Terreira da Tribo.


Projeto Arquitetônico - Michele Raimann 

A Associação de Amigos da Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz visa contribuir para a realização e multiplicação dos projetos da Tribo.