quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Viúvas Performance sobre a Ausência no Festival Internacional Mirada - Santos

O trabalho “Viúvas Performance sobre a Ausência” da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que no ano de 2011 realizou apresentações inesquecíveis na Ilha das Pedras Brancas situada entre Porto Alegre e Guaíba, neste mês de setembro estará participando de um dos maiores festivais de teatro do país, o Mirada na cidade de Santos. A performance irá ocupar a Fortaleza da Barra, uma fortificação construída no Guarujá em 1584. 

As apresentações serão nos dias 15, 16 e 17 de setembro. Mais informações no link abaixo:

Foto: Pedro Isaias Lucas

 Viúvas mostra mulheres que lutam pelo direito de saber onde estão os homens que desapareceram ou foram mortos pela ditadura civil militar que se instalou em seu país. É uma alegoria sobre o que aconteceu nas últimas décadas na América Latina, e a necessidade de manter viva a memória deste tempo de horror, para que não volte mais a acontecer. O Teatro de Vivência do Ói Nóis Aqui Traveiz procura uma forma de relação aberta e sincera com o público, em que atores e espectadores partilhem de uma experiência comum, que tenha intensidade de um acontecimento, capaz de produzir novas formas de percepção.

Foto: Pedro Isaias Lucas
VIÚVAS PERFOMANCE SOBRE A AUSÊNCIA segue a linha do trabalho investigativo do grupo sobre o teatro ritual de origem artaudiana e performance contemporânea. Rompendo com a sujeição intelectual da palavra, a encenação busca a linguagem da cena que, consistindo de tudo aquilo que pode se manifestar e exprimir materialmente numa cena e que se dirige antes de mais nada aos sentidos, uma linguagem feita de signos e capaz de transmitir uma emoção poética. Essa “poesia no espaço” é descrita por Artaud como ativa e anárquica em sua ação dissociadora e vibratória sobre a sensibilidade. A poética cênica de VIÚVAS dirige-se primordialmente aos sentidos, mas a intenção é também “fazer pensar”. O reconhecimento se faz, portanto, via corpo e intelecto. O ato cognoscitivo vem a posteriori, precedido pela experiência, por algo que não pode ser determinado de imediato, mas que só assim se transforma em experiência durável. 

Foto: Claudio Etges

A pesquisa da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui 
Traveiz persevera em manter viva a memória desse tempo de horror, para que não se repita. Inspira-se no romance Viúvas (Viudas, 1981), do chileno Ariel Dorfman que, dez anos depois, o adaptou para o teatro a quatro mãos com o americano Tony Kushner. Na estreia do trabalho, em 2011, o público de Porto Alegre ia de ônibus até a margem do rio Guaíba e, de lá, seguia de barco por cerca de 2,5 km até as ruínas da Ilha do Presídio/Pedras Brancas, destino forçado de presos políticos no regime militar. No MIRADA, o “teatro de vivência” acontece na Fortaleza da Barra, fortificação construída no Guarujá em 1584.


CRIAÇÃO COLETIVA A PARTIR DO TEXTO DE ARIEL DORFMAN
DRAMATURGIA, ILUMINAÇÃO, FIGURINOS E DIREÇÃO: TRIBO DE ATUADORES ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ 
COM: PAULO FLORES, TÂNIA FARIAS, CLÉLIO CARDOSO, MARTA HAAS, PAULA CARVALHO, EUGÊNIO BARBOZA, JANA FARIAS, LUCAS GHELLER, ROBERTO CORBO, LETÍCIA VIRTUOSO, JÚLIO KACZAM, MAYURA MATOS, KETER VELHO, LUANA ROCHA, ALEX DOS SANTOS, PASCAL BERTEN, DALVANA VANSO, ALINE FERRAZ, ALESSANDRO MULLER, EDUARDO ARRUDA, DANIEL STEIL E MÁRCIO LEANDRO.

