segunda-feira, 22 de maio de 2017

Tempestade Tropical: Tenho uma nega chamada Surpresa – Por Luiz Renato

Proposição artística: Caliban – A Tempestade de Augusto Boal – Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz ( RS)

Por Luiz Renato

Antonio Garcia Couto

O senhor é convosco e o espetáculo, cheio de graça! Ariel Próspero Caliban, a trindade do todo poderoso capitalismo selvagem. Aos apupos de Fora Temer a plateia que assistiu à chegada da caravela pela Orla do Porto conformou-se com o histórico de dominação ao longo do espetáculo. A identificação com algum personagem foi quase que inusitada. Uns mais para Ariel, aéreos, em sua etérea existência, outros mais ao sabor sarcástico de Caliban, uma besta-fera terrena na qual, segundo Boal, a humanidade se inspira. Alegorias à parte, a tribo de atuadores faz mais uma das suas. E Cuiabá agradece, fazendo mesuras aos trinta e nove anos dessa trupe.

Em alguns pontos isolados da cidade caiu uma chuva no início da tarde, mas nada comparada a essa tempestade de conceitos e à verossimilhança que nos transforma em partícipes desse mau tempo. Um tempo de mudança de ares, sonoramente inspirada por Ariel, essa marca de sabão em pó que se faz de alvejante para as impurezas da quadrilha organizada de Caliban. Há muita lenha para se queimar nessa fogueira e a inquisição disfarçada de delação premiada tem cheiro de marmelo. A cachaça rola solta e é hora de se dar uma banana para o que o Próspero anuncia.

Próspero, Ariel e Caliban. Escolha a sua máscara, freguês. Ser um servo fiel e receber sua mesada, ser o calhorda que chafurda a todos em troca de favores, ser alguém que apenas quer estar por perto das benesses do poder. E o espetáculo vai ocupando os espaços vazios.

“Uma tempestade em alto mar; Próspero toma a ilha para si; entre colonizador e colonizado não existe troca de favores; Ariel canta a canção da liberdade burguesa; a resignação é uma arma ideológica contra os pobres; Caliban questiona a obediência cega; Fernando faz trabalhos domésticos; os nobres possuem a visão colonialista e preconceituosa com relação aos nativos da ilha; Caliban convence Trúnculo e Estevam a insurgir-se contra Próspero; o casamento entre Fernando e Miranda se consuma; Caliban afirma a Trúnculo e Estevan que Próspero não possui nenhum direito sobre a ilha; como parte final do plano político, os nobres são perdoados pela traição; tudo permanece igual”.

De dentro de sua tumba Augusto Boal regurgita palavras incompreensíveis para os desatentos. Mas pode-se inferir pelas sensações à flor da pele que ele também se destempera com toda essa farsa. Tanto mar, sei que é preciso navegar, pá; mas somente o fora Temer não nos trará de volta o juízo.

Texto escrito para o blog Parágrafo Cerrado, a partir da programação do Festival Palco Giratório no período de 04/05/2017 a 27/05/2017, no Sesc Arsenal - Cuiabá.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O espetáculo "Caliban - A Tempestede de Augusto Boal" chega a Cuiabá nesta sexta feira!

O espetáculo Caliban - A Tempestade de Augusto Boal que está circulando por diversas cidades do Brasil, chega a Cuiabá nesta sexta feira (19/05).

A apresentação que faz parte da programação do Festival Palco Giratório, será às 17h na Orla do Porto (em frante ao Museu do Rio).

Grupo homenageado do 20° Palco Giratório SESC!

Caliban - A Tempestade de Augusto Boal
Por Fábio Prikladnicki/ZH

Para o Ói Nóis Aqui Traveiz, olhar para trás é uma forma de apurar os olhos ao momento presente. Por isso, os espetáculos do grupo gaúcho que completa 39 anos como um dos mais importantes do país frequentemente encenam releituras de mitos e personagens históricos: Medeia, Marighella, Cassandra, Antígona e muitos outros.


Agora é a vez de Caliban, figura de A Tempestade, de William Shakespeare (1564 — 1616), que nas últimas décadas atraiu a atenção de estudiosos interessados na desconstrução do estereótipo dos povos colonizados. Na trama da peça de 1611, Caliban e o espírito Ariel são dominados pelo duque Próspero quando este desembarca em uma ilha com a filha Miranda depois de ser traído pelo irmão Antonio, o qual lhe usurpou o ducado.


