sábado, 30 de julho de 2016

Ói Nóis Aqui Traveiz volta a Belo Horizonte e São Paulo, com programação cultural aberta e gratuita voltada para espaços públicos!

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz realiza de 13 a 19 de agosto o projeto “Teatro e Memória nos Espaços Públicos” nas cidades de Belo Horizonte/MG e São Paulo/SP, com apresentações do espetáculo de teatro de rua “O Amargo Santo da Purificação” e da performance “Onde? Ação Nº 2”.
Toda a programação tem entrada franca. O projeto foi contemplado pelo Edital Circuito Funarte Cena Pública e compõe a programação da Mostra de Teatro e Direitos Humanos de Belo Horizonte.

Confira a programação:

Belo Horizonte

13 e 14/08, sábado e domingo, 14h 
Espetáculo de Teatro de Rua
“O Amargo Santo da Purificação”
Parque Municipal, Centro, Belo Horizonte 

15/08, segunda, 12h 
Performance
“Onde? Ação Nº 2”
Praça da Rodoviária, Centro, Belo Horizonte

15/08, segunda, 20h
Desmontagem "Evocando os Mortos Poéticas da Experiência"
Zap 18

São Paulo

17 e 18/08, quarta e quinta, 15h 
Espetáculo de Teatro de Rua
“O Amargo Santo da Purificação”
Praça da República, Centro, São Paulo

19/08, sexta, 12h 
Performance
“Onde? Ação Nº 2”
Praça da República, Centro, São Paulo


Teatro e Memória nos Espaços Públicos

O Projeto Teatro e Memória nos Espaços Públicos traz o debate e a reflexão sobre nosso passado recente – os anos de Ditadura Militar no Brasil – a partir do teatro como um ato de resistência. Por meio da realização de apresentações de teatro de rua e performance, promoverá o debate político e estético, visando à formação de uma consciência crítica e sócio-política, uma exigência para a ideia de “exercício da cidadania”.
O projeto prevê a realização, pelo grupo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de apresentações do espetáculo de Teatro de Rua “O Amargo Santo da Purificação” e da performance “Onde? Ação nº 2” nas cidades de Belo Horizonte/MG e São Paulo/SP no contexto dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2016. As apresentações em Belo Horizonte também compõem a Programação da Mostra de Teatro e Direitos Humanos de Belo Horizonte. Todas as atividades serão gratuitas e abertas ao público em geral.

TEATRO DE RUA – O AMARGO SANTO DA PURIFICAÇÃO

O Amargo Santo da Purificação é uma visão alegórica e barroca da vida, paixão e morte do revolucionário Carlos Marighella. Marighella viveu e morreu durante períodos críticos da história contemporânea do Brasil, sendo protagonista na luta contra as ditaduras do Estado Novo e do Regime Militar. A dramaturgia elaborada pelo Ói Nóis Aqui Traveiz parte dos poemas escritos por Carlos Marighella que transformados em canções são o fio condutor da narrativa. Utilizando a plasticidade das máscaras, de elementos da cultura afro-brasileira e figurinos com fortes signos, a encenação cria uma fusão do rituacom o teatro dança. Através de uma estética “glauberiana”, o Ói Nóis Aqui Traveiz traz para as ruas da cidade uma abordagem épica das aspirações de liberdade e justiça do povo brasileiro.

Foto: Cláudio Etges

PERFORMANCE – ONDE? AÇÃO Nº 2

A performance Onde? Ação nº2 de forma poética provoca reflexões sobre o nosso passado recente e as feridas ainda abertas pela ditadura militar. A ação performática se soma ao movimento de milhares de brasileiros que exigem que o Governo Federal proceda a investigação sobre o paradeiro das vítimas desaparecidas durante o regime militar, identifique e entregue os restos mortais aos seus familiares e aplique efetivamente as punições aos responsáveis. A proposta deste trabalho é trazer a reflexão sobre o que foram aqueles anos da Ditadura Militar no Brasil, a partir do teatro como um ato de resistência. A performance visa atualizar o debate sobre as implicações e consequências deste episódio para a história nacional.

