quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O surgimento de um espetáculo de vanguarda em Porto Alegre!

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Nesta quinta feira (7.12) compartilhamos uma crítica de Décio Presser (Jornal Folha da Tarde - Panorama) sobre as primeiras encenações do Grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, datada de abril de 1978.

“A Divina Proporção” e “A Felicidade não Esperneia”


O público acostumado às montagens digestivas e tradicionais, certamente ficará chocado com as proposições do grupo “Ói Nóis Aqui Traveiz”, no espetáculo que reúne duas peças curtas do autor gaúcho Júlio Zanotta Vieira. Sem sombra de dúvida, trata-se de um espetáculo de vanguarda, como poucas vezes se viu em Porto Alegre. Os textos praticamente foram sufocados pela parafernália de efeitos, onde a proposta é o anarquismo total. Isto seria plenamente aceitável, se não houvesse uma agressão gratuita ao público, que se persistir acabará por afastá-lo desta experiência inédita entre nós.
Na primeira peça, “Divina Proporção”, quatro personagens surgem do lixo que compõe o espaço cênico, se desgastando no “boom” imobiliário, numa crítica cuja superficialidade é compensada pela criatividade da encenação. O mesmo acontece em maior escala com “A Felicidade não Esperneia, Patati, Patatá”, onde o autor através de uma linguagem alegórica faz uma irônica parábola sobre a “instituição médica”. Tudo isso acontece com atores, utilizando vozes distorcidas, retirando os acessórios do lixo, numa mistura de “gran quignol”, que o público acompanha estupefato e às vezes reticente, separado apenas por uma cerca de arame farpado que isola o espaço cênico.
Não fossem as agressões, tentando impedir o público de ter suas próprias reações, o espetáculo seria um exercício fascinante de criatividade, comparável ao teatro de vanguarda feito nos grandes centros. A loucura é tão grande e desenfreada que certas pessoas retiraram-se antes do término. Mas as intenções do grupo estão bem definidas, num manifesto que é lido durante o intervalo, pedindo a retirada de “todos os países imperialistas estrangeiros dentro de 24 horas, através de suas multinacionais, etc”. Enfim, um espetáculo divertido para quem for preparado para curtir as mais diversas reações dos espectadores.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

SELECIONADOS PARA OFICINA DE TEATRO RITUAL


1. Arthur Loureiro Pereira de Souza
2. Claudia Severo
3.Jonathan Oliveira Ferreira
4. Liana Alice
5. Lucas Gheller Rocha
6. Maíris Fernandes de Souza
7. Marcio Leandro de Lima Vicente
8. Mariana Maciel Stedele
9. Rafael Torres Fernandes
10. Raphael Costa Santos
11. Raquel Amsberg de Almeida
12. Rochelle Luiza da Silveira
13. Rogério Bertoldo Trindade Silva
14. Suelem Lopes de Freitas
15. Tiana Godinho de Azevedo

O primeiro encontro da Oficina de Teatro Ritual será no dia 5 de dezembro de 2017 (próxima terça-feira), às 9 horas na Terreira da Tribo (Rua Santos Dumont, 1186).
OBS: Levar roupa confortável para trabalho físico.


"Como uma bofetada"

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Dando segmento à nossa retrospectiva de críticas, textos e artigos que rememoram a trajetória de 40 anos da Tribo, nesta quinta feira compartilhamos um texto publicado no jornal Zero Hora, datado de novembro de 1997, há exatos 20 anos. 

"Como uma bofetada"
Jornal Zero Hora em 23 de novembro de 1997
Iria Pedrazzi

Primeiro vinham os grunhidos, depois aqueles corpos se contorcendo emergiam em meio à sujeira sintética espalhada pelo palco. Coberto com panos que compunham roupas maltrapilhas, os atores ousavam deixar à mostra, vez por outra, seu órgão sexual totalmente desinibido. A platéia toma um susto. Enche o peito. Ergue a cabeça. Coloca os sentidos em alerta e prepara-se para o ato. Reage como se estivesse prestes a ser estuprada em sua virgindade. Então vêm as palavras. O texto rude, contestatório, duro contra os valores burgueses, surge em vozes distorcidas. Vem em ritmo tão anárquico que tem o efeito de uma bofetada. De qualquer forma, a audácia da proposta deixa pouco tempo para refletir sobre o discurso verbal. A agressividade da forma dá uma força visceral ao texto. Paralisa o raciocínio lógico da platéia e obriga o instinto a reagir. O clímax ainda nem chegou e algumas pessoas indignadas deixam o teatro. A maioria fica, mas não sem esboçar reações. É um ensaio geral de movimentos. O público se remexe nas cadeiras do teatro, muitas faces exibem um ar de reprovação. Ós! Ecoam surdos como gemidos trancados. O ritual prossegue tenso. Olhares estarrecidos, temerosos, na platéia se misturam aos que, cheios de brilho, aplaudem ou até se deliciam com tudo aquilo. Esses, raros, é bem verdade. Políticos engravatados e intelectuais gaúchos misturam-se a protótipos do movimento hippie, com suas batas indianas combinadas com fitas nos cabelos. Há ainda na platéia uma legião de estudantes politizados, estudiosos de Marx e de Engels, acostumada a correr da polícia em passeatas no centro da cidade. Estarrecidos, todos participam da apresentação do novo grupo de teatro da Capital. Os atores invadem a platéia com seus grunhidos e seu texto arrojado, para sentar no colo de um espectador, abraçar outro e experimentar uma interação com todos. Há corre-corre. Gritos. Uns abafados, outros descaradamente apavorados. A maioria do público corre e se concentra em grupos. Público que, instantes antes, fora alvo dos respingos de leite de uma cena que se desenrolara no palco. Enquanto os atores encontram raros espectadores mais corajosos para interagir diretamente, a maior parte esgueira-se pelas laterais do auditório da Assembléia Legislativa do Estado. Quando o ator faz menção de ir para um lado, todos vão para o outro. Ninguém fica imune. De repente, tudo parece voltar ao seu lugar. Com os atores novamente no palco, contingentes da platéia, mesmo desconfiados, retomam suas cadeiras. Não demora muito para pedaços de carne crua, escorrendo sangue, começarem a voar pelos ares da quase imaculada sala do Legislativo estadual. Caem no colo dos menos avisados.
Definitivamente o teatro gaúcho havia inaugurado uma fase radical, típica de grupos de vanguarda norte-americanos como o Living Theatre ou o Bread and Puppet.

Naqueles meados de 1978, quando transcorria o 2º Encontro Gaúcho de Teatro, o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz surpreendeu com as encenações das peças A Felicidade Não Esperneia, Patati, Patatá e A Divina Proporção, de Júlio Zanotta Vieira, com direção de Paulo Flores. Levou a polêmica para a Assembléia Legislativa, reduto de resistência ao regime militar, onde se reuniam alguns dos mais atuantes intelectuais da época. O Ói Nóis ousou. Chocou como seu primeiro trabalho.

Quem viu, ouviu, sentiu, correu, temeu, gostou, refletiu, jamais esqueceu. Como se fora uma bofetada.

A Divina Proporção e A Felicidade não esperneia,
Patati, Patatá [1978] - Arquivo da Tribo


domingo, 26 de novembro de 2017

A Desmontagem “Evocando os Mortos Poéticas da Experiência” vai girar pelo Sul!!!

A circulação de Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência pelo Rio Grande do Sul terá início nos dias 14, 15 e 16 de dezembro no Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo em  Morro Reuter.

Nos dias 14, 15 e 16 de dezembro o Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo receberá o projeto Desmontagem “Evocando os Mortos Poéticas da Experiência”, que prevê a apresentação da Desmontagem da atuadora que há mais de 20 anos desenvolve sua pesquisa na Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz – grupo que completa 40 anos de atuação, de um teatro de estética singular.


“Desmontagem” é um conceito relativamente novo no âmbito das artes cênicas, constitui uma análise e desconstrução do próprio trabalho artístico e, ao mesmo tempo, é obra de arte. Tânia Farias é uma das pioneiras dessa pesquisa inovadora no Brasil e tem sido responsável pela disseminação dessa investigação do trabalho de ator em todo o país. Em dezembro deste ano a circulação da Desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência” terá seu início no Rio Grande do Sul, e a primeira cidade contemplada será Morro Reuter. A apresentação acontecerá na Comuna do Arvoredo, no dia 16 de dezembro às 20h com entrada franca.

“Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência” refaz o caminho da atriz na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Esse trabalho constitui um olhar sobre as discussões de gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. Ao seguir a linha de investigação sobre teatro ritual de origem artaudiana e performance contemporânea, a desmontagem de Tânia Farias propõe um mergulho num fazer teatral onde o trabalho autoral da atriz condensa um ato real com um ato simbólico, provocando experiências que dissolvam os limites entre arte e vida e ao mesmo tempo potencializem a reflexão e o autoconhecimento. 

Logo após a apresentação haverá um bate-papo sobre o processo de criação com a atriz Tânia Farias. O debate aborda as questões de gênero no teatro contemporâneo, assim como as questões éticas e estéticas que compõem a formação do ator e os processos de criação no teatro de grupo. 

Nos dias 14, 15 e 16 de dezembro Morro Reuter também receberá a “Imersão e Vivência com o Ói Nóis Aqui Traveiz”, que consiste em um encontro coordenado pela atuadora, que investiga o movimento e a voz para a ampliação do corpo do ator e a ocupação do espaço teatral e urbano. As inscrições serão mediante carta de intenção. Todas as atividades serão gratuitas e para o público maior de 16 anos. 

Outras sete cidades do Rio Grande do Sul receberão as atividades: Rosário do Sul, Santana do Livramento, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Gramado, Caxias do Sul e Viamão. Em cada uma das cidades contempladas será realizada uma apresentação da Desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência” e um bate-papo sobre o processo de criação com a atriz. Todas as atividades serão gratuitas e abertas. 

Este projeto é uma produção da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (Pró-Cultura RS FAC), Lei n° 13.490/10. Ao circular por oito cidades gaúchas, ele pretende disseminar essa pesquisa desenvolvida no Rio Grande do Sul, aproximar as cidades do estado através da ação cultural e propiciar um espaço de reflexão e debate sobre a produção do teatro de grupo brasileiro e questões sociais e políticas. 

Confira a programação completa abaixo:

APRESENTAÇÃO 

16 de dezembro
20h - Desmontagem “Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência” com Tânia Farias
no Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo - Morro Reuter

Expondo os processos de criação de diferentes personagens, criadas entre 1999 e 2011, a atriz Tânia Farias mostra quanto as suas vivências pessoais e de seu grupo, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, atravessam os mecanismos de criação. Por meio da ativação da memória corporal, a atriz faz surgir e desaparecer as personagens, realizando uma espécie de ritual de evocação de seus mortos para compreensão dos desafios de fazer teatro nos dias de hoje. A performance constitui um olhar sobre as discussões de gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, e também sobre a importância do autoconhecimento no processo criativo.

OFICINA

14, 15 e 16 de dezembro
“Imersão e Vivência com o Ói Nóis Aqui Traveiz”
no Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo - Morro Reuter

• Inscrições para imersão serão realizadas nos dias 11 e 12 de dezembro e devem ser feitas através do e-mail terreira.oinois@gmail.com, com o envio de carta de intenção (a partir de 16 anos).

Sobre o Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo: 
www.valearvoredo.com.br

Informações para a imprensa:

Tânia Farias 

(51) 3028.8051 e 99999.4570 / www.oinoisaquitraveiz.com.br

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

TEATRO E VIVÊNCIA DE CRISE Claudio Heemann (jornal Zero Hora, 10 de abril de 1989)

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
40 Anos

O texto desta quinta feira é datado de abril de 1989, quando a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz completava 11anos!
Teatro e Vivência de Crise.
Confira!


Em 1978 o grupo experimental Ói Nóis Aqui Traveiz surgiu em Porto Alegre conduzido por Paulo Flores. Sua proposta diferia de tudo quanto o teatro da cidade tinha praticado até então. Apresentava uma atitude radical de repúdio às convenções estabelecidas. Abolia o palco e derramava-se no cotidiano dos espectadores. Realizava uma procura de rompimento com a linguagem e as posturas tradicionais. O grupo surgiu num espaço próprio e alternativo, uma garagem  que tinha sido boate. Logo fez-se notar pelo inconformismo, o ímpeto revolucionário e anárquico e as intenções devastadoras. Usou técnicas de choque para tratar temas sociais, influir em acontecimentos do dia e romper com os lugares comuns do teatro burguês. 

No espaço cênico ou fora dele, ou na transformação de qualquer lugar em espaço cênico, o Ói Nóis Aqui Traveiz levava suas convicções para fora do momento da representação. Representando suas ideias em qualquer lugar ou instância do existir. A anarquia contestátoria, o ritual surrealista, a agressão à plateia, o nudismo desbragado, a força simbólica da encenação, o grotesco e a imagem onírica, as denúncias pantomímicas contra a opressão e o absolutismo, a revolta irracional, a interferência do cotidiano pessoal, o manifesto contra as forças de dominação e controle social, o ódio ao capitalismo, identificaram o Ói Nóis Aqui Traveiz e sua maneira de ser e definir propósitos.

Em síntese, o Ói Nóis Aqui Traveiz preocupou-se em conscientizar plateias, buscando influenciá-las a repensar a realidade. Autodefinindo-se como tribo de atuadores o conjunto procura funcionar como agente de provocação, integrando-se à agitação de temas políticos e ao exame de questões conflituadas. A princípio trabalhando com um dramaturgo próprio (Júlio Zanotta Vieira) e sempre organizando a contextualidade das encenações através de adaptações especiais, o Ói Nóis Aqui Traveiz não deixou de aproveitar autores como Genet, Beckett, Brecht e Augusto Boal. Nestas variações de repertório o nível das montagens tem sofrido oscilações. Mas sempre num sentido de crescimento formal do grupo e coerência temática. Fiel ao ideário de reforma e denúncia a que se impôs.

Foto: Isabela Lacerda
Espetáculo: Fim de Partid
a
A intensa atividade do grupo em oficinas, sessões de estudo e experiências de laboratório e treinamentos fornecem uma equipe de sustentação sempre renovada que trabalha no  sentido de aproveitar a soma de contribuições que a orientação coletivista proporciona. Chegando aos onze anos de existência o Ói Nóis Aqui Traveiz , sediado em seu segundo espaço específico (a Terreira da Tribo), continua com o mesmo ímpeto e preocupação de ruptura em relação à ordem e aos códigos dominantes, que usou ao surgir de modo devastador e juvenil. A coerência com suas bases de lançamento e a persistência no caminho que escolheu trilhar parecem ter amadurecido e solidificado com a passagem do tempo.

Nem mesmo as premiações oficiais destinadas ao teatro gaúcho que  Ói Nóis Aqui Traveiz conquistou com realizações como Fim de Partida (1986) e Ostal (1987) parecem ter diminuído ou aplacado a inquietação do conjunto. Ele permanece convicto de sua marginalidade em campanhas e combatees alertas ao aqui-e-agora da situação contemporânea. Buscando deflagrar - onde quer que surja um assunto ou tema socialmente sensível - seu posicionamento e luta. Mostrando-se polêmico, revolucionário, crucial, persistente no agitar de sua bandeira. Nenhum outro grupo teatral tinha antes entre nós levado o comprometimento com causas sociais a este nível de identificação. O Ói Nóis Aqui Traveiz procura vivenciar e participar das crises do mundo das quais ele é ao mesmo tempo, reflexo. Essa originalidade, ao lado dos momentos de maior alcance expressivo de seus trabalhos, confere uma posição especial no panorama do teatro de Porto Alegre, aos companheiros de Paulo Flores, em suas cerimônias tribais. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Palco Giratório 2017 na reta final!

A Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz encerra nesta semana em Pernambuco o Circuito Nacional Palco Giratório. Ao todo foram 7 meses de idas e vindas, realizando seminários, workshops, intercâmbios e diversas apresentações. 

Nesta reta final o grupo retorna a Arcoverde, cidade onde encenou Medeia Vozes no ano de 2013 em uma temporada inesquecível, desta vez para apresentar “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal”. Após, seguirá para Recife onde além do espetáculo de rua, apresentará também a desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência”.

A Tribo que está em vésperas de completar 40 anos de trajetória foi o grupo homenageado desta edição do Festival. 

Confira abaixo a programação:

ARCOVERDE:

- Dia 18 de novembro, 20h em frente à Estação Cultural: Espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal.

- Dia 19 de novembro, às 14h no SESC Arcoverde: Workshop/vivência com a Tribo.

RECIFE:

- 21 de novembro, 16h no Pátio do Carmo (Sto. Antônio): Espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal.

- 22 de novembro, 19h30, no Teatro Capiba: Desmontagem Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência. 

Caliban – A Tempestade de Augusto Boal

Foto: Pedro Isaias Lucas

Impulsionada pela ideia de que ‘somos todos Caliban‘, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz analisa criticamente a ‘tempestade‘ conservadora que hoje sofre a América Latina, e especialmente o grande retrocesso nos direitos sociais e na luta pela autonomia econômica, política e cultural que vivemos no Brasil. A encenação é criada a partir do texto “A Tempestade” de Boal, escrita pelo autor no exílio, em 1974, período em que os movimentos sociais latino- americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo dos EUA e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares. A Tribo, sem trair a sua vocação artística, quer com o seu teatro de rua instaurar a alegria e a indignação nos seus espectadores. 

Desmontagem Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência

Foto: Eugênio Barboza

A desmontagem “Evocando os mortos – Poéticas da experiência” refaz o caminho da atriz na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. Desvelando os processos de criação de diferentes personagens, a atriz deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação.

O espetáculo foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2015 e faz parte do Projeto Caliban – Apontamentos sobre O Teatro de Nuestra América, selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural, na edição 2015-2016

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"O Teatro de Rua e o Teatro de Vivência da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz comungam do mesmo ímpeto de ruptura, invenção e intervenção para a transformação do teatro e da sociedade..." p.f


Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 40 Anos!

Compartilhamos abaixo, a sequencia da entrevista com o atuador Paulo Flores, publicada originalmente na revista Sextante/Resistência em 2016.

Você ainda assiste teatro hoje? Quais os principais grupos atuantes no cenário nacional? E internacional?
Assisto teatro bem menos do que eu gostaria em função das minhas atividades na Terreira da Tribo que tomam quase todo o meu tempo. A idéia de teatro de grupo se espalhou pelo país e existem em diferentes estados grupos com atuação e relevância histórica. Para citar dois grupos que o Ói Nóis Aqui Traveiz tem compartilhado ações conjuntas: a Companhia do Latão e o Grupo Pombas Urbanas, ambos de São Paulo. No campo internacional interessa prioritariamente ao Ói Nóis o contato com o teatro latino-americano. Temos trazido para o nosso Festival de Teatro Popular: Jogos de Aprendizagem representantes deste múltiplo cenário como o Yuyachkani do Perú, o Malayerba do Equador e Teatro Taller de Colômbia.

Espetáculo A Missão - Lembrança de uma Revolução
Foto: Cláudio Etges
Quais os trabalhos que mais te marcaram?
As primeiras peças assistidas no Teatro de Arena de Porto Alegre, no início dos anos 70, que traziam duas características que foram motivadoras para mim e que influenciaram na minha maneira de ver e fazer teatro: a proximidade física entre o ator e o espectador, e o teatro como instrumento de reflexão política. Depois foi tudo que eu li sobre teatro e os seus grandes mestres – Artaud, Brecht, Julian Beck, Grotowski, Augusto Boal, Eugenio Barba, entre outros, e a história do Teatro Oficina e do Teatro de Arena de São Paulo. Nos anos 80, o meu encontro com o teatro de rua que se fazia em outras partes do país como o Grupo Galpão de Belo Horizonte, o Imbuaça de Aracajú e o Tá na Rua do Rio de Janeiro.


Porto Alegre é considerada uma das principais cidades do país em qualidade cênica. Como você enxerga o teatro gaúcho hoje?
O teatro de Porto Alegre é certamente um dos melhores do país. Tem uma qualificação de encenadores, de atores, de cenógrafos, que visivelmente está, em termos de tamanho da cidade, em pé de igualdade com Rio e São Paulo. O que falta é recursos para fomentar essa produção. Falta ação do poder público para criar uma política cultural para a manutenção das sedes dos grupos, incentivando o trabalho continuado, com projetos de formação de platéia e de circulação de espetáculos dentro do Rio Grande do Sul e fora do estado.

Conseguir se manter financeiramente é um dos maiores desafios para os grupos de teatro, principalmente no início. Como, em 2015, o ator de teatro consegue sobreviver? Existe algum incentivo para que aumente o número de pesquisas, grupos...?
A falta de uma efetiva política pública de fomento as artes cênicas leva o teatro brasileiro, principalmente os grupos de trabalho continuado, viver na corda bamba. Um grupo jovem só vai conseguir sobreviver se tiver muito claro para si ‘o porquê fazer teatro’ e ter muita persistência. Existem poucos editais públicos e a demanda é sempre muito maior que os poucos recursos. Vivemos num país onde as verbas para cultura não alcançam nem 1% do orçamento geral. O dinheiro público está nas mãos das empresas privadas através das leis de “incentivo à cultura” que não têm nenhum interesse na democratização e descentralização do teatro. E a situação no estado e no município é ainda pior.
Mesmo com todas as dificuldades em manter um grupo teatral, o  Ói Nóis se destaca pela quantidade de atores envolvidos em suas apresentações. Quantos Atuadores fazem parte da Tribo hoje?
Nas encenações dos espetáculos do Ói Nóis Aqui Traveiz "Medeia Vozes", "O Amargo Santo da Purificação" e da performance "Onde? Ação n. 2" estão envolvidos 25 atuadores. Na organização, produção e administração do grupo, dos projetos e do espaço da Terreira da Tribo formamos hoje um núcleo de sete atuadores. 

O que você vê de pior nos jovens atores?  E de melhor?
O de melhor é a audácia e o despojamento para ir para cena. E o de pior é como facilmente cedem aos apelos da sociedade consumista e caem no individualismo e no egocentrismo que são idéias contrárias ao teatro que é uma arte coletiva e requer um individuo generoso e solidário.

Pode-se dizer que o teatro de grupo é uma forma de resistência. Qual a importância do trabalho continuado para a existência de um grupo de teatro? 
A existência de um grupo de teatro só se dá pelo trabalho continuado. O trabalho não se encerra na encenação de um espetáculo. Que está associado a uma idéia de trabalho coletivo aonde vai se desenvolver uma ética e uma estética própria. O teatro de grupo é que vai pesquisar novas linguagens para a cena, vai inovar no sentido da atuação e no treinamento do ator. Por isso a importância do trabalho continuado porque é ele que vai trazer para o teatro relevância histórica.

Além de 6 livros e 4 DVDs publicados sobre a Tribo de Atuadores, o grupo ainda produz uma revista especializada em teatro: a Cavalo Louco. A revista acaba de completar 10 anos de existência com sua edição número 16, sendo referência de pesquisas e com circulação gratuita. A Cavalo Louco sobrevive hoje através de algum apoio? Qual a realidade das publicações teatrais no Brasil? A Cavalo Louco Revista de Teatro da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é uma publicação independente como todas as ações do grupo. Os recursos para impressão e distribuição da revista vem do apoio que o grupo consegue para outros dos seus projetos e dos cachê de espetáculos de teatro de rua pago por alguma instituição. De todo o recurso que a Tribo recebe uma parte é destinada para a manutenção da Cavalo Louco. Hoje diversos grupos brasileiros mantém publicações, como o Grupo Galpão (Revista Subtexto), Pequeno Gesto (Folhetim), Anõnimo (Anjos do Picadeiro), Cia do Latão (Vintém), Clowns de Shakespeare (Balaio) e o Vila Vox. Isto mostra a importância para os grupos de teatro do registro e a reflexão sobre o fazer teatral contemporâneo.

O profano e o sagrado são considerados pela maioria das pessoas como coisas opostas. No teatro do Ói Nóis elas aparecem juntas. A arte hoje também é colocada em um local “sagrado” - separada entre os que entendem a arte do resto da população. O Ói Nóis se propõe a fazer do teatro uma experiência ritual e popular. Quem pode fazer teatro? Como começar?
O Teatro de Rua e o Teatro de Vivência da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz comungam do mesmo ímpeto de ruptura, invenção e intervenção para a transformação do teatro e da sociedade. A convivência dessas duas vertentes no trabalho do Ói Nóis vai ser fundamental para o desenvolvimento do grupo, tanto no nível de fortalecer a sua identidade político-social como para a sua pesquisa de linguagem e trabalho do ator.  Estas vertentes estão ligadas uma a outra, e acredito que uma reforça a outra. O Teatro de Rua comunica-se com um grande público, e o Teatro de Vivência com um público restrito, onde possa se realizar uma cena dos sentidos com o envolvimento completo do espectador. Mas nas duas vertentes o contato do ator com o espectador para que se estabeleça uma relação viva é a premissa primeira. Quem pode fazer teatro? Para o Ói Nóis todo ser humano pode se expressar através do teatro. Basta desejar e ter um espaço apropriado. Para isso constituiu a Terreira da Tribo e sua Escola de Teatro Popular que oferece oficinas de iniciação teatral, formação e treinamento para atores, e de pesquisa de linguagens. Todas gratuitas e abertas aos interessados.

O ói nois surge com o retorno de manifestações de rua em 1978 – um momento em que jovens artistas e manifestantes se uniram para usar a arte como uma forma de contestação política e de discussão da ditadura. Você continua fazendo teatro de rua. A rua ainda consegue ser comunicadora e transmissora de pensamento?
O Ói Nóis Aqui Traveiz desejava encontrar o público que estava afastado das salas de espetáculos. A busca em sair do circuito do público habitual de teatro e realizar um teatro de combate, presente no dia-a-dia da cidade, levou o grupo a atuar nas ruas. Acredito que o teatro de rua é da maior importância para a cultura do nosso país. Lembrando que 90% das cidades brasileiras não têm salas de espetáculos. O teatro de rua do Ói Nóis tem chegado a um grande público na periferia das cidades e também na zona rural. Na sociedade de consumo a rua significa a libertação do teatro enquanto mercadoria, já que busca o envolvimento direto entre o público e a criação artística. Representa uma forma de escapar do sistema capitalista e do aparelho cultural, não apenas trazendo para a cena uma estética e uma ética libertária, mas também uma reavaliação completa dos meios de produção dessa cultura hegemônica. Atuar nas ruas, nas praças públicas e nos parques, atuar para todos os que estão ali, de forma gratuita. Atuar como uma forma constante de se compreender e repensar a vida, no espaço onde a vida acontece com maior agilidade, diante de um público vivo, é quando o teatro torna-se revolucionário.

Depois de 38 anos, o que o Ói Nóis ainda busca? Os ideais mudaram?
Impulsionado por princípios libertários o Ói Nóis Aqui Traveiz tem desenvolvido a sua trajetória até hoje. A idéia do teatro como força de transformação tem sido o pólo aglutinador da Tribo, que faz com que novas pessoas se interessem e se envolvam pela proposta do grupo. As idéias anarquistas que são colocadas na prática no dia-a-dia do grupo, tanto na criação artística como na sua organização, é que vão apaixonar ou não os novos participantes. Ao mesmo tempo em que estas idéias e práticas, como a autonomia, autogestão, criação coletiva, são sólidas na atuação da Tribo, a constante renovação de atuadores não permite que nada possa ser cristalizado. Esse movimento contínuo reafirma a prática libertária.

É possível ver claramente quem são os inimigos nas apresentações do ói nóis. Quem são seus inimigos hoje?
O grande inimigo é o mesmo, que é o sistema capitalista e a sua sociedade de consumo. Ontem como ditadura civil-militar e hoje como neoliberalismo. A miséria e a fome que se espalha pela maior parte do planeta, o analfabetismo, as epidemias, as guerras, o racismo, a xenofobia, a violência, a falta de liberdade, as injustiças sociais, e a degradação do planeta são frutos do capitalismo. Esse sistema que nos sufoca cotidianamente está sempre presente nas ações da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, tanto na criação artística como no ativismo político.

Durante muito tempo tentou-se acabar com o Ói Nóis de diversas maneiras: o grupo chegou a ter seu teatro fechado e seus atores presos. Depois de tantos anos de resistência, como você enxerga o seu futuro e do grupo?
Acredito que o Ói Nóis Aqui Traveiz continuará nos próximos anos disseminando as suas idéias e práticas coletivas, de autonomia e liberdade, compartilhando a sua experiência com o maior número de pessoas, através das suas encenações e da prática artístico-pedagógica. Certamente encontrará, como até aqui tem sido, os mais diferentes obstáculos para realizar o seu teatro de ousadia e ruptura. Mas resistir é manter abertos os vínculos com o futuro ainda sem nome e informe.


Missa para atores e público sobre a paixão e o
nascimento do Dr. Fausto de acordo com o espírito de nosso tempo
Qual a maior contribuição de Paulo Flores para o teatro brasileiro?
A minha contribuição foi ter participado da criação do Ói Nóis Aqui Traveiz e do espaço da Terreira da Tribo, que hoje já são referencias nacional.  Um grupo que nasceu com a idéia de um teatro concebido fora dos padrões convencionais. Estruturado como um coletivo autônomo desejando viver e expressar suas idéias através do teatro. Que manteve durante todos esses anos coerência e se pautou pela afirmação da diferença e da independência em relação ao mercado e às estruturas de poder, constituindo um espaço de resistência aos valores e padrões de comportamento estabelecidos pela sociedade capitalista.