Mas o espetáculo de teatro de rua que o Ói Nóis apresenta, não é uma montagem de Shakespeare. É uma releitura de A Tempestade pelas lentes do dramaturgo e teórico brasileiro Augusto Boal (1931 — 2009), que escreveu em 1974 uma peça de mesmo título como resposta ao grande poeta inglês. Enquanto o texto de Shakespeare posiciona o colonizador no centro, o de Boal observa a trama pelos olhos do colonizado, muito inspirado por um célebre estudo sobre Caliban do poeta e ensaísta cubano Roberto Fernández Retamar (a quem Boal dedicou o texto).

O bom observador perceberá que há ainda outra camada de sutileza: o Ói Nóis criou sua própria visão sobre a releitura empreendida por Boal. A personagem Miranda, por exemplo, tem uma personalidade mais forte na montagem. Por isso, o título é singular: Caliban — A Tempestade de Augusto Boal. O atuador Paulo Flores, um dos fundadores do grupo, explica que o interesse pelo tema veio de uma possibilidade de metáfora com a tempestade do presente, em referência à guinada à direita no Brasil e em diferentes partes do globo:


— Tem a ver com o momento dramático, terrível e triste que vivemos no país. Entramos em contato com o texto quando começaram as manifestações pelo impeachment. O Boal escreveu a peça também em um momento de grande derrota para a democracia na América Latina, sob o impacto do golpe no Chile. É o que estamos sofrendo hoje novamente. Mas o sentimento de derrota traz a necessidade de resistir, como faz Caliban.

Embora o Ói Nóis há tempos prestigie o teatro de rua, a escolha do formato para o novo espetáculo tem um motivo claro. Diz respeito a uma necessidade de se dirigir ao maior número de espectadores possível em um momento de urgência. Com a palavra, a atuadora Tânia Farias, que em setembro será homenageada pelo festival Porto Alegre Em Cena com uma biografia na série Gaúchos Em Cena:
— Agora, mais do que nunca, é imprescindível que estejamos ocupando o espaço da rua. Vê no retrocesso que ocorre no Brasil em termos de legislação, os temas em que estamos regredindo, a privatização do espaço público. Tu não imaginas a burocracia que é levar um espetáculo para apresentar na rua. Em alguns lugares do Brasil, é preciso pagar para estar na praça.

O espetáculo foi viabilizado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz e com o Rumos Itaú Cultural (pelo projeto Caliban — Apontamentos sobre o Teatro de Nuestra América), mas os tempos são nebulosos. Devido à crise que afeta o país e estanca o financiamento à cultura, o grupo ainda não conseguiu planejar a comemoração de seus 40 anos, que serão completados em março de 2018.

— Se sempre foi difícil, agora está muito mais difícil — resume Tânia.

Fotos: Pedro Isaias Lucas
Paraty
Matéria publicada no jornal ZH:

Desmontagem "Evocando os Mortos - Poéticas da Experiênica" no 20º Palco Giratório

Hoje (18/05) às 20h no Salão Social do Sesc Arsenal (Cuiabá) a atuadora Tânia Farias estará apresentando a desmontagem Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência.



A desmontagem “Evocando os mortos – Poéticas da experiência” refaz o caminho do ator na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz.
  
                                                                                                                                Seguindo a linha de investigação sobre teatro ritual de origem artaudiana e performance contemporânea a desmontagem de Tânia Farias propõe um mergulho num fazer teatral onde o trabalho autoral do ator condensa um ato real com um ato simbólico, provocando experiências que dissolvam os limites entre arte e vida e ao mesmo tempo potencializem a reflexão e o autoconhecimento. Desvelando os processos de criação de diferentes personagens, criadas entre 1999 e 2011 a atriz deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação. A ativação da memória corporal, fazendo surgir e desaparecer as personagens.
Realizando uma espécie de ritual de evocação de seus mortos para compreensão dos desafios de fazer teatro nos dias de hoje.


"Evocando os mortos – Poéticas da experiência é um ponto fora da curva na história da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz. A atriz e produtora Tânia Frias enfeixa o caminho da individuação artística ao avançar em procedimento inaugural para ela e para os parceiros: a desmontagem. Trata-se de uma contradição aparente, mas indicativa da maturidade do grupo de Porto Alegre: há 39 anos imbuído da prática da criação coletiva".
Valmir Santos. 
Texto publicado no site Teatrojornal

Leia na íntegra:

Fotos: Eugênio Barboza

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A roda gira, o palco também. Sopram os ventos e nosso pequeno “barcotribo” navega. Destino: o outro.

Maio 2017
Circuito Palco Giratório


A roda gira, o palco também. Sopram os ventos e nosso pequeno “barcotribo” navega. 
Destino: o outro.

Como tripulantes desta embarcação, sabemos que estamos em alto mar, no meio da Tempestade. Sentimos pelo ritmo apertado do passo do viajante que este mesmo mar não está para peixe. Temos a sensação de que estamos afundando. Rema! Rema!

Como tripulantes desta embarcação, sabemos que os tempos não são (e talvez nunca foram) fáceis para os sonhadores, os loucos, os apaixonados, os poetas que têm sede e fome por justiça. Sabemos também que “a influencia da estrutura é forte e que nós somos fracos/frágeis”.

Sabedores e não sabidos de tudo isso, na quarta feira passada, num dia 10, no mês que era de maio, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (RS) e o grupo Bando de Palhaços (RJ) se encontraram em uma pequena sala, nas dependências do Espaço Cultural – Escola SESC em Jacarepaguá. Compatilhamos o riso, a energia, o jogo, as histórias, as canções, o calor y otras cositas más.

Era o intercâmbio proposto pelo Circuito Nacional Palco Giratório acontecendo no Rio de Janeiro.
Se existe algo potente e transformador, esse algo se dá a partir do contato com o outro. O encontro.

- somos frágeis
- sim somos.

Mas ouvi dizer que “nessa batalha vence o frágil, porque o forte está rígido e podre, mas os frágeis, ah os frágeis estão flexíveis e estão vivos”.

Seguimos! Adelante! Como pequenas ilhas de desordem, que resistem. Façamos a travessia para chegar a outras ilhas hermanas. Coloquemos nossos barcos no mar. Façamos do amanhã um outro dia. E que sejam dias melhores.

Evoé!
#ForaTemer







Fotos: Pedro Isaias Lucas




terça-feira, 16 de maio de 2017

Palestra com o atuador e fundador da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz Paulo Flores em Cuiabá!

Seguimos viagem pelo circuito “Palco Giratório” e chegamos a Cuiabá. Abrindo as atividades, o atuador e fundador da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, Paulo Flores irá fazer um bate papo sobre a Censura no Teatro Brasileiro durante a Ditadura Militar. 
A atividade é gratuita e será nesta terça feira (16.05), às 18h no SESC Arsenal.

Na foto, Paulo Flores sendo preso com o vereador Marcos Klassmann durante uma manifestação pela Anistia em agosto de 1978.



Sobre a Palestra:
A CENSURA NO TEATRO BRASILEIRO DURANTE A DITADURA MILITAR

A palestra aborda um dos piores momentos da história do teatro brasileiro, devido à repressão e à censura exercidas pelo regime autoritário. No período da ditadura, a partir de 1964, o teatro sofreu grandes perseguições. Em especial dois grupos, o Oficina, em torno de seu diretor José Celso Martinez Corrêa, e o Arena, em torno de Augusto Boal, que se dedicaram a criar uma dramaturgia brasileira e uma nova formação do ator. Extremamente engajados, e invocando o teórico e dramaturgo alemão Bertolt Brecht como nome tutelar, marcariam a história do teatro no país. Essa situação só piorou após a promulgação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5) em 1968, que deflagrou o terror de Estado e exterminou aquilo que fora o mais importante ensaio de socialização da cultura jamais havido no país.

sábado, 6 de maio de 2017

O Palco Gira e a Tribo chega no Rio de Janeiro!

O Ói Nóis Aqui Traveiz segue viagem pelo Circuito Palco Giratório e desembarca no Rio de Janeiro para uma semana repleta de atividades. Estaremos apresentando o espetáculo “Caliban – A Tempestade de Augusto Boal” e a desmontagem “Evocando  os Mortos - Poéticas da Experiência”, além de um workshop\vivência com a Tribo e um intercâmbio com grupo local. Fique por dentro da programação, em breve estaremos compartilhando por aqui mais informações. 

Confira a programação:
Todas as atividades serão realizadas no Espaço Cultural Escola Sesc em Jacarepaguá.

8 de maio das 15 às 18h30: Workshop\vivência com a Tribo
9 de maio, às 19h: Desmontagem evocando os Mortos Poéticas da Experiência
11 de maio, 16h: Caliban - A Tempestade de Augusto Boal

Paraty

13 de maio: "Caliban - A Tempestade de Augusto Boal" às 16h no Largo de Sta. Rita

14 de maio: Desmontagem Evocando os Mortos - Poéticas da Experiência às 20h no Sesc Silo - Paraty/Rj

Mais informações:
https://teatroescolasesc.files.wordpress.com/2017/04/clube_de_espectadores_maio_2017_web.pdf

Caliban - A Tempestade de Augusto Boal

Foto: Rogério Tosca

Impulsionada pela ideia de que “somos todos Caliban”, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz propõe nesta encenação analisar criticamente a “tempestade” conservadora que sofre atualmente a América Latina, e, especialmente o grande retrocesso nos direitos sociais e na luta pela autonomia econômica, política e cultural que vivemos no Brasil. A encenação é criada a partir do texto “A Tempestade” de Boal, escrita pelo autor no exílio em 1974, período em que os movimentos sociais latino-americanos sofriam uma grande derrota frente ao imperialismo estadunidense e eram terrivelmente reprimidos pelas ditaduras civil-militares. A Tribo, sem trair a sua vocação artística, quer com o seu teatro de rua instaurar a alegria e a indignação nos seus milhares de espectadores. 

Desmontagem “Evocando os mortos – Poéticas da experiência”

Foto: Rafael Saes
A desmontagem “Evocando os mortos – Poéticas da experiência” refaz o caminho do ator na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz.
Seguindo a linha de investigação sobre teatro ritual de origem artaudiana e performance contemporânea a desmontagem de Tânia Farias propõe um mergulho num fazer teatral onde o trabalho autoral do ator condensa um ato real com um ato simbólico, provocando experiências que dissolvam os limites entre arte e vida e ao mesmo tempo potencializem a reflexão e o autoconhecimento.
Desvelando os processos de criação de diferentes personagens, criadas entre 1999 e 2011 a atriz deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação. A ativação da memória corporal, fazendo surgir e desaparecer as personagens.
Realizando uma espécie de ritual de evocação de seus mortos para compreensão dos desafios de fazer teatro nos dias de hoje.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Caliban - A Tempestade de Augusto Boal no 12º Palco Giratótio em POA

Nesta quinta e sexta feira (4 e 5 de maio) tem "Caliban - A Tempestade de Augusto Boal" na abertura do 12º Palco Giratório Sesc-Poa!
As apresentações serão às 16h, no Largo Glênio Peres e a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz é o grupo homenageado do 20º circuito nacional Palco Giratório.

Foto: Fabiano Ávila

Sobre "Caliban - A Tempestade de Augusto Boal"

Foi um cubano, Roberto Fernández Retamar, o primeiro a falar em Caliban como símbolo dos povos marginalizados. E foi outro cubano, José Martí, que cunhou o termo Nuestra América, fundando uma concepção de identidade cultural do continente, com liberdade e determinação própria. 
A figura de Caliban em A Tempestade, de Boal, ratifica a fundação mais firme de uma representação voltada para as margens. Falar em Caliban como símbolo de nossa identidade e do teatro latino-americano, nos leva a explorar novas sendas, novas categorias e a possibilidade de pensar e fazer teatro de outro modo. Implica em tornar visível as inumeráveis contradições e complexidades que configuram as sociedades contemporâneas marcadas pela ferida colonial. 
Para o Ói Nóis Aqui Traveiz, levar para a rua a encenação Caliban - A Tempestade de Augusto Boal é gerar outros discursos, histórias e narrativas, produzir e reconhecer outros lugares de enunciação. Caliban é a reivindicação da legitimidade do “diferente”. Poder compartilhar e refletir com outras pessoas a pesquisa sobre a figura de Caliban, para o Ói Nóis, é investir na aspiração de falar e conhecer Nuestra América, seu teatro e seus cidadãos, que não desistem. E resistem.