Foto: Pedro Rosauro


DESMONTAGEM: EVOCANDO OS MORTOS – POÉTICAS DA EXPERIÊNCIA

A desmontagem Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência refaz o caminho do ator na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo. Desvelando os processos de criação de diferentes personagens, criadas entre 1999 e 2011, a atuadora Tânia Farias deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação. Através da ativação da memória corporal, a atriz faz surgir e desaparecer as personagens, realizando uma espécie de ritual de evocação de seus mortos para compreensão dos desafios de fazer teatro nos dias de hoje.

Foto: Rafael Saes


Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
38 Anos de Utopia, Paixão e Resistência

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz surgiu em 1978 com uma proposta de renovação radical da linguagem cênica. Durante esses anos criou uma estética pessoal, fundada na pesquisa dramatúrgica, musical, plástica, no estudo da história e da cultura, na experimentação dos recursos teatrais a partir do trabalho autoral do ator. Não se limitando à sala de espetáculos, desenvolveu uma linguagem própria de teatro de rua, além de trabalhos artístico-pedagógicos junto à comunidade local. Abriu um novo espaço para a pesquisa cênica - a Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que funciona como Escola de Teatro Popular, oferecendo diversas oficinas abertas e gratuitas para a população.

A organização da Tribo é baseada no trabalho coletivo, tanto na produção das atividades teatrais, como na manutenção do espaço. O Ói Nóis Aqui Traveiz segue uma evolução contínua e constitui um processo aberto para novos participantes. Para a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz o teatro é instrumento de desvelamento e análise da realidade; a sua função é social: contribuir para o conhecimento dos homens e ao aprimoramento da sua condição. 
Num mundo marcado pela exclusão, marginalização, pela homogeneização, pelo pensamento único, enfim, pela desumanização e pela barbárie, cada vez mais é vital e necessário denunciar a injustiça, as vendas de opinião, o autoritarismo, a mediocridade e a falta de memória. Esta é a defesa que o Ói Nóis faz o teatro como resistência e manutenção de valores fundamentais que diferenciam uns de outros: a solidariedade, a honestidade pessoal e a liberdade. 
Fazendo um teatro a serviço da arte e da política, que não se enquadra nos padrões da ética e da estética de mercado. O teatro como um modo de vida e veículo de idéias: um teatro que não comenta a vida, mas participa dela!

sexta-feira, 22 de julho de 2016

MEDEIA VOZES - O TEATRO RITUAL DA TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ

A história de Medeia, filha do rei da Cólquida, faz parte da lenda dos Argonautas. Medeia, versada em feitiçaria, apaixona-se por Jasão, o líder dos Argonautas, e o ajuda a obter o velo de ouro contra a vontade do rei. Na fuga, ela mata o irmão Apsirto e joga o cadáver no mar para afastar os perseguidores. Os fugitivos ganham asilo em Corinto, onde Jasão se separa de Medeia para casar com Glauce, filha do rei de Corinto. Medeia executa sua vingança matando Glauce e seu pai, assim como seus próprios filhos. Eis a imagem que paira no imaginário ocidental, difundida especialmente pela tragédia de Eurípedes. Mas não é essa a personagem que encontramos em Medeia Vozes. Na encenação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz o mito de Medeia é reinventado. Medeia livra-se da imagem de infanticida e aparece representada em outros termos: trata-se da mulher que ousou desafiar a política estabelecida, que é punida por seu senso de independência e liberdade, banida da cidade por saber de crimes que não devem ser revelados. A base para a criação de Medeia Vozes é o romance homônimo da alemã Christa Wolf (1929-2011). A partir do próprio nome Medeia que significa “aquela que dá bons conselhos” Christa Wolf se questionou: “Eu não podia acreditar nisso. Uma curandeira – isso ela deve ter sido nos estratos mais antigos do mito, que decorrem de tempos em que as crianças eram a propriedade mais valiosa de uma tribo e quando as mães eram altamente estimadas precisamente porque garantiam a continuidade da tribo – deveria matar os próprios filhos?” Em suas investigações a escritora bebeu em outros estudiosos – da arqueologia, mitologia e sociologia. Retornou às bases do matriarcado primitivo e da fundação das sociedades. Rejeitando a efabulação de Eurípedes e a imagem de mãe infanticida, Wolf tomou uma versão antiga e desconhecida do mito para afirmar Medeia como uma mulher vítima dos valores e das necessidades do patriarcado. A autora apresenta Medeia como uma mulher que está na fronteira entre dois sistemas de valor, corporizados respectivamente pela sua terra natal, a Cólquida, e pela terra para a qual foge, Corinto. Ambas as sociedades apresentam na sua história um sacrifício humano fundamental, que serviu para a estabilização do poder patriarcal. Através das diferentes vozes, os principais personagens examinam seus motivos e suas opções no desenvolvimento do jogo de poder entre Acamante, conselheiro do Rei de Corinto, e Medeia. Através de uma emocionante e complexa trama política, Medeia Vozes mostra o amor e a determinação de uma mulher para preservar sua independência, mesmo quando seu conhecimento a coloca cada vez mais em risco. Medeia é abandonada pelo marido e as forças que estão no poder manifestam-se contra ela, chegando mesmo à perseguição e ao banimento.

A encenação do Ói Nóis Aqui Traveiz mantém certa independência entre as vozes, permitindo que apareçam no processo criativo propostas estéticas distintas que colaborem com a visão, o ponto de vista de cada personagem título da voz. Medeia aparece em cada uma das vozes vista por um filtro, o que possibilita a construção de distintas concepções para a personagem aplicada a cada voz. Com isso o Ói Nóis Aqui Traveiz experimenta a identificação com vários grupos étnicos. O grupo de colcos que deixa a Cólquida com Medeia surge na obra como os expatriados, refugiados. Eles são identificados com grupos e minorias da história contemporânea que foram obrigados a deixar a sua terra/pátria como única forma de sobrevivência, dando ao espetáculo uma característica polifônica e multicultural. Isso mantém o choque cultural sempre presente em toda a obra, reforçando o discurso da alteridade e mostrando a intolerância a ele nas culturas ditas civilizadas e hegemônicas. O Ói Nóis também dá voz a “Medeias Contemporâneas”, mulheres reais de ação que deixaram relatos de violência e intolerância: como as ativistas políticas alemãs Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhoff, a líder grevista boliviana Domitila Chungara, a indiana Phoolan Devi, casada aos 11 anos, diversas vezes violentada e espancada, que conseguiu ser eleita para o parlamento do seu país, e a modelo somali Waris Dirie, que denunciou a mutilação genital e tornou-se embaixadora da ONU. Na encenação as vozes dos diversos personagens implicados na história proporcionam uma rica variedade de pontos de vista, referências pessoais e culturais que facilitam uma visão mais global e objetiva da situação. Graças à multiplicidade de pontos de vista, o espectador poderá seguir os interesses reais que se escondem atrás de todos os comportamentos. A configuração das diferentes vozes acaba demonstrando a inocência de Medeia e com isso, o patológico desenvolvimento das relações sociais na civilização ocidental. Medeia é uma marginalizada, porque não corresponde à imagem feminina que a sociedade masculina considera apropriada. 

Medeia Vozes se insere num dos principais eixos do trabalho de criação cênica do Ói Nóis Aqui Traveiz: projeto Raízes do Teatro, que estuda as origens ritualísticas do teatro. A principal característica dessa investigação é o tratamento especial dado aos mitos. A releitura de diferentes versões dos mitos é aliada a uma pesquisa cênica para atualizá-los. Herdeiros da busca artaudiana de construir um teatro que recupere a sua identidade como cena concreta – onde sejam abolidos os obstáculos entre o vivido e o representado, e atores e espectadores comunguem de um ritual embasado no ideal de liberdade – o Ói Nóis escolheu como motor da sua pesquisa alguns dos mais conhecidos mitos da nossa cultura – Antígona, Fausto, Kassandra e, agora, Medeia. As diversas premiações de Medeia Vozes reafirmam a importância estética e política do Teatro Ritual da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.

Paulo Flores

Texto publicado no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, em 16/07/2016.



terça-feira, 12 de julho de 2016

Terreira da Tribo completa 32 anos e o público de Medeia Vozes recebe um presente neste final de semana!

O espaço Terreira da Tribo - Centro de Experimentação e Pesquisa Cênica do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, está completando 32 anos de existência.
"Este local que abriga os nossos sonhos e acolhe os nossos corpos é um terreno fértil para semear a arte, o afeto e a cidadania". 

A Terreira da Tribo que desde a sua origem em 1984 na cidade baixa sempre foi ponto de aglutinação de pessoas e profissionais dos mais diversos segmentos - fomentando a criação artística em diferentes áreas - desde o ano 2000 é também Escola de Teatro Popular e ocupa um lugar de destaque entre os espaços culturais do Estado, sendo igualmente apontada como uma referência de âmbito nacional. 

E para celebrar mais esta data, neste final de semana quem for assistir ao espetáculo Medeia Vozes, que realiza suas últimas apresentações neste ano em Porto Alegre, irá receber o último lançamento do Selo Ói Nóis na Memória, “Um Cavalo Louco no Sul do Brasil”. O livro com autoria de Paulo Flores registra a trajetória de 38 anos da Tribo em uma edição bilíngue (português/inglês).



Ingressos à venda na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186) nos dias do espetáculo e no Meme Santo de Casa (Rua Lopo Gonçalves, 176 - Cidade Baixa - das 15h às 20h, de terça a domingo). 
Ingressos R$60,00 inteira e R$30,00 meia (estudante, idoso e classe artística).

Medeia Vozes

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz toma uma versão antiga e desconhecida do mito, trazendo uma mulher que não cometeu nenhum dos crimes de que Eurípides a acusa. O mito é questionado e reelaborado de maneira original, para analisar o fundamento das ordens de poder e como estas se mantêm ou se destroem. Medeia é uma mulher que enxerga seu tempo e sua sociedade como são. As forças que estão no poder manifestam-se contra ela, chegando mesmo à perseguição e banimento, ela é um bode expiatório numa sociedade de vítimas. A voz de Medeia somam-se vozes de mulheres contemporâneas como as revolucionárias alemãs Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhof, a somali Waris Diriiye, a indiana Phoolan Devi e a boliviana Domitila Chungara, que enfrentaram de diferentes maneiras a sociedade patriarcal em várias partes do mundo.

Medeia Vozes ganhou o Prêmio Açorianos em 8 categorias (melhor espetáculo, atriz para Tânia Farias, cenografia, iluminação, trilha para Johann Alex de Souza, dramaturgia, produção e direção), além do troféu do Júri Popular. E em 2014 ganhou mais um prêmio açorianos na categoria de melhor espetáculo, concedido pela EEPA (Escola de Espectadores de Porto Alegre).

Foto: Pedro Isaias Lucas

Serviço: 
Medeia Vozes - Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
Local: Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186)
Dias: sextas e sábados do mês de julho(15, 16, 22 e 23/07)
Horário: 19h30
Ingressos: R$60,00 inteira e R$30,00 meia (estudante, idoso e classe artística).
Classificação etária: 16 anos
Duração: 210 min
Ficha Técnica: Criação, Direção, Dramaturgia, cenografia, figurinos criados coletivamente pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
Música: Johann Alex de Souza
Preparação Vocal: Leonor Melo

Participam da encenação os atuadores: Tânia Farias, Paulo Flores, Marta Haas, Arlete Cunha, Eugênio Barbosa, Paula Carvalho, Eduardo Arruda, Clélio Cardoso, Roberto Corbo, Letícia Virtuoso, Lucas Gheller, Mayura Matos, Keter Velho, Júlio Kaczam, Daniel Steil, Luana Rocha, Márcio Lima, Alex dos Santos, Pascal Berten e Thales Rangel.