Fotos: Claudio Etges

sábado, 20 de agosto de 2016

O percurso feminista do Ói Nóis Aqui Traveiz

ARTIGO publicado originalmente no blog Teatrojornal do jornalista e amigo Valmir Santos.

20 de agosto 2016 | por Michele Rolim • Porto Alegre

Foto: Pedro Isaias Lucas

Nos últimos anos, questões relacionadas ao feminismo encontram cada vez mais espaços nas criações teatrais. Em Porto Alegre (RS), a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz vem se dedicando, ao longo da sua trajetória, a trabalhos que flertam diretamente com essa temática.
Convém, desde já, dizer que tomamos a definição de feminismo como luta por um modo de organização social em que as diferenças sexuais não se traduzam em relação de poder e onde as ditas qualidades femininas ou masculinas sejam atributo de todos os seres humanos (ALVES e PITANGUY). O diálogo da Tribo com essa temática se deve à marca de nascença desse coletivo: o ativismo político que repudia os valores dominantes e que almeja a transformação da sociedade.
A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz surgiu em 1978, a partir da percepção de uma desconexão do teatro com o momento político. Com o propósito de subverter a estrutura das salas de espetáculos, suas montagens rompem com o modelo palco italiano, ou seja, com a delimitação clássica entre palco e plateia. Além disso, também leva o teatro as ruas. Dessa forma, experimenta novas linguagens e cria uma estética própria, firmando-se como um marco na cena gaúcha.
Desde a sua criação, uma grande preocupação do grupo foi ter um espaço físico [1] para o desenvolvimento de sua pesquisa teatral. Esse espaço, que ao longo dos anos foi alterando nome e endereço, é chamado pelos “atuadores” de Terreira da Tribo. “Atuadores” é como os integrantes do grupo se autodenominam. A jornalista e atriz Sandra Alencar, em seu livroAtuadores da Paixão (1997), define que o termo “atuador” é uma junção do artista com o ativista político.
Desde a sua origem, o Ói Nóis busca romper com a sociedade patriarcal e com as formas de poder que ela representa, e isso se reflete em todo o seu processo de trabalho
Tendo como referência o Living Theatre, o Ói Nóis faz um teatro de contestação, com base nos preceitos de Antonin Artaud, Brecht e Grotowski. A Terreira da Tribo, seu centro de produção, ocupa lugar de destaque entre os espaços culturais do estado, sendo inclusive considerado Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, desde 2014. O local também funciona como escola de formação de atores e como ponto de fomentação da criação artística.
Para se produzir um teatro feminista, os meios de produção e as parcerias de trabalho são essenciais. É preciso proporcionar um espaço onde homens e mulheres, respeitando as diferenças de cada um, tenham a mesma oportunidade de se desenvolverem como pessoa e artista.
Conforme afirma a diretora e professora da ECA/USP Ingrid Koudela, “para transformar a sociedade por meio do teatro, é indispensável modificar as estruturas do teatro, que são um reflexo das estruturas da sociedade”. Para isso, a organização da Tribo é baseada no trabalho coletivo, tanto na produção das atividades teatrais, como na manutenção do espaço. Cada atuador, portanto, é um “cocriador”.  Desde a sua origem, o Ói Nóis busca romper com a sociedade patriarcal e com as formas de poder que ela representa, e isso se reflete em todo o seu processo de trabalho.

Foto: Cláudio Etges

Arlete Cunha em Ostal: peça sedimenta o feminismo como tema


Paulo Flores, o único dos fundadores que se mantém no grupo, reforça que o próprio nome da Terreira é um feminino de Terreiro. Ele aponta que o Ói Nóis estava inserido em um contexto em que o feminismo eclodia nas universidades. Assim, podemos perceber que as questões feministas estão entranhadas na formação mesma do grupo e, naturalmente, nas suas produções.
Dentre as peças do Ói Nóis, selecionamos um recorte das montagens de sala, denominados pelo grupo de Teatro Vivência. Nesse tipo de espetáculo, a ambientação cênica permite que o espectador seja afetado pelo contato direto com a ação do ator e que isso proporcione um encontro transformador. Em total de 23 trabalhos deste recorte, vamos abordar 13 espetáculos – os mais significativos em abordagens feministas.
Podemos observar que o encontro com a temática do feminismo se dá a partir da montagemA bicicleta do condenado (1978), com texto de Fernando Arrabal, que apresenta a personagem Tasla (Maluh Baumgarten), uma mulher que trabalha para esse sistema de força sem, no entanto, concordar com suas leis. Ainda que o protagonista seja Viloro, um músico que representa a metáfora do artista sendo cerceado, Tasla tem um papel de resistência dentro da montagem.
Em Ensaio selvagem (1979), com texto de José Vicente, a mulher já aparece como protagonista. Brown Sugar (Ellen Nara e Maluh Baumgarten) é uma estrela de cinema e teatro brasileira que se deixa dominar pelo imperialismo, mas ganha consciência e, ao final, se rebela.

Foto: Jorge Etecheber

Tânia Farias em Kassandra in process: mito sob nova perspectiva

No espetáculo Ananke, a luta pela vida (1980), a figura da mulher fica ainda mais evidente. Ela é representada por uma jovem (Rossana Rosa) que é moldada pelas regras familiares que estão inseridas em um contexto patriarcal. A sua liberdade ocorre por meio do encontro com a Mulher da Rua (Eleonora Rosa).
Já o espetáculo A visita do presidenciável ou os morcegos estão comendo os abacates maduros(1984) está contextualizado no momento político brasileiro da redemocratização, quando o povo está pedindo Diretas Já! Entre as diversas histórias do enredo marcado pela crítica à classe média – que apoiou o golpe de 64 e, apenas quando perde seus privilégios, sai às ruas pelas Diretas Já –, estava o drama de Alice (Beatriz Britto), que nasceu exatamente no dia do golpe, 1 de abril de 1964, e vive perturbada com seus conflitos íntimos.
No entanto, segundo Paulo Flores, em entrevista concedida a esta autora, a temática feminista será determinante a partir do espetáculo Ostal (1987). Com livre adaptação do texto de Aldo Rostagno, do grupo italiano Cfr., a produção mostra a esquizofrenia como uma doença do processo de adaptação social que o indivíduo sofre desde o nascimento. Isso pela perspectiva de uma mulher (Arlete Cunha).
Na mesma linha feminista, podemos citar o espetáculo Antígona – Ritos de paixão e morte(1990)[2]. Ele inaugura o projeto Raízes do Teatro, que estuda as origens ritualísticas da arte teatral. A principal característica dessa investigação é o tratamento especial dado à mitologia. A releitura de diferentes versões dos mitos é aliada a uma pesquisa cênica para atualizá-los. A dramaturgia é composta por diversos autores, e o texto principal utilizado é o de Sófocles, que mostra a saga de Antígona (Beatriz Britto) para enterrar seu irmão. No espetáculo, ganha destaque o rito do sepultamento, que deixa em evidência a figura da mulher que não se resigna.
Já o espetáculo A morte e a donzela (1997) inaugura a presença efetiva de Tânia Farias nas peças do Ói Nóis, que, ao longo de sua carreira, vai atuar em papéis nos quais a figura da mulher é protagonista. Farias começou seu envolvimento com o grupo em 1993, no qual ela ocupa um papel de liderança ao lado de Paulo Flores, fundador do coletivo.
A montagem é baseada no texto de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, autores de Para ler o pato Donald. Nessa peça é retratado o uso da tortura pelas ditaduras militares. Paulina (Tânia Farias) foi diversas vezes violentada e busca justiça por suas próprias mãos. Ela acredita ter encontrado, após 15 anos, o homem que a torturou. A peça está situada no momento da redemocratização. Em cena, Farias estava acompanhada de mais dois atores: Julio Saraiva e Paulo Flores.

Foto: Pedro Isaias Lucas

Medeia vozes: versão antiga  propicia outra percepção do mito

A atriz enfatiza a importância desse trabalho: “Eu era uma mulher entre dois homens. Como é que no processo criativo tu impõe o teu espaço? Porque tu está ali com dois homens que, por melhor que sejam maravilhosos e são, certamente é uma coisa que a gente tem que brigar todo dia porque está na gente, é cultural. Acho que também teve esse momento mulher criadora que tem que se colocar para abrir espaço para isso, para o seu fazer.”
Também podemos apontar outro espetáculo que traz como protagonista uma mulher:Hamlet Máquina (1999), do alemão Heiner Muller. Estruturada em cinco cenas e inspirada em Hamlet, de William Shakespeare, a peça encena catástrofes da história e da cultura ocidental, além da crise do artista e intelectual.  Farias atua como Ofélia, personagem que ganha o protagonismo nessa trama como vítima do jogo patriarcal de vingança e poder. De acordo com ela, “Ofélia é a mulher que rompe os instrumentos do seu cativeiro doméstico e fala de homens que se serviram do seu corpo.”
Uma das experiências pessoais que Tânia menciona é o fato de que o texto foi encenado ao mesmo tempo em que a Terreira da Tribo lutava para não ser despejada de sua sede pelo aumento do aluguel e pela negativa da prefeitura municipal (um governo de esquerda) em auxiliar o grupo. O embate para a atuadora era, então, fora e dentro do palco.

Até este momento, vemos representações de um teatro feminista em textos escritos por homens. Com o espetáculo Aos que virão depois de nós, Kassandra in process (2002) [3] – que também integra o projeto Raízes do Teatro –, inverte-se essa lógica. O texto principal é da autora alemã Christa Wolf. Wolf considera as tragédias gregas uma visão masculina, então, ela reescreve Kassandra sob uma nova perspectiva, conforme comenta a professora Rosvitha Friesen Blume: “Tomando como fontes a Ilíada de Homero e a Oréstia de Ésquilo, Wolf eleva Kassandra a personagem central em sua releitura do mito, uma mulher em busca da autonomia. A Kassandra de Wolf é uma mulher que não aceita passivamente o papel que lhe é imposto pela sociedade troiana, buscando sua libertação através do cargo de sacerdotisa e do dom da vidência.”
Depois, em 2006, o Ói Nóis retorna ao autor Heiner Muller com A missão – Lembrança de uma revolução. A peça conta a história de uma revolta de escravos a partir de três revolucionários franceses: um nobre, um camponês e um ex-escravo. Eles são enviados à Jamaica (na época colônia inglesa) para liderar a revolta.
O jornalista e pesquisador Newton Silva explica como a questão de gênero entrou na trama: “Uma dessas referências que o grupo pinçou da “caixinha” foi determinante para definir uma importante questão de gênero da poética da encenação: a música de John LennonWoman is the nigger of the world (A mulher é o negro do mundo). A partir dessa canção, o grupo decidiu que todos os negros da peça seriam representados por mulheres, como o coro de escravos e o próprio revolucionário Sasportas, personagem que foi destinado a Tânia Farias.”

Foto: Pedro Isaias Lucas

Performance Onde? Ação nº 2, desdobramento de Viúvas – Performance sobre a ausência

Já na montagem Viúvas – Performance sobre ausência (2011), a personagem principal, Sophia, representa todas as mulheres que perderam um ente querido para a repressão.  Ela lidera um grupo de mulheres que lutam pelo direito de saber onde estão os corpos dos homens que desapareceram ou foram mortos pela ditadura. Nesta produção, o Ói Nóis volta ao texto de Ariel Dorfman, em parceria com Tony Kushner. Para chegar ao local da apresentação, os espectadores trafegam até um clube náutico na Zona Sul de Porto Alegre e lá tomam um barco que irá conduzi-los até a Ilha das Pedras Brancas ou Ilha do Presídio, local que, nas décadas de 1960 e 1970, durante a ditadura militar, era o destino de presos políticos.
Tânia acredita que, nesse trabalho, é possível identificar várias camadas de opressão da mulher: “Tu tens a Sofia, que é essa mulher forte, lutadora, que vem de um contexto em que os homens foram todos eliminados e que restaram as mulheres, imaginando que as mulheres não têm força para perpetuar uma ideia mais avançada de sociedade que pode transformar esses países. Então as mulheres podem ficar porque está subentendido que elas não são uma ameaça porque os homens foram assassinados e desaparecidos. Sophia é uma mulher que exige que digam onde estão os corpos dos desaparecidos. Ao mesmo tempo, representa a mulher do campo. Você começa a entender que são muitas camadas, porque a opressão está colocada, Os pobres são oprimidos no mundo inteiro, mas imagine a mulher pobre. Os negros são oprimidos, mas imagina a mulher negra. As mulheres são oprimidas, imagine as mulheres do campo. Então, a Sofia é uma mulher do campo, ordinária, latino-americana; quantas camadas de opressão tu tem sobre essa mulher?”
E o mais recente trabalho do Ói Nóis, Medeia vozes (2013), retoma a autora Christa Wolf. O espetáculo, que integra o projeto Raízes do Teatro, tem como principal referência o romance homônimo (2013) de Wolf. O novo espetáculo da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz parte do mito de Medeia. A personagem que o coletivo de artistas apresenta aos espectadores é muito diferente daquela presente na obra de Eurípedes. Por mais de dois mil anos, uma das mais poderosas mulheres da mitologia grega sempre foi acusada de atrocidades, como matar seu irmão Apsirto para fugir com Jasão. Outro crime imputado a Medeia é a morte de seus filhos, crime que teria cometido com o intuito de causar o máximo de dor a Jasão.

Assim como em Kassandra, Christa Wolf descontrói e reconstrói a personagem da mitologia grega. Em Medeia vozes, a autora retoma uma versão antiga e desconhecida do mito, apresentando uma mulher que não cometeu nenhum dos crimes de que Eurípides a acusa. Na Medeia de Wolf ela é uma asiática, a estrangeira estigmatizada na Grécia, excluída e alvo de acusações infundadas, versão que altera a percepção do espectador sobre o mito.
Por fim, quase todas as personagens que trazem a mulher como protagonista, vividas por Tânia Farias, estão no trabalho solo de desmontagem cênica Evocando os mortos – Poéticas da experiência (2013). A desmontagem como procedimento artístico-pedagógico traz, na base de discussão de seu projeto, a memória de suas edições anteriores [4]. Nesse trabalho, Tânia busca fazer o percurso de volta a lugares e sensações passadas. Assim, ela revisita em cena personagens dos espetáculos Viúvas – Performance sobre a ausência; A missão – Lembrança de uma revolução; Kassandra in process; e Hamlet máquina.
Ao longo da trajetória do Ói Nóis, sempre foi prioridade dar voz aos oprimidos. Dessa forma, foram levadas à cena diversas mulheres protagonistas. Essas mulheres são apresentadas ao público de forma que haja uma desconstrução do feminino, entendendo esse feminino como a definição de comportamentos impostos às mulheres em uma sociedade patriarcal. Com isso, o intuito do grupo é fazer com que o papel da mulher seja repensado.
É importante reiterar que a criação e a gestão coletivas colaboram para instaurar um ambiente de oportunidades iguais para homens e mulheres. Inclusive as atuadoras da Tribo passam a ocupar lugares de destaque dentro do coletivo, como Arlete Cunha e Beatriz Britto no final dos anos 1980 e início dos anos 1990; e Tânia Farias a partir dos anos 2000.
A história do teatro é formada, em sua maioria, por homens. Basta ver que as posições consideradas de poder no fazer teatral moderno, como a dramaturgia e a direção. Dar voz a essas protagonistas é, então, poder reescrever o lugar da mulher frente às criações teatrais.
Podemos perceber que em grande parte dos espetáculos do Ói Nóis, que a mulher representa a busca por alteração do sistema político, econômico ou social imposto. Refazer esse trajeto ajuda a compreender como o feminismo foi sendo apropriado pelo grupo ao longo das décadas, por meio das escolhas dos temas e da valorização dos personagens, especialmente a partir dos anos 1980, seja pelo modo de organização – anarquismo, ausência de chefes, divisão de tarefas e figura do atuador. O ápice da abordagem feminista se dá a partir do encontro do coletivo com os textos de Christa Wolf, primeiro Kassandra, depois com Medeia.
Através do processo historiográfico das artes lançamos luz sobre o passado para a compreensão do presente e projeção do futuro. É desejável que o Ói Nóis Aqui Traveiz  siga provocando novas formas de pensar as questões relacionadas a mulher. Quem sabe assim, a cultura machista tão arraigada no estado do Rio Grande do Sul possa, ao menos, em espaços mais plurais encontrar fortes combatentes dela.

.:. Escrito no contexto do projeto Crítica Militante, iniciativa do site Teatrojornal – Leituras de Cena contemplada no edital ProAC de “Publicação de Conteúdo Cultural”, da Secretaria do Estado de São Paulo.

Site Teatrojornal:
http://teatrojornal.com.br/2016/08/o-percurso-feminista-do-oi-nois-aqui-traveiz/

Notas:
[1] O Ói Nóis já esteve em cinco diferentes espaços em Porto Alegre: Teatro Ói Nóis Aqui Traveiz, Rua Ramiro Barcelos, 485 – Bairro Floresta (de 1978 a 1979); Casa Para Aventuras Criativas,  Rua Ramiro Barcelos, 228 – Bairro Floresta (de 1980 a 1982); Terreira da Tribo, Rua José do Patrocínio, 527 – Bairro Cidade Baixa (de 1984 a 1999); Terreira da Tribo, Rua Dr. João Inácio, 981 – Bairro Navegantes (de 1999 a 2008); Terreira da Tribo, Rua Santos Dumont, 1186 – Bairro São Geraldo (de 2009 a 2016). Em 2008 o grupo ganhou um terreno da Prefeitura Municipal, mas as obras começaram somente este ano, com previsão de conclusão em dezembro de 2017. Até lá o grupo segue pagando aluguel como fez em toda a sua trajetória.
[2] Fazem parte também do projeto Raízes do Teatro os espetáculos Missa para Atores e Público sobre a Paixão e o Nascimento do Dr. Fausto de Acordo com o Espírito de Nosso Tempo(1994); Aos Que Virão Depois de Nós — Kassandra in Process (2002); e Medeia Vozes (2014).
[3] A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz recebe o Prêmio Shell na Categoria Especial pela Pesquisa e Criação Coletiva e por Melhor Trilha Original de Johann Alex de Souza. Tânia Farias é indicada ao Prêmio Shell de Melhor Atriz pelo papel de Kassandra. O espetáculo também foi vencedor do Prêmio Açorianos de Porto Alegre nas categorias Melhor Espetáculo, Produção, Trilha Sonora e Atriz Coadjuvante.
[4] A “desmontagem” é um tema bastante pesquisado pela cubana Ileana Diéguez, radicada no México. Ela vem explorando o tema em alguns anos de atividades com artistas na Universidad Autónoma Metropolitana (UAM-Cuajimalpa), no México, e publicou o livroDes/tejiendoescenas. Desmontajes: processo de investigatión y creación (ano).

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz em BH!

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz estará em Belo Horizonte nos dias 13, 14 e 15 de agosto com o projeto “Teatro e Memória nos Espaços Públicos” com apresentações do espetáculo de teatro de rua “O Amargo Santo da Purificação”, da performance “Onde? Ação Nº 2” e da desmontagem Evocando os Mortos Poéticas da Experiência.

Toda a programação tem entrada franca. O projeto foi contemplado pelo Edital Circuito Funarte Cena Pública e compõe a programação da Mostra de Teatro e Direitos Humanos de Belo Horizonte. 

Na sequencia a Tribo segue para São Paulo. Mais informações aqui:



Confira a programação:
Belo Horizonte
13 e 14/08, sábado e domingo, 14h 
Espetáculo de Teatro de Rua
“O Amargo Santo da Purificação”
Parque Municipal, Centro, Belo Horizonte 

15/08, segunda, 12h 
Performance “Onde? Ação Nº 2”
Praça da Rodoviária, Centro, Belo Horizonte

15/08, segunda, 20h
Desmontagem "Evocando os Mortos Poéticas da Experiência"
Zap 18

Teatro e Memória nos Espaços Públicos:

O Projeto Teatro e Memória nos Espaços Públicos traz o debate e a reflexão sobre nosso passado recente – os anos de Ditadura Militar no Brasil – a partir do teatro como um ato de resistência. Por meio da realização de apresentações de teatro de rua e performance, promoverá o debate político e estético, visando à formação de uma consciência crítica e sócio-política, uma exigência para a ideia de “exercício da cidadania”.
O projeto prevê a realização, pelo grupo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, de apresentações do espetáculo de Teatro de Rua “O Amargo Santo da Purificação” e da performance “Onde? Ação nº 2” nas cidades de Belo Horizonte/MG e São Paulo/SP no contexto dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2016. As apresentações em Belo Horizonte também compõem a Programação da Mostra de Teatro e Direitos Humanos de Belo Horizonte. Todas as atividades serão gratuitas e abertas ao público em geral.

TEATRO DE RUA – O AMARGO SANTO DA PURIFICAÇÃO
O Amargo Santo da Purificação é uma visão alegórica e barroca da vida, paixão e morte do revolucionário Carlos Marighella. Marighella viveu e morreu durante períodos críticos da história contemporânea do Brasil, sendo protagonista na luta contra as ditaduras do Estado Novo e do Regime Militar. A dramaturgia elaborada pelo Ói Nóis Aqui Traveiz parte dos poemas escritos por Carlos Marighella que transformados em canções são o fio condutor da narrativa. Utilizando a plasticidade das máscaras, de elementos da cultura afro-brasileira e figurinos com fortes signos, a encenação cria uma fusão do rituacom o teatro dança. Através de uma estética “glauberiana”, o Ói Nóis Aqui Traveiz traz para as ruas da cidade uma abordagem épica das aspirações de liberdade e justiça do povo brasileiro.

PERFORMANCE – ONDE? AÇÃO Nº 2
A performance Onde? Ação nº2 de forma poética provoca reflexões sobre o nosso passado recente e as feridas ainda abertas pela ditadura militar. A ação performática se soma ao movimento de milhares de brasileiros que exigem que o Governo Federal proceda a investigação sobre o paradeiro das vítimas desaparecidas durante o regime militar, identifique e entregue os restos mortais aos seus familiares e aplique efetivamente as punições aos responsáveis. A proposta deste trabalho é trazer a reflexão sobre o que foram aqueles anos da Ditadura Militar no Brasil, a partir do teatro como um ato de resistência. A performance visa atualizar o debate sobre as implicações e consequências deste episódio para a história nacional.

DESMONTAGEM: EVOCANDO OS MORTOS – POÉTICAS DA EXPERIÊNCIA
A desmontagem Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência refaz o caminho do ator na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo. Desvelando os processos de criação de diferentes personagens, criadas entre 1999 e 2011, a atuadora Tânia Farias deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação. Através da ativação da memória corporal, a atriz faz surgir e desaparecer as personagens, realizando uma espécie de ritual de evocação de seus mortos para compreensão dos desafios de fazer teatro nos dias de hoje.

Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
38 Anos de Utopia, Paixão e Resistência

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz surgiu em 1978 com uma proposta de renovação radical da linguagem cênica. Durante esses anos criou uma estética pessoal, fundada na pesquisa dramatúrgica, musical, plástica, no estudo da história e da cultura, na experimentação dos recursos teatrais a partir do trabalho autoral do ator. Não se limitando à sala de espetáculos, desenvolveu uma linguagem própria de teatro de rua, além de trabalhos artístico-pedagógicos junto à comunidade local. Abriu um novo espaço para a pesquisa cênica - a Terreira da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que funciona como Escola de Teatro Popular, oferecendo diversas oficinas abertas e gratuitas para a população.
A organização da Tribo é baseada no trabalho coletivo, tanto na produção das atividades teatrais, como na manutenção do espaço. O Ói Nóis Aqui Traveiz segue uma evolução contínua e constitui um processo aberto para novos participantes. Para a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz o teatro é instrumento de desvelamento e análise da realidade; a sua função é social: contribuir para o conhecimento dos homens e ao aprimoramento da sua condição. 
Num mundo marcado pela exclusão, marginalização, pela homogeneização, pelo pensamento único, enfim, pela desumanização e pela barbárie, cada vez mais é vital e necessário denunciar a injustiça, as vendas de opinião, o autoritarismo, a mediocridade e a falta de memória. Esta é a defesa que o Ói Nóis faz o teatro como resistência e manutenção de valores fundamentais que diferenciam uns de outros: a solidariedade, a honestidade pessoal e a liberdade. 
Fazendo um teatro a serviço da arte e da política, que não se enquadra nos padrões da ética e da estética de mercado. O teatro como um modo de vida e veículo de idéias: um teatro que não comenta a vida, mas participa dela!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ói Nóis Aqui Traveiz participa do 16º Festival Experimenta Teatro em Rosário (ARG)

A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz participa da 16º edição do “Experimenta Teatro - Encontro Internacional de Grupos” organizado pelo grupo El Rayo Misterioso, em Rosário na Argentina.

Os atuadores Pascal Berten e Tânia Farias estarão ministrando uma oficina/vivência nos dias 8 e 9 de agosto, na sede do grupo El Rayo Misterioso, e no dia 10 (no mesmo local) a atuadora Tânia Farias apresenta a desmontagem “Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência”.

O Festival que acontece de 7 a 13 de agosto conta com uma programação de apresentações, debates, seminários, oficinas e reúne grupos da Alemanha, Brasil, Coreia do Sul, Costa Rica, Espanha, Finlândia e Paraguai. O Grupo El Rayo Misterioso esteve em Porto Alegre na última edição do Festival de Teatro Popular Jogos de Aprendizagem, organizado pela Tribo de atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.

Mais informações aqui:



DESMONTAGEM: EVOCANDO OS MORTOS – POÉTICAS DA EXPERIÊNCIA

A desmontagem Evocando os Mortos – Poéticas da Experiência refaz o caminho do ator na criação de personagens emblemáticos da dramaturgia contemporânea. Constitui um olhar sobre as discussões de Gênero, abordando a violência contra a mulher em suas variantes, questões que passaram a ocupar centralmente o trabalho de criação do grupo. Desvelando os processos de criação de diferentes personagens, criadas entre 1999 e 2011, a atuadora Tânia Farias deixa ver quanto as suas vivências pessoais e do coletivo Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz atravessam os mecanismos de criação. Através da ativação da memória corporal, a atriz faz surgir e desaparecer as personagens, realizando uma espécie de ritual de evocação de seus mortos para compreensão dos desafios de fazer teatro nos dias de hoje.

foto: Paula Carvalho