terça-feira, 27 de setembro de 2016

Eu não me imagino fora do teatro: é meu partido político, minha religião, é o meu lugar no mundo! Confira a participação da atuadora Tânia Farias no seminário "Dicções femininas na cultura brasileira" em SP!

A atuadora Tânia Farias, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre - RS, participou do Seminário Dicções Femininas na Cultura Brasileira, promovido pelo Itaú Cultural em parceria com a Revista Cult – que na edição de setembro reúne um especial com histórias de mulheres que, pelo viés do feminino, foram e continuam abrindo caminhos para tantas outras na nossa sociedade. Entre este mosaico de mulheres se encontra o perfil de Tânia.

Foto: Pedro Isaias Lucas

O feminismo foi celebrado nos dias 24 e 25 de setembro em São Paulo, na composição de vozes como Djamila Ribeiro, Ivana Bentes e Eliane Potiguara que, com mediação de Bianca Santana, debateram sobre a ausência de espaços culturais ainda não ocupados por mulheres e a forma como as mesmas são apresentadas pelo cinema, a mídia e a literatura.

A mesa "Produzir Arte – Desfazendo a Hegemonia e Suas Complexidades" debateu o lugar da arte e a importância do protagonismo feminino que o Ói Nóis Aqui Traveiz vem desempenhando em seu trabalho. "O teatro político do Ói Nóis passa muito pelo corpo. Não é discursivo, que a cabeça tá aqui e o corpo tá lá. A cabeça faz parte do corpo. O corpo, o músculo, é inteligente e produz sentido, produz reflexão. O encontro com esse grupo me fez pensar sobre o meu próprio corpo e o lugar desse corpo no mundo. O que eu tenho que fazer como artista para garantir esse espaço não só para mim", afirma Tânia.  
Foto: Rafael Saes
Ao fim de sua fala, a atuadora trouxe à cena a personagem “Ofélia”, de Hamlet Máquina (1999), que desperta o entendimento real do seu lugar de mulher no mundo. A personagem de Heiner Muller e Tânia, juntas, denunciam as violências sofridas pelas mulheres e expõem suas dores que se entrelaçam através de experiências pessoais da atuadora. "A minha linguagem, a linguagem que eu elegi para me comunicar com o mundo, é o teatro. Eu não me imagino fora do teatro: é meu partido político, minha religião, é o meu lugar no mundo". 

Sob a mediação de Úrsula Passos, estiveram ao lado de Tânia, as artistas Estela Lapponi - que apresentou sua performance Intento 00035 – Ça m’Énerve!!! - e Roberta Barros, construindo meios para possibilitar ao campo artístico mais diversificado.

Outros nomes importantes ao debate sobre a temática foram apresentados nas mesas: Silenciamento do Feminino, com Eliane Dias, Marcia Kambeba e Marcia Tiburi, mediadas por Caróu Diquinson, e, A Legitimação da Presença da Mulher no Ambiente Acadêmico, com a presença de Azelene Kaingang, Nilma Gomes e Michele Fanini, com mediação de Lais Modelli. Além do encerramento do evento que contou com o espetáculo Glory Box com Nina Giovelli.

Foto: Pedro Isaias Lucas


No perfil traçado sobre a trajetória da atuadora na edição de setembro da Revista Cult, Tânia afirma: “É aqui que eu quero militar, tenho coisas a dizer através do meu corpo, da minha voz de mulher e de artista, e é desse lugar que eu quero fazer isso chegar às pessoas.”
Que essa voz seja ouvida.

Por Júlio Kaczam e Eduardo Arruda

sábado, 24 de setembro de 2016

Medeia Vozes em terras nordestinas!

Medeia Vozes, criação coletiva da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz de Porto Alegre/RS, com patrocínio da Petrobras, será apresentada de 12 a 23 de outubro, de quartas a domingos, às 19h30, no Centro Cultural RFFSA (Rua Ratisbona, 189) na cidade do Crato/CE, com entrada franca. As senhas serão distribuídas 30 minutos antes do espetáculo. Este Projeto foi selecionado pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura 2015/2016. As atividades contam com o apoio da Universidade Regional do Cariri, do SESC Crato e da SECULT Secretaria de Cultura CRATO – CE.


          Na encenação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz o mito de Medeia é reinventado. Medeia livra-se da imagem de infanticida e aparece representada em outros termos: trata-se da mulher que ousou desafiar a política estabelecida, foi punida por seu senso de independência e liberdade e banida da cidade por saber de crimes que não deviam ser revelados. A base para a criação de Medeia Vozes é o romance homônimo da alemã Christa Wolf (1929-2011). Em suas investigações, a escritora bebeu em outros estudos da arqueologia, mitologia e sociologia. Retornou às bases do matriarcado primitivo e da fundação das sociedades. Wolf tomou uma versão antiga e desconhecida do mito para afirmar Medeia como uma mulher vítima dos valores e das necessidades do patriarcado, que não cometeu nenhum dos crimes de que a tragédia de Eurípides a acusa.

O espetáculo forma uma obra polifônica, no qual, além das vozes dos personagens narradores do romance, somam-se vozes de mulheres contemporâneas como as revolucionárias alemãs Rosa Luxemburgo e Ulrike Meinhof, a somali Waris Diriiye, a indiana Phoolan Devi e a boliviana Domitila Chungara, que enfrentaram de diferentes maneiras a sociedade patriarcal em várias partes do mundo. Medeia Vozes é Teatro de Vivência, onde o espectador é convidado a vivenciar o espetáculo através de seus cinco sentidos, de maneira interativa com os atuadores, potencializando radicalmente a capacidade transformadora do teatro. Medeia Vozes foi o espetáculo mais premiado da história do teatro gaúcho, recebendo o Prêmio Açorianos em 8 categorias (melhor espetáculo,  atriz para Tânia Farias, direção, cenografia, iluminação, trilha original, dramaturgia e produção) e Prêmio de Melhor Espetáculo pela Escola de Espectadores.

Com a criação coletiva Medeia Vozes a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz dá continuidade ao Projeto Raízes do Teatro e segue uma linha de investigação sobre teatro ritual de origem artaudiana e performance contemporânea. Este projeto já trabalhou com mitos que resultaram nos espetáculos: Antígona Ritos de Paixão e Morte (1990), Missa para Atores e Público sobre a Paixão e o Nascimento do Doutor Fausto de Acordo com o Espírito de Nosso Tempo (1994) e Aos Que Virão Depois de Nós Kassandra In Process (2002) apresentada no Crato em 2003.
           Para contemplar o plano de acessibilidade, o espetáculo Medeia Vozes contará com serviço de audiodescrição e linguagem de libras, datas a confirmar.


ATIVIDADES FORMATIVAS

Nos dias 17 e 18 de outubro será realizado o workshop “Vivência com a Tribo”, das 9h às 12h, no Centro de Artes da Universidade Regional do Cariri (Av. Castelo Branco, 1056 – Pirajá Nuazeiro do Norte - CE). O workshop, aberto aos grupos locais, estudantes de teatro e público em geral, consiste em um encontro coordenado pelos atuadores do grupo, que investiga movimento e voz para a ampliação do corpo do ator e a ocupação do espaço teatral. As inscrições são gratuitas pelo e-mail terreira.oinois@gmail.com de 10 a 14 de outubro.

No dia 17 de outubro, às 15h, no Centro de Artes da Universidade Regional do Cariri (Av. Castelo Branco, 1056 – Pirajá Nuazeiro do Norte - CE) acontecerá a exibição do documentário “Raízes do Teatro”, do cineasta Pedro Isaias Lucas, apresentando um dos principais eixos do trabalho de criação do Ói Nóis Aqui Traveiz, que pesquisa as origens ritualísticas do teatro. As senhas serão distribuídas 30 minutos antes do filme.

No dia 18 de outubro, às 19h, no Teatro Adalberto Vamozi SESC-Crato (Rua André Cartaxo, 443 bairro São Miguel), acontecerá a apresentação da “Desmontagem Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência” com a atriz Tânia Farias. Na desmontagem, a atriz desnunda seu próprio processo de criação de personagens e do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, além de discutir questões de gênero. As senhas serão distribuídas 30 minutos antes da Desmontagem.

No dia 25 de outubro, às 14h30, no Centro de Artes da Universidade Regional do Cariri (Av. Castelo Branco, 1056 – Pirajá Nuazeiro do Norte - CE), será realizado o debate “Teatro de Grupo e a Cena Contemporânea” com grupos teatrais da cidade, no qual serão compartilhadas experiências sobre o processo de criação no teatro de grupo.
Com entrada franca em toda programação, é uma oportunidade única - para o público em geral, artistas, pesquisadores e estudantes de teatro - de entrar em contato com a obra de um dos grupos mais antigos do país.

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz - 38 Anos!
Durante quase quatro décadas, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz construiu uma trajetória que marcou definitivamente a paisagem cultural do Brasil. Com a iniciativa de subverter a estrutura das salas de espetáculos e o ímpeto de levar o teatro para a rua, abriu novas perspectivas na tradicional performance cênica do sul do país. A determinação em experimentar novas linguagens a fez seguir caminhos nunca trilhados por aqui. Com base nos preceitos de Antonin Artaud e do teatro revolucionário, investiga com rigor todas as possibilidades da encenação. Na busca de uma identidade, desenvolveu uma estética própria, fundada na pesquisa dramatúrgica, musical, plástica, no estudo da história e da cultura, na experimentação dos recursos teatrais a partir do trabalho autoral do ator, estabelecendo um novo modo de atuação. Seu centro de produção, a Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, ocupa lugar de destaque entre os espaços culturais do Rio Grande do Sul, sendo igualmente apontada como uma referência de âmbito nacional. 

Funciona como escola de formação de atores e, principalmente, como ponto de aglutinação de pessoas e profissionais dos mais diversos segmentos, fomentando a criação artística em diferentes áreas. A organização da Tribo é baseada no trabalho coletivo, tanto na produção das atividades teatrais, como na manutenção do espaço. Para a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz o teatro é instrumento de desvelamento e análise da realidade; a sua função é social: contribuir para o conhecimento dos homens e o aprimoramento da sua condição.

FICHA TÉCNICA:
MEDEIA VOZES
Criação coletiva da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz inspirada livremente no romance homônimo de Christa Wolf.
Roteiro, encenação, cenografia, figurinos e iluminação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.
Música: Johann Alex de Souza
Preparação Vocal: Leonor Melo
Atuadores: Tânia Farias, Paulo Flores, Clélio Cardoso, Marta Haas, Eugênio Barboza, Eduardo Arruda, Arlete Cunha, Paula Carvalho, Roberto Corbo, Leticia Virtuoso, Mayura Matos, Luana da Rocha, Keter Atácia, Alex Pantera, Lucas Gheller, Pascal Berten e Júlio Kaczam
Operação de luz e som: Daniel Steil e Márcio Leandro
Contrarregra: Thales Rangel

Serviço:
O que: Espetáculo Medeia Vozes da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
Onde: Centro Cultural RFFSA (Rua Ratisbona, 189)  
Quando: de 12 a 23 de outubro, de quartas a domingos, às 19h30 
Classificação indicativa: 16 anos
Entrada Franca. As senhas serão distribuídas 30 minutos antes do espetáculo.








Fotos Viúvas Performance sobre a Ausência no Forte de Santo Amaro em Santos/MIRADA!

Em setembro deste ano a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz apresentou a performance "Viúvas Performance sobre a Ausência" no Festival Ibero Americano MIRADA em Santos.

A montagem, sobre um grupo de mulheres de um povoado às margens de um rio que luta pelo direito de saber onde estão os pais, maridos ou filhos mortos pela ditadura no país, estreou em 2011, na Ilha das Pedras Brancas – conhecida como Ilha do Presídio –,situada entre Porto Alegre e Guaíba. As apresentações no festival santista vão rolar de quinta a sábado, no Museu Histórico Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande – localizado em uma fortificação construída no Guarujá em 1584, que também abrigou presos políticos ao longo de sua história. 

Confira algumas fotos de Pedro Isaias Lucas:



















Fotos Pedro Isaias Lucas

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Dicções femininas na cultura brasileira!


A atuadora Tânia Farias participa de um importante seminário organizado pela Revista Cult, em parceria com o Itaú Cultural, nos dias 24 e 25 de setembro. O seminário chamado “Dicções femininas na cultura brasileira” tem a intenção é discutir temas que dizem respeito a todas as mulheres que buscam igualdade de gênero em suas atividades e em seu cotidiano.
Durante dois dias, pesquisadoras, artistas, intelectuais e ativistas partem de suas próprias vivências para falar sobre mulher, comunicação e cultura, e debater assuntos que vão da presença transformadora da mulher na cultura brasileira ao silenciamento a que muitas vezes são submetidas.

A Revista Cult na edição deste mês (setembro) fez o perfil de algumas mulheres representativas na cultura brasileira, dentre elas está atuadora Tânia Farias, confira!



No primeiro dia, sábado (24), às 14h, a mesa inaugural discute o papel transformador da mulher na cultura brasileira. De que maneira a cultura ganha um traço distintivo a partir da experiência do feminino? Há espaços culturais ainda não ocupados pelas mulheres? Elas são devidamente representadas pela mídia, pelo cinema, pela literatura? Com mediação de Bianca Santana, Djamila Ribeiro, Ivana Bentes e Eliane Potiguara debatem o assunto.






Às 16h, Tânia Farias, Roberta Barros e Estela Lapponi participam da mesa “Produzir arte – Desfazendo a hegemonia e suas complexidades”, com mediação de Úrsula Passos. Há entraves específicos enfrentados pelas artistas brasileiras, da circulação de suas obras até a consolidação de seus nomes nos círculos da curadoria nacional? A desigualdade de gênero está presente também no momento de se produzir e disseminar arte no Brasil? Como superar a hegemonia e tornar os circuitos artísticos mais diversos? Essas e outras questões serão discutidas pela mesa.

No domingo (25), a mesa “Silenciamento do feminino” traz Eliane Dias, Marcia Kambeba e Marcia Tiburi para refletir: o que muda quando as mulheres tomam para si a construção de suas próprias narrativas? O patriarcado quer vê-las caladas? Como se dão as tentativas de silenciar suas vozes todos os dias? Com mediação da historiadora Caróu Diquinson, o debate terá início às 14h.

Já a mesa “A legitimação da presença da mulher no ambiente acadêmico” fecha o seminário, no domingo (25), às 16h. Nilma Gomes, Azelene Kaingang e Michele Fanini, com mediação de Lais Modelli, discutem a presença da mulher em instituições acadêmicas, desde os processos de admissão nas universidades como alunas, até as dificuldades enfrentadas quando contratadas como docentes e, por vezes, em cargos de poder. Apontará também para a própria legitimação da produção teórica de mulheres: há produção continuada? Quando há, publica-se? Ao se publicar, são citadas como referência em outras pesquisas?

Entre as mesas, haverá ainda as performances INTENTO 00035 – Ça m’énerve!!!, de Estela Lapponi, Mulheres Violentas, do Grupo Boa Companhia, e DESVIANTE ou Glory Box, de Nina Giovelli.
Mais que oferecer respostas, o seminário “Dicções femininas na cultura brasileira” será um espaço para a articulação de questionamentos que incomodam e nos tiram do lugar comum. Dias 24 e 25 de setembro, no Itaú Cultural!

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Exercício Cênico: “A Mais-Valia Vai Acabar, seu Edgar!”


Nos dias 23 (15h) e 27 de setembro (16h) no Paço Municipal (em frente à Prefeitura Municipal de Porto Alegre) a Oficina de Teatro de Rua Arte e Política, da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo irá apresentar o exercício cênico “A Mais-Valia Vai Acabar, seu Edgar!”. 
As apresentações fazem parte da programação da Mostra Ói Nóis Aqui Traveiz: Jogos de Aprendizagem 2016. 

O “Exercício Cênico: A Mais-Valia Vai Acabar, seu Edgar!” tem a coordenação de Paulo Flores, e traz no elenco os oficinandos: Aline Ferraz, Arthur Haag, Claudia Beatriz Severo, Clarissa Lukianski Pacheco, Daniel Steil, Daviana Maite Suárez, Gabriel Salcedo Botelho, Hariagi Borba Nunes, Helen Meireles Sierra, Jana Alichala Farias, Leticia Virtuoso, Liana Alice Corrêa, Lucas Gheller, Lucas Maciaseki, Mayura Matos, Mariana Maciel Stedele, Matheus Coelho Camini, Maura Nascimento, Pacha Corbo Junqueira, Raphael Costa Santos, Tiana Godinho de Azevedo e Victoria Silva.



TERREIRA DA TRIBO DE ATUADORES
ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ

A Terreira da Tribo acredita na importância da função social do artista, e pretende que essa formação favoreça a emergência do artista competente não apenas no seu ofício, mas também preocupado com o seu desempenho como cidadão.
A Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo oferece anualmente, de forma aberta e gratuita, oficinas de iniciação teatral, pesquisa de linguagem, formação e treinamento de atores.



A Mais-Valia Vai Acabar, seu Edgar!

Escrita em 1960 e apresentada no ano seguinte, a peça de Vianinha, por meio do humor, desenvolve a condição de explorador do capitalista e a situação de espoliado do operário, no âmbito material, moral, emocional, sexual, etc. No desenrolar do espetáculo, os operários passam a conhecer sua situação por meio da ´teoria da mais-valia´, que possibilitará a tomada de consciência e a organização da classe, permitindo, no futuro, sua emancipação. As personagens são categorias sociais (os Desgraçados e os Capitalistas), que vivenciam, no palco, por intermédio de ´esquetes´, situações nas quais a opressão se manifesta didaticamente. Vianinha, para tanto, lançou mão de vários recursos técnicos que desenvolvidos no teatro de agitação de Erwin Piscator, na Alemanha dos anos 20, e que hoje fazem parte da história da encenação ocidental. Procurou romper alguns dos limites estabelecidos entre palco e platéia, além de utilizar, na composição das personagens, ´gestos´ que se tornaram clássicos no que se refere ás proposições do ´teatro épico´. Nas palavras do próprio autor “a mais-valia contém a divisão do trabalho manual e intelectual, a concentração demográfica, a guerra, a desnecessidade da existência dos outros. Procurei explicar a mais-valia de maneira primária, que só de maneira primária a conheço. A mais-valia vale um teatro político e circunstancial. A mais-valia vai acabar.” A encenação da peça permite a identificação do perfil didático do texto, várias são as cenas que guardam explicações e comentários a respeito da mais-valia e das condições desumanas resultantes de seu processo de obtenção. A conotação pedagógica possui, um objetivo claro, estimular a reflexão crítica e a atitude contestadora. De fato, ao colocar frente a frente “capitalistas” e “desgraçados”, os primeiros apoiados em justificativas para as desigualdades sociais, os outros sofrendo os danos de uma condição opressiva tomada como dada, alternando aceitação passiva com desejos de libertação, Oduvaldo Vianna Filho provoca reações, derruba crenças, mobiliza a parte explorada desta relação em prol de uma reformulação das mediações de trabalho e, em conseqüência, da sociedade. Um dos “desgraçados” ilustra tal proposição: “precisamos descobrir imediatamente de onde vem essa dor, essa raiva enrugada, o macacão que não sai do meu corpo.” A personagem sai então em busca de respostas. E as encontra: “nossa força de trabalho é mercadoria. E sabe quanto vale? O tempo de trabalho que leva pra fazer ela. [...] Isso vale duas horas. Você trabalha oito. As seis horas que sobram eles embolsam”. Os “capitalistas” reagem, valendo-se de seus discursos: “isso tudo é mentira que contaram pra vocês. Nós temos nossos cientistas, economistas, puxa-saquistas que estudaram e pensaram... E agora vocês – meia dúzia de gatos pingados, suados, mijados – com essa história?” Mas a reação não surte efeito, uma vez que o “desgraçado”, amparado pela sua descoberta, já não se curva ante as verdades oficiais, sacramentando, assim, a ambição do autor:  “precisamos contar pra todo mundo. Precisamos pensar mais e descobrir como as coisas são. Vamos contar, falar, cantar, berrar, sussurrar, esfregar [...] Fomos nós que fizemos tudo isso [...] Essa avenida é tua, essa casa é tua, como o sol, o mar que é seu, meu, do Abreu...” 

A Mostra Ói Nóis Aqui Traveiz: Jogos de Aprendizagem é um compartilhamento do processo pedagógico colocado em prática pela Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz através dos exercícios cênicos criados nas Oficinas Populares de Teatro dentro da ação Teatro Como Instrumento de Discussão Social e da Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo.

Viúvas Performance sobre a Ausência no Forte de Santo Amaro - Santos set/2016

Por Cris Komesu/Sesc SP

Final de tarde no porto. A experiência de Viúvas começa com o pôr do sol entre os navios: chegamos bem a tempo de ver os cargueiros e pequenos barcos desfilarem pelo canal, tingidos com as últimas luzes amarelas e vermelhas. A lua cheia vem em seguida, como se anunciasse o início do espetáculo.


Embarcamos em direção ao Museu Histórico Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande. Lentamente, a orla recém-iluminada se distancia: a travessia é curta, mas é também uma viagem no tempo e espaço. Os muros da fortaleza militar construída no século XVI nos recebem (ou será que repelem?) e ajudam a construir a cena.
  
Desembarcamos. Homens abrem caminho marchando, armas em punho. A disciplina e a ordem combinam com a arquitetura rígida, branca. Do alto, um ditador anuncia um futuro de paz, mas com uma condição: que se esqueça o passado, seus massacres e seus mortos. Um símbolo dos regimes militares que se instalaram em diversos países da América Latina.


A peça avança e caminhamos junto, percebendo pelo chão as pedras que margeiam o monumento. Pontudas, irregulares, se soltam e mostram que a ordem não é tão absoluta assim. São como as viúvas (e mães, filhas, irmãs), que resistem na figura de Sophia. Ela não quer esquecer: segue na busca dos que foram levados pela ditadura.




Nós seguimos também, enquanto o espetáculo ocupa diferentes espaços. Subimos ao topo, entramos no salão, margeamos os muros, espiamos os cantos. E a fortaleza, antes tão rígida, se transforma: é também onde se pila o milho, onde se brinda a festa, onde a repressão mostra os seus horrores e onde as mulheres esperam os homens que nunca retornarão.





Inquietos, sempre na expectativa do próximo passo, também estamos à espera. Não sabemos exatamente o que buscar, mas é impossível resistir à caminhada que traz descobertas a cada movimento, capaz de nos fazer ver água onde há apenas rocha. A certeza que nos resta é o desejo de não esquecermos a beleza de cada cena, assim como as viúvas não esquecem as dores de suas perdas.

Fotos: Matheus José Maria

Matéria publicada originalmente em:
http://mirada.sescsp.org.br/digital/viuvas-espaco-em-cena/

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Viúvas Performance sobre a Ausência no Festival Internacional Mirada - Santos

O trabalho “Viúvas Performance sobre a Ausência” da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que no ano de 2011 realizou apresentações inesquecíveis na Ilha das Pedras Brancas situada entre Porto Alegre e Guaíba, neste mês de setembro estará participando de um dos maiores festivais de teatro do país, o Mirada na cidade de Santos. A performance irá ocupar a Fortaleza da Barra, uma fortificação construída no Guarujá em 1584. 

As apresentações serão nos dias 15, 16 e 17 de setembro. Mais informações no link abaixo:

Foto: Pedro Isaias Lucas

 Viúvas mostra mulheres que lutam pelo direito de saber onde estão os homens que desapareceram ou foram mortos pela ditadura civil militar que se instalou em seu país. É uma alegoria sobre o que aconteceu nas últimas décadas na América Latina, e a necessidade de manter viva a memória deste tempo de horror, para que não volte mais a acontecer. O Teatro de Vivência do Ói Nóis Aqui Traveiz procura uma forma de relação aberta e sincera com o público, em que atores e espectadores partilhem de uma experiência comum, que tenha intensidade de um acontecimento, capaz de produzir novas formas de percepção.

Foto: Pedro Isaias Lucas
VIÚVAS PERFOMANCE SOBRE A AUSÊNCIA segue a linha do trabalho investigativo do grupo sobre o teatro ritual de origem artaudiana e performance contemporânea. Rompendo com a sujeição intelectual da palavra, a encenação busca a linguagem da cena que, consistindo de tudo aquilo que pode se manifestar e exprimir materialmente numa cena e que se dirige antes de mais nada aos sentidos, uma linguagem feita de signos e capaz de transmitir uma emoção poética. Essa “poesia no espaço” é descrita por Artaud como ativa e anárquica em sua ação dissociadora e vibratória sobre a sensibilidade. A poética cênica de VIÚVAS dirige-se primordialmente aos sentidos, mas a intenção é também “fazer pensar”. O reconhecimento se faz, portanto, via corpo e intelecto. O ato cognoscitivo vem a posteriori, precedido pela experiência, por algo que não pode ser determinado de imediato, mas que só assim se transforma em experiência durável. 

Foto: Claudio Etges

A pesquisa da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui 
Traveiz persevera em manter viva a memória desse tempo de horror, para que não se repita. Inspira-se no romance Viúvas (Viudas, 1981), do chileno Ariel Dorfman que, dez anos depois, o adaptou para o teatro a quatro mãos com o americano Tony Kushner. Na estreia do trabalho, em 2011, o público de Porto Alegre ia de ônibus até a margem do rio Guaíba e, de lá, seguia de barco por cerca de 2,5 km até as ruínas da Ilha do Presídio/Pedras Brancas, destino forçado de presos políticos no regime militar. No MIRADA, o “teatro de vivência” acontece na Fortaleza da Barra, fortificação construída no Guarujá em 1584.


CRIAÇÃO COLETIVA A PARTIR DO TEXTO DE ARIEL DORFMAN
DRAMATURGIA, ILUMINAÇÃO, FIGURINOS E DIREÇÃO: TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 
COM: PAULO FLORES, TÂNIA FARIAS, CLÉLIO CARDOSO, MARTA HAAS, PAULA CARVALHO, EUGÊNIO BARBOZA, JANA FARIAS, LUCAS GHELLER, ROBERTO CORBO, LETÍCIA VIRTUOSO, JÚLIO KACZAM, MAYURA MATOS, KETER VELHO, LUANA ROCHA, ALEX DOS SANTOS, PASCAL BERTEN, DALVANA VANSO, ALINE FERRAZ, ALESSANDRO MULLER, EDUARDO ARRUDA, DANIEL STEIL E MÁRCIO LEANDRO.

Fotos: Claudio